Riscando fósforos

Sentada debaixo de uma árvore, no meio do sítio arqueológico de Jerusalém, ao lado do Muro das Lamentações. Medito e pratico reiki com minha bola de cristal no colo. Enquanto isso, turistas franceses, indianos, americanos e de tantas outras nacionalidades passam por mim. Judeus, muçulmanos, hindus, católicos, ateus, agnósticos.

No alto-falante, uma prece muçulmana. Linda. Não sei se é porque é cantada de hora em hora, mas parecem não ouvi-la. Nos poucos espaços entre as palavras, ouço uma música típica em hebraico: “siman tov u mazal tov!”. Acho que é para o grupo de meninos religiosos que, suponho eu, aprenderam a ler recentemente e estão comemorando o recebimento do Sidur (um tradicional livro de orações judaico). Eita cidade louca! Ancestral e moderna, religiosa e laica. Judaica, cristã e muçulmana. Para meditações e orações. Para alegrias e tristezas.

Assim é o Muro das Lamentações, o que sobrou da muralha do 2º Grande Templo. Um turbilhão de emoções me invadiu a noite quando me deparei com aquele gigante. Um choro denso e leve. Infantil e maduro. Desesperado e consciente. Leveza ou pesar? Leveza e pesar.

Yom Hazikaron (homenagem aos soldados mortos) vir antes de Yom Haatzmaut (dia da independância) diz muito sobre esse país e de sua religião. Parece não haver glória sem sofrimento. Aqui, não há luz sem escuridão.

Para mim, há. E talvez seja por isso que ainda não tenha me encontrado aqui. Minha espiritualidade não condiz com essa máxima. O sofrimento não mais se encaixa em mim. Talvez eu esteja processando, onde dentro de mim, existe um espaço de escuridão. Talvez eu tenha entrado numa de criar a escuridão para perceber a luz. Mas a luz já está aqui. Não preciso da escuridão para encontrá-la.

Decerto me desconectei um pouco desde que cheguei. O medo do desconhecido ajuda. Ao entrar no medo, saio do amor. Ao sair do amor, perco o fluxo. Principalmente se mantenho em foco o sofrimento e a culpa judaico-cristã. Mas sinto que, apesar de ser minha primeira visita ao país,  já sofri aqui anteriormente. Talvez seja por isso que ainda não encontrei a espiritualidade com facilidade nesse país. Ainda tenho assuntos pendentes, principalmente com Jerusalém. Hoje comecei esse processo de cura especificamente. Debaixo da árvore, reconheci a luz.

Percebi que, num quarto escuro, basta acender um fósforo para que se enxergue tudo. Não com clareza total, mas com nitidez suficiente para se caminhar até o interruptor.

Utilize seus fósforos.

Ligue o interruptor.

Revisite (seu) judaísmo.

Crie sua história.

Viva a sua história.

Viva sua história!

Ps: Praqueles que ficaram revoltados: “Como assim ela não gostou de Jerusalém????” Eu AMEI a cidade. É incrível, ancestral, dourada, iluminada, intensa, amada. Mas não é a tôa que sou a Tia Caracol. Caracóis caraminholam.

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4 respostas para Riscando fósforos

  1. Tai disse:

    Sinto sua coragem , sua determinação, sua loucura, sua força…
    Continuarei lendo seu blog para que minha cabeça se abra como seu mar se abriu.
    Orgulho, lôra!

  2. Bianca Oigman disse:

    Carol
    a Dé me falou da sua viagem, do blog e corri aqui para ler! Estou simplesmente encantada com a sua coragem, sensibilidade, escrita.. me emocionei com cada passagem, com cada foto. com cada emoção sua. Aproveita cada momento dessa viagem interior, que certamente, é a mais linda de todas. Israel é um lugar incrível, onde só conhecendo para compreender.. ou questionar mais!
    Seja feliz na sua busca. Será um prazer acompanhá-la =)
    Beijos,
    Biba

  3. Sebastian Valle disse:

    Belo blog!
    Boa sorte e um abraço,
    Seba (irmão da Marisol)

  4. Paula disse:

    Me senti um pouco assim em Jerusalém também. Tá. Em Israel como um todo. Foi sim um misto de “leveza e pesar”, no muro principalmente. Tentando me enquadrar ali, meu papel ali, minha história ali, minha vida aqui, tudo. No final das contas, apesar de ter sofrido um pouco durante meu tempo de 10 dias em Israel, cheguei à conclusão estranha de que tenho, afinal, para onde ir. Entende?

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