Sobre Pessach, a Páscoa Judaica

Decidi que viajaria depois de Pessach quando, em sonho, me disseram que meu mar estava se abrindo. Depois de estudar mais sobre a festa (obrigada, Alizah!), algumas informações começaram a povoar minha mente e resolvi dividir com a família, lendo esse texto no Seder (jantar de comemoração). Ele é quase uma explicação de porque estou viajando… Por isso achei válido dividí-lo por aqui também.

(Pra quem não sabe, Pessach é a Páscoa judaica, quando os judeus resolveram sair de séculos de escravidão no Egito e peregrinaram por 40 anos no deserto para, por fim, chegarem á Terra Prometida – Israel. Tudo sob o comando de Moisés, que abriu o mar e recebeu as tábuas da lei – os 10 mandamentos.)

“Mitzrahim tem 2 sigificados na língua hebraica: Egito ou “lugar estreito”. Ou ambos. O Egito como representação de um lugar estreito. Um lugar que não tem espaço para comportar uma alma livre. E que alma não é livre? A sua alma é livre?

Em Mitzrahim, o povo judeu trabalhava como escravo, mas sua alimentação, moradia e descendência eram garantidos. O que mais poderiam querer? 40 anos sem alimentação e moradia? Dias de deserto? Qual é a medida de insatisfação que precisamos atingir para sairmos da zona do conforto? O quão aparentemente confortável é nosso desconforto interno? Até onde nosso conforto é acomodação? A partir de onde nossa vontade de mudança não é necessidade genuína?

Só 20% do povo judeu escravo em Mitzrahim peregrinou pelos famosos 40 anos com Moisés. Para os outros 80%, a decisão entre “escravidão-conforto” versus “liberdade-incerteza” pesou mais para a não movimentação.  Aqueles 20% passaram 40 anos sem saber de amanhã, sem certeza de seu futuro, sem nenhuma confirmação de que sua libertação seria bem sucedida. Sem saber se veriam a terra prometida, ou sequer se ela era realmente prometida. Prometida por quem, afinal? Ou ainda se seria vista apenas por seus filhos, netos ou bisnetos. 40 anos com a cabeça queimando durante o dia, os dentes tremendo durante a noite. 40 anos de estômago inquieto, de boca seca e olhos cansados. Esses mesmos 20% construíram Israel como conhecemos. Se não tivessem saído de sua zona de conforto, o que seria de nós hoje?

Quando, pela primeira vez em 4 séculos, os judeus provam o gosto da liberdade, reclamam da sede e do calor. Inclusive pedem a Moisés que os leve de volta a Mitzrahim. Como assim? A vida no Egito poderia ser realmente melhor do que andar com as próprias pernas? Ou será que essas pernas ainda não tinham forças para andar sozinhas? Afinal, nunca haviam sido responsáveis por seu destino. Eram vítimas. Se o caos reinasse, eles não tinham culpa. Apenas obedeciam a ordens. Será que é mais fácil ser escravo, vítima, do que assumir a responsabilidade por seus problemas? Será que o real problema em Mitzrahim não era a escravidão mental? A possibilidade de culpar o outro por suas próprias questões?  Com a liberdade, vem também a responsabilidade e isso pode ser, por vezes, desconfortável. Olhar no espelho e assumir o caos e as dificuldades que nos assolam é incômodo. Mas não seria essa a única maneira de traçar o próprio destino?

Os ex-escravos tiveram dificuldades de compreender sua liberdade por nunca terem-na presenciado. A liberdade sem entendimento pode resultar na troca de uma prisão por outra. Quais são nossas prisões? Quais são nossos padrões repetitivos? Quais são nossos apegos? Temos apego ao apego? Quais são os condicionamentos que limitam nosso crescimento? Onde está nossa coragem para identificá-los e rompê-los?

Mar vermelho em hebraico é Yam Suf. Com a mesma grafia de sof,que quer dizer fim ou extremidade. Quando atravessou o mar vermelho, o povo judeu deixou pra trás uma era não só de escravidão, mas de conformismo. O fim de uma era ou o começo de outra? Tanto o começo quanto o fim são a mesma extremidade. Então porque sofremos tanto ao finalizar alguma coisa? Porque não enxergar esse suposto fim como um novo começo? Quantos mares se abrem pra nós enquanto estamos tão preocupados em olhar pra trás, pros egípcios a nos perseguirem? E quantas travessias deixamos então de fazer?

Hoje (ou ontem, já que essa família adora subverter…) não é só Pessach. Estamos sob a regência de Áries, que é o primeiro signo do zodíaco (Nissan, no zodíaco hebraico). É a energia masculina de atividade, de ação, de sair da zona de conforto. É o signo que não pede licença para passar, vai atropelando aquilo que nos incomoda e não conseguimos abrir mão.  Vínculos que se fazem e se prendem, amarras e cascas que não permitem mais o movimento. Mas não é só Pessach e Áries. É também a lua cheia. O auge da energia do mês. Será que já não é hora de sairmos de Mitzrahim? De sairmos da condição humana de Mitzrahim, da condição humana de restrição? Já chegou seu momento de buscar sua própria Terra Prometida, seu aqui e agora, sua essência?  Quem é você? Quem é seu faraó? O que é seu Moisés? Onde está seu mar vermelho? E sua Terra Prometida? 

Chag Sameach!”

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3 respostas para Sobre Pessach, a Páscoa Judaica

  1. Gisele Dahis disse:

    Carol! Caí aqui sem querer e percebi que você saiu em viagem para dentro de si. Adorei seu blog, suas fotos, sua coragem… tudo! O mundo precisa de você! E você quer se doar para o mundo! Parceria perfeita. Curta, desfrute, seja feliz! Beijos, Gi

    • carolbergier disse:

      Que legal, Gi! Obrigada pela forca! Fique de olho que a partir de agora os posts ficam ainda mais interessantes!!!!

  2. carla disse:

    Muito inspirador, principalmente pela vontade de ser voce, na essencia, no todo; sendo natureza. Obrigada. (Agradeço muito a Gabi por ter me apresentado essa caminhada linda de se ler )

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