Adonai Echad? Sim, Adonai Echad

Shemá Israel, Adonai Eloheinu, Adonai Echad.

Escuta Israel, o Senhor é o nosso Deus, o Senhor é Único.

Fui pra Jerusalém com essa reza, a mais importante para o judaísmo, me martelando. Adonai Echad? Sim, Deus é único. Somos monoteístas e quanto a isso não me restava dúvidas. Mas ir à capital do Estado Judeu com a idéia de unidade não me convencia. Porque, pra mim, Deus é a força maior que rege nosso universo. Não é o senhor barbado que senta na sua poltrona de ouro e define quem ganha e quem perde. É a energia que faz com que ganhar e perder sejam conceitos relativos. Ganhar ou perder não existe, na minha concepção de Deus. Existe ganhar e perder. Sem ou. Com e.

Mas como viver isso em Jerusalém?

Judeus, muçulmanos e cristãos. Partidos de direita e de esquerda. Amor e ódio. Ortodoxos e laicos. Homens e mulheres. Luz e escuridão.

Shemá Israel, Adonai Eloheinu, Adonai Echad.

Primeira parada, Yad Vashem. O museu do holocausto. Já no ônibus lotado, a tensão começa. Estou de camiseta, apesar da saia longa, contrastando com 80% das mulheres, que cobrem quase o corpo todo. Está quente e não existe chance de colocar meu casaquinho agora. Olhares fuzilam aquela pelada em pé no meio do ônibus. A pelada sou eu. E a pelada está tensa por não saber quais homens ortodoxos não tocam em mulheres. Por aqui existem várias maneiras de ser judeu e alguns deles se vestem como pingüins, mas tocam em mulheres. Num ônibus lotado, fica difícil respeitar os que não encostam no sexo oposto. Oposto.

Chegando no museu, wow! A arquitetura do lugar é impressionante. O prédio tem o formato de um triângulo, o que metaforicamente representa a estrela de David dividida em dois, em lembrança da metade do povo judeu assassinado na 2ª Guerra Mundial. Divisão.

Não é necessário ser judeu para se emocionar com a visita. Um soco no estômago. Doeu das tripas até a alma. Depois de 6 milhões de mortos, uma saída. O Estado Judeu. Perda e ganho. Acho que começo a entender Adonai Echad. Acho.

De lá, vou para a cidade velha, visitar a Igreja do Santo Sepulcro, o quarteirão muçulmano e a sinagoga de RamBam. 3 religiões (4, considerando também o quarteirão aramaico). Crenças distintas, convivendo em paz (há controvérsias) num dos pontos mais sagrados do planeta, se confrontando em todos os outros lugares. Ódio e Amor.

Na sinagoga, homens embaixo, mulheres em cima. Não se misturam. Difícil pra mim não criticar essa segregação na congregação, mesmo sem conhecimento religioso suficiente para sustentar minha opinião. Paro pra pensar se o fato de criticar não vai contra minha busca por unidade. Aceite, Carol. Respeite. Não critique. Faz sentido espiritual pra eles e não faz pra você. Viva sua busca no seu coração, e não só na sua mente. Aceite a diferença.

Saio da sinagoga pensando nisso. E olho pra cima. Lua cheia, eclipse começando. São 9 da note, a cidade velha está lotada por causa de um festival de luzes meia-bomba. (Epa! Palavra proibida por aqui…). Saio correndo, atropelando todos pelo caminho, com muito cuidado para não tocar nos homens ortodoxos.  É quase uma necessidade física chegar lá rápido.

Chegando no muro, a sensação de gratidão me toma como um furacão. O choro vem facilmente. Acho um espacinho pra rezar tocando nas pedras e outro espacinho entre as pedras para colocar, como o costume, um papel com os pedidos da família. Rapidamente, sinto que cumpri minha missão aos pés do muro. Me afasto e olho pra cima. A lua está metade cheia. Ou metade vazia? Metade. Cheio e vazio.

Tiro os sapatos, sento em posição de lótus num cantinho e medito olhando pra lua. Agradeço e peço por luz, enquanto o astro lá em cima vai perdendo sua luz. Na verdade, não é sua luz, ela é só a reflexão do sol. Como nós. Não somos a luz, somos uma reflexão dela, uma materialização da luz universal. Luz e escuridão.

No dia seguinte, mais cultura. Dessa vez mais leve, espero eu. Museu de Israel. Além de arte contemporânea, a história de Israel, que pode ser resumida em destruição e reconstrução. O tudo e o nada.

O museu é gigante e, em determinado momento, canso. Vou pro jardim fotografar e descansar. Passo pelos pontos obrigatórios, como a escultura Ahava (Amor, aqui em cima). Me perco e acabo entrando num dos meus lugares preferidos em Israel até então. Um corredor estreito leva a um salão quadrado de mármore, com bancos acoplados na parede, e um furo quadrado no teto. Estou sozinha, num lugar tão claro que quase cega, com o céu azul lá em cima, uma acústica intrigante e o silêncio. Enquanto sento e agradeço por estar sozinha, entra um senhor lá pelos seus 60 anos. Droga!, penso. Queria ficar só. Ele me vê fotografando e pergunta se gosto de fotografar luz e sombra. Pergunta interessante a se fazer pra uma pessoa que está procurando transcender esses conceitos.

A partir daí, a conversa passa por nosso mundo, nossas vidas, nossas crenças. Nesse lugar onírico e surreal, conversamos sobre religião, Deus, fluxo, o caminho da vida. Agradeço por não estar sozinha. Agradeço por estar com ele, um colecionador de arte com um jeans surrado e camiseta esgarçada. Acabara de sair de uma reunião com os curadores do museu sobre algumas das obras que possui. Depois de 2 horas conversando, ele me leva pra um tour no jardim, me explicando escultura por escultura, instalação por instalação. Me convida pra um café e me dá uma aula:

“Carol, imagina que um balão de encher caiu dentro de uma piscina. O que acontece se você entrar na piscina afobadamente e correr atrás do balão? Ele foge de você, certo? E se você boiar? Eventualmente, você e ele vão parar no mesmo canto da piscina. Assim é com a vida. Espere as respostas calmamente. Elas virão. Não se preocupe tanto com a luz e a sombra. Elas não existem uma sem a outra. São, na verdade, uma coisa só.”

Nos despedimos no taxi. Eu tinha uma visita aos túneis subterrâneos do Muro das Lamentações marcada e ele me deu uma carona. Nos túneis, uma viagem ao tempo. Uma viagem ás destruições e reconstruções do Templo. Uma viagem nos diferentes governos e culturas. Estamos há 2.000 anos. Ontem e hoje.

Saindo de lá, corro para pegar minha mochila no albergue e encontrar um grupo para fazer uma trilha na luz da lua cheia, no deserto, durante toda a noite. Chegando lá, de legging e regatinha, uma surpresa… São todos religiosos. Fiquei sabendo em cima da hora do passeio e topei sem titubear. O que inicialmente me fez sentir fora do lugar se transformou em uma experiência espiritual memorável.

A lua está cheia, chegamos a um cânion estreito, não sei de que cor, apesar da noite estar bem iluminada, com direito a sombras. De novo, elas, luz e sombra. Caminhamos por uns 30 minutos e fizemos a primeira de muitas paradas. Hora de se sintonizar com o espaço. Silencioso, assustador e pacífico. Imenso e infinito.

“Venha para o deserto.

Venha para a vastidão.

Venha para o abraço que não precisa de braços.

Venha para o beijo que não precisa de lábios.

Venha.”

Sim, me sinto em casa. Não sei se é pela experiência prévia no Kibbutz Lotan, mas me sinto surpreendentemente confortável aqui.

“O que existe aqui, no silêncio do deserto, que é tão profundo em seu discurso?

O que existe aqui, no silêncio do deserto?”

O que existe aqui?

O que existe?

O que?

?”

O silêncio e o discurso. Midbar (deserto em hebraico), vem da mesma raiz linguística de Medaber (falar). Nesse lindo idioma, nada é por acaso. Se midbar e medaber vêm da mesma raiz, algum ensinamento existe aí.

O discurso no silêncio. Ficar em silêncio por toda a trilha fez toda a diferença. Ok, 6 horas não são muita coisa. Mas 6 horas nesse lugar inóspito, com esse silêncio ensurdecedor, sob a luz da lua fez a experiência ficar mais profunda. Me fez pensar.

Para o judaísmo, existem 4 níveis de possibilidades sonoras : silêncio (vazio), explosão (crescimento), sons (animais) e fala (seres humanos). No deserto, enquanto caminhamos, temos somente o silêncio e a fala. O primeiro e o último níveis da cadeia sonora. No deserto, se estabelece todo o processo de criação.

No judaísmo, antes dos 40 anos no deserto, éramos escravos. O deserto nos trouxe a luz. O deserto nos deu a possibilidade de recriação, de renascimento. Depois dessa pequena jornada para o deserto, depois dessa jornada para o silêncio profundo, depois de me silenciar, me escutei. Escutei a resposta pra uma pergunta que venho me fazendo desde que decidi que viria para Israel: porque Israel?

Essa viagem toda é uma chance de me recriar. Para me recriar, preciso me silenciar. Por muito mais tempo do que 6 horas. Depois do silêncio, posso me escutar, para então perceber o que o fluxo tem reservado pra mim. Mas de nada adianta eu correr atrás do balão de encher na piscina. No silêncio, ele virá ao meu encontro.

A partir da percepção que silêncio e fala podem ser a mesma coisa, vem a certeza de que a dualidade não existe.

Shemá Israel, Adonai Eloheinu, Adonai Echad.

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7 respostas para Adonai Echad? Sim, Adonai Echad

  1. Ana Loureiro disse:

    Texto MARAVILHOOOOSOOO!!!!!!!

  2. Priscila disse:

    Carol….! Um dos textos mais lindos que eu já vi! Adonai Echad!!!
    Manda pro grupo!
    Saudades e mt feliz pelo seu crescimento pessoal. MUITA luz para você!
    beijos

  3. Marina Lito disse:

    carol lindo de mais!! amei, me sinto experienciando essa viajem ao seu lado com suas palavras!!
    beijinhos Marina

  4. dani disse:

    calor também é frio luz também é escuro
    silêncio som
    sonho realidade
    deus é multiplicados eus
    em um
    todo
    amor.

  5. issalacroix disse:

    tanta gratidão por receber isso de vc, tanta gratidao por ter vc! VIVE tudo isso que nós somos um só e vc está propiciando isso para nós também… muito amor em cada palavra… AHO!

  6. gabi disse:

    texto lindo, lindo, lindo!
    Arrepio atrás de arrepio!

  7. camille disse:

    oi carol!
    até agora este post foi um dos meus favoritos, nao pelo assunto, mas em perceber q vc está percebendo que nada é por acaso, vc conseguiu traçar paralelos super interessantes a partir do momento em que se deu conta que o balão vem ao seu encontro na vida. acredito que todas estas experiências relatadas neste post devam ter sido reveladoras pra vc, mais ainda, esclarecedoras!
    bjs

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