Na trilha, sem rumo

(Escrito sábado passado…)

Não achei que meu dia hoje seria tão estranho. Depois de ter ido dormir ás 4 da manhã ontem, acordei ás 8, conforme combinado, pra fazer uma trilha antes que ficasse quente demais. Acordei, no singular. Nada de acordamos. Acordei. Tomei café e esperei. 9:30, ainda ninguém. Sentei debaixo do bouganville, li uma boa parte do meu livro. Feliz, muito feliz. Sem frustração por ninguém ter acordado ou por só ter dormido 4 horas. Feliz de estar na sombra, lendo o livro interessantíssimo que me emprestaram. Feliz de estar sozinha, em silêncio.

Lá pelas 11, o resto do grupo aparece, se desculpando. Não conseguiram acordar. Ok, sem problemas. Vamos depois do almoço. Parecia idéia de maluco. Fazer uma trilha, no meio do deserto, sem sombra ou água fresca, a 1 da tarde.” Vocês são insanos!” escutamos de uns e outros. Sim, somos.

O lugar era meio longe, então fomos de carro. E realizei uma das minhas vontades aqui em Israel: dirigir no deserto, a 130 km/h, de janelas abertas, escutando a trilha sonora de Pulp Fiction. Eita sensação boa! Ninguém na minha frente, ninguém atrás de mim, ninguém na minha direta ou esquerda. Ninguém! Só eu, os 3 passageiros e Deus.

Chegando no começo da triha: 4 litros de água pra cada um, chapéu, protetor solar, mochila nas costas, “yalla!” Sim, somos insanos. Que calor infernal! Boca seca, parada pra água a cada 15 minutos, sol a pino. Chegamos a um platô com uma vista linda depois de 20 minutos. Eu tinha certeza de que era o fim da trilha, até que um deles aponta pra onde estamos indo.  Pode me levar pro hospício. No alto, lá em cima. Oy, Vey!

O visual é lindo, montanhas multicoloridas. Preto, branco, rosa, vermelho, azul. Estamos em cima de uma linha que divide duas montanhas. Pé direito pisa no preto, pé esquerdo, no branco. Bem na divisão, uma placa no chão. “Aqui dois soldados em treinamento morreram de desidratação.” Um minuto de silêncio em homenagem e eles e pedindo que esse não seja nosso caso. Está muito quente e começamos a pensar que 4 litros d’ água não seria o suficiente. Aos 50 segundos desse um minuto, sinto um pingo no meu ombro e outro na minha testa. Fui escolhida como alvo por algum passarinho?

Abro os olhos e, sim, está chovendo. Cântaros! Está chovendo cântaros no deserto. Pingos gigantes caem sobre minha pele ressecada e empoeirada. Vou mudando de cor. Os pingos se misturam com minhas lágrimas. Quase não posso acreditar no que está acontecendo. Impossível não se sentir abençoada. “Sim, vocês são insanos”, Deus nos diz, “mas ainda assim gosto muito de vocês.” Chove torrencialmente por uns 10 minutos.

A temperatura cai uns 5 graus, agora deve ser uns 32oC. Continuamos a trilha, meio sem acreditar no que acabou de acontecer. Está menos seco e menos quente, já acho que chegaremos no fim da trilha sem maiores problemas. Acho.

Uma hora depois, passamos por uma parte mais íngreme, sutilmente perigosa. Mas tenho minhas botas! E as amo imensamente… Cansada, ofegante e eufórica, chego no topo. Desculpa, mas essa parte merece um palavrão. Puta que pariu! Vejo o mar, vejo a cidade, vejo todo o deserto. Vejo as montanhas. Coloridas, poderosas, antigas, cheias de energia e histórias pra contar. Impõem respeito, emanam algo que não é explicável.

Nós 4 em silêncio. Encontro uma pedra anatomicamente perfeita para uma posição de lótus. Sento e medito. Uou! Quanta energia, quanta gratidão, quanto tudo! Rapidamente recarrego tudo que perdi nas últimas exaustivas horas e abro os olhos. Choro de felicidade. Isso é muito lindo. Não vejo ninguém. Só a natureza em seu estado mais puro. Natureza ancestral, num país com tanta história. Prana, muito prana.

Depois de um longo momento em silêncio, conversamos sobre o fluxo das coisas, sobre a visão macro da vida, sobre confiar na providência divina. Nós 4 e dois passarinhos. Viro minha cabeça pra direita, pra olhar o mar e “voêéèummmm”. Um som estranho, muito estranho. Viro pra esquerda e “voêéèummmm”, o mesmo som. O que é isso? Um gato? Não é possível. Um animal selvagem. Merda! Seremos devorados por um bicho gigante do deserto, que está esperando por carne humana há meses. Que som é esse? Não sou a única ouvindo. Eles também têm uma feição estranha. Os 3 olham pra mim, assustados. O quê? Estou desintegrando? Ou o bicho está atrás de mim? Serei a primeira a morrer e os outros correrão para, pelo menos, relatar minha morte aos demais. Colocarão uma placa lá em cima:  “Aqui uma turista insana morreu devorada por um animal selvagem.”

“O que vocês estão olhando?”, pergunto, com medo da resposta. “Seu cabelo. Está em pé”. Levanto as mãos para checar e “voêéèummmm”, o mesmo som. Mexo os braços pra cima e pra baixo e o barulho não para. Eles começam a se movimentar também. Uma sinfonia eletromagnética se inicia. Se não estava totalmente insana até então, agora é a hora de enlouquecer de vez.

Estamos dentro de um campo eletromagnético forte, muito forte. Se nos tocamos, emitimos choques uns aos outros. Eles adoram a brincadeira e dançam loucamente. Ensandeceram. Tenho um breve instante de inteligência: “Gente, precisamos descer agora. Se começam a cair raios, seremos queimados vivos. Estamos no ponto mais alto da região, totalmente magnetizado, cheios de metal na mochila. Let´s get down. Now!”

Nos desesperamos, pegamos o caminho errado, trocamos os pés pelas mãos, mas conseguimos descer. A paisagem muda em questão de minutos, já não enxergamos muito. O que antes era um horizonte magnífico agora é uma nuvem de areia e umidade. Surreal.

Chegamos sãos, salvos e gratos no carro. Pesquisando depois, aparentemente se esperássemos mais cerca de 10 minutos, eu não estaria aqui escrevendo. Quando o campo eletromagnético emite sons, estamos seriamente encrencados.

Mas não. Deus realmente gosta muito da gente. Nada aconteceu. E muito aconteceu. Nunca estive tão dentro de um fenômeno da natureza dessa grandeza. Me senti uma personagem de “Lost”. Felizmente, não me despedi dos meus novos companheiros de insanidade com a famosa frase “See ya in another life, brotha.”

Esse post foi publicado em na saga e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

6 respostas para Na trilha, sem rumo

  1. Ana B. Galeão disse:

    Já tava com saudade de posts novos!
    To aqui te acompanhando!
    beijo!

  2. Celia disse:

    uaaau… com a foto dos cabelos ficou muito bem explicado! imagino no silêncio do deserto =]

  3. Ana Loureiro disse:

    Adorei!!!! Lindo texto.

  4. tati disse:

    carol, lendo seu post pude me sentir aí. pude sentir a sede, o calor, a chuva caindo e me refrescando.
    pude sentar na pedra e meditar, coisa que nunca fiz e acho que nunca serei capaz de fazer.
    talvez in another life, como já me disse meu brotha em uma das minhas séries preferidas. Essas sim, me fazem viajar e ser todas as pessoas que eu gostaria de ser.
    obrigada por fazer essa viagem por mim, por vc e por todos nós!
    beijo! =)

  5. Juliana Terra disse:

    Querida, que linda sua sadhana! Aproveite!!!

  6. gabi disse:

    ” dirigir no deserto, a 130 km/h, de janelas abertas, escutando a trilha sonora de Pulp Fiction” – Como assim?!?!? me senti ai do seu lado, fo-da! Só faltava a Natalie Portman aparecer, hahahahahahahahaha! (Aliás, qta saudade das nossas piadas!)

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s