Em um Estado Judeu. Sem fazer papel de vítima.

Shabat. Dia de descanso. Pernas pro ar na piscina, tentando ler um livro em inglês, enquanto as crianças brincam de marco-polo em hebraico. Os israelenses são barulhentos, fica difícil me concentrar. Uma das poucas vezes que estou sozinha aqui. Sempre tem alguém puxando uma conversa, esboçando um sorriso, estendendo a mão e perguntando meu nome e minha nacionalidade.

Até agora, já conheci muita gente. Americanos de todas as partes, ingleses, australiana, espanhol, israelenses, sul-africana, japoneses. Nenhum brasileiro por aqui. Depois do primeiro jantar, em que sentei sozinha na mesa, cabisbaixa e achando que tinha ficado maluca de passar um ano inteiro sozinha, estou sempre com alguém(s). A melhor parte de se(r) apresentar(da) a pessoas aqui é que elas não sabem como você é, ou era, back home.

Estou sempre de short jeans e camiseta, ou com uma blusa imunda de lama e minhas gigantes calças de trabalho (que o último morador do meu quarto deixou pra trás. Isso mesmo. Morador no masculino). Cabelo sempre desgrenhado, porque não tem outro jeito no deserto. Nada de mil acessórios nem roupas que dêem um preview da sua personalidade.

Ontem conheci um menino de uns 15 anos, israelense, que mora no kibbutz desde que nasceu. E ele me perguntou há quanto tempo eu estava aqui, porque ainda não tinha me visto. Acontece que ontem eu estava de vestido e cabelo solto, porque era shabat e todos colocam suas melhores roupas para comemorar. Então eu disse pra ele que ele não deve ter me reconhecido, porque eu normalmente estou com roupas capengas. Ele lembrou de mim com a roupa de lama, trabalhando no jardim. Mas como é israelense, e israelenses adoram um conflito, começou a tentar me colocar na parede: “Porque, você acha que as roupas são muito importantes? Que as pessoas devem ser analisadas a partir de suas roupas?” E eu, categórica: “Você quer um copo d´água? Fez muito calor hoje…” Levantei sem responder. Normalmente eu entraria numa discussão acalorada acerca da importância da vestimenta e coisa e tal. Mas não agora. Não aqui. Não com ele. Não só porque possivelmente minha opinião sobre isso está em suspenso, mas porque entrar em discussão com israelense é chato demais…

Mas enfim, voltando ao assunto em questão… Sem roupas para me definir, sem amigos brasileiros, pros outros poderem olhar e presumir quais são suas – e consequentemente, minhas –  preferências. Sem emprego, sem histórias de infância, sem pré-julgamentos baseados em qualquer coisa. Aqui, ninguém me conhece. Mas ao mesmo tempo, me conhecem melhor do que muita gente que me conhece desde criança. Porque aqui não tenho traumas de infância, histórias que gostaria que não tivessem acontecido, pessoas que me julgaram e passaram o julgamento adiante.

Esse mesmo menino israelense (e petulante, que eu aprendi a adorar durante a ceia de ontem) me colocou em mais uma nova situação. Ele estava falando, ás 3 da manhã, sobre quando a mãe dele foi pra Índia no ano passado e voltou com a cabeça raspada e com novas idéias de mundo que ele ainda não entendeu muito. Estávamos comendo uma torta que um deles pegou da cozinha na madrugada. Não sei como ele tinha a chave, mas ele tinha. Normalmente eu seria a mais correta, não gostaria de participar de roubo de comida, mas quer saber? Take it easy and have fun! Então, o querido petulante está contando essa história e eu estou super interessada e faço uma pergunta qualquer. Em vez de me responder, ele franze a testa e me diz “Tira antes esse pedaço de comida no seu lábio pra eu poder continuar.” Sem por favor ou interrogação. E eu, em vez de tirar a porcaria do pedaço de comida, me calar e ir pro quarto pensado porque ele foi tão grosso, pensando porque ele não gosta de mim, pensando, pensando e pensado, digo a ele, enquanto tiro o minúsculo pedaço de torta no meu lábio superior: “Você sabe que pode falar a mesma coisa de uma maneira mais agradável, né?” Ele pede desculpas, diz que os israelenses são realmente um pouco estúpidos e me pergunta: “Como eu deveria ter falado? Tira, por favor, esse pedaço de torta da sua boca pra eu poder continuar minha história?” Eu gargalho e digo que essa é uma opção, mas que ele pode dizer só que a pessoa tem um “little something” na boca. E a própria pessoa vai saber o que fazer com essa informação. Mas enfim, o ponto é que não me coloco numa postura de vítima aqui, em momento nenhum. Porque estou inteira.

Aqui eu sou eu. Muito mais importante do que estar distante de pessoas que tem um pré-conceito (bom ou não) sobre mim, é EU não ter o mesmo pré-conceito sobre mim. Não devo nada a ninguém. Fora das horas de trabalho, faço o que quero na hora que quero fazer. E tenho conhecido uma Carol nova. Nem melhor, nem pior. Só nova. Mais autêntica, com certeza. Mais segura e satisfeita de suas decisões. Mesmo que tenham sido equivocadas, foram decisões sinceras. Mais importante do que ser sincera com os outros, é ser sincera comigo.

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11 respostas para Em um Estado Judeu. Sem fazer papel de vítima.

  1. Marisol disse:

    Hahahahaha!!!

  2. fabiana disse:

    aaaaaaaaaahahahhaa…adorei o take it easy and have fun…e by the way…minha forma d encarar os “modos” dos israelenses…nao eh falta de educacao…eh ser direto, eh se sentir em FAMILIA, portanto podendo falar oq quer e como quer, sem duvida de que o proximo nao va se magoar…vai entender e proseguir com sua conversa ou seus afazerez…sem muitos: “ai brigada” ai sera q…” ai sera oq…” licensa”…nao!…vc quer isso, vc gosta disso, vc eh isso? blz! vamo q vamo!…eu adiro!!!

  3. camille disse:

    carol, estou amando viver esta aventura com vc atraves dos seus posts…
    eh como se eu estivesse lendo um livro, e vc claro, sendo a personagem principal,
    com essa riqueza de detalhes dos seus pensamentos, das suas ideias, dos seus sentimentos…
    as fotos entao, maravilhosas, com cada angulo e cada cor…
    to curtindo muito!
    nunca tive uma vontade enorme de passar por essa re-descoberta de mim mesma, e nem mesmo coragem, mas lendo seu dia a dia me coloco no seu lugar e vivo um pouquinho disso tudo, feliz da vida…
    muitos beijos, camille
    (muito surreal isso, ne? nem sou tao amiga da sua irma assim mas to adorando viver um pouco da sua vida)
    eu realmente acho q vc escreve muito bem, e poderia pensar em transformar essa aventura num livro!

  4. denise bergier disse:

    ontem usei o mega anel de coruja, aquele suber brega que eu te dei. Ele é do tamanho adequado, sem nenhum pudor!

  5. papai disse:

    Esta é realmente uma nova Carol. A “antiga” faria um enorme discurso sobre qualquer coisa, inclusive sobre a liberdade individual de sujar a cara de torta ou qualquer outra coisa pois a essencia não está na torta na cara, etc, etc
    Agora, minha filha, que porra de traumas de infancia voce tem. Sua mãe só sabe da tartaruga sem kadish. Talvez nós (sua mãe e eu) tenhamos traumas de parenthood como “a porta do coração do amor”, as trombas, os braços cruzados, o “gostaria que fizessem isso com você, gostaria”, o “minhas bochechas estão balançando muito. Pare este cavalo !!!!!!”, “eu não como em restaurante com mesa na calçada”, “eu gosto do restaurante frances com comida italiana” e por ai vai. Talvez por esses motivos nós tenhamos feito mais ou menos cem anos de análise e voce só um pouquinho. Mas te adoramos e admiramos (sua mãe mandou colocar amamos) mesmo assim. Beijos do papai com o papagaio de pirata mamãe.

    • carolbergier disse:

      Ai! Que figura!!!! A nova Carol vai dizer: pai, traumas de infância é força de expressão. Preciso florear o texto, né? Mas essa história da tartaruga tá rendendo boas risadas por aqui. Tartarugas são ótimas para combostagem!!!!

  6. Louise Calixto disse:

    oi carol,
    acabo de ler seu ultimo post, através de um link que a camila (trabalhamos juntas no MI) colocou. gostei do nome do blog, gostei da aventura – que apenas começa, gostei das palavras da descoberta sobre si mesma. me identifiquei, na verdade. ñ ter pré conceitos sobre nós mesmas talvez seja dificil mas sem dúvida essencial para a existência.
    desculpa o comentário mas como é um blog aberto deu vontade de elogiar e dizer:
    siga em frente com este olhar, inclusive o olhar da objetiva que as vezes vale mais que uma poesia.

    beijo

    Louise

  7. cooltive disse:

    Amiga querida, foi um misto de sentimentos ao ler o post!! me senti parte de tanta coisa: as dicas que que roupas de fato não seriam necessárias (rsrsrsrs), além de engolir o sapo junto contigo (coira que raramente cabe a pessoas como nós, que dedicam-se horas a discutir sobre prais de nudismo de mesmo nome e localização distinta.. hahaha te amo bjos

  8. Gabi disse:

    eu vim comentar pra dizer que eu e mais 2 pessoas daqui do trabalho (que não te conhecem, mas já te amam) achamos que você deve transformar essa jornada num livro. Pelo jeito, tem mais gente que acha também!
    ps: tô morrendo de saudades! TE AMO!

  9. Paula disse:

    Posso levar este último parágrafo para a vida?

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