Da seiva á seiva

Neot Semadar. Como tentar explicar o que acontece por aqui? Refeições em silêncio, telefone celular só no quarto, exaustivas horas de trabalho, prioridades questionáveis, ausência de demonstrações públicas de afeto entre casais, estima à estética, reuniões recorrentes, finalizadas com alguns momentos de silêncio, sorrisos e olhares sinceros, construções imponentes, pessoas lindíssimas, questões significativas discutidas sem exaltação durante recorrentes intervalos e chás.

A proposta aqui é diminuir seu ritmo interno para perceber como reage a diferentes estímulos. Dos mais pequeninos – como o que me atormentou por dois dias: “porque é regra descascar pepinos antes de levá-los a mesa de café da manhã?” – até os mais grandiosos, como a mudança em que estamos trabalhando nesse mês. 98 casas estão sendo evacuadas, reformadas, pintadas e habitadas por novos moradores. 98 casas em 1 mês. Quanta mão de obra, energia, recursos naturais e humanos e dinheiro não estão sendo investidos nesse projeto, praticado a cada 5 ou 6 anos?

Aparentemente, essa pergunta se torna insignificante quando a real pergunta vem à tona: “Como você reage a essa mudança?” Apego material, sentimental, energético. Perceber a quantidade de objetos que você possui. Ficar sem teto por alguns dias ou semanas, dormindo no vizinho, em barracas, ao relento. Trabalhar em conjunto por 12 horas diariamente, com as mesmas pessoas, percebendo suas alterações de humor, qualidades e defeitos. Não faz nem uma semana que a movimentação começou… As questões levantadas provavelmente ocuparão muito mais do que um parágrafo.

Depois de 8 dias aqui, meu ritmo é outro. Meu estado de espírito então… Num lugar que se propõe a ser uma “escola de auto-conhecimento”, você encara uma montanha russa de percepções. Ás vezes, mais importante do que a questão em si, é o que ela dispara dentro de você. Onde, fisicamente, aquilo incomoda? Porque, mentalmente, você dá tanta atenção a esse tema?

As pausas para chás são recorrentes. Ás vezes o gosto é de sabão, porque o copo não foi muito bem limpo, mas as conversas podem trazer um sabor amargo ou doce, mas nunca ácido. As pessoas aqui sabem discutir sem se sentirem atingidas e sem querer atingir. Normalmente, o chá tem um tema, trazido por um dos integrantes do grupo. O de ontem, inicialmente, era: “como podemos trabalhar de uma maneira mais limpa?” Fizemos uma sujeira inenarrável no dia anterior e demoramos cerca de uma hora para limpar o balagan (bagunça em hebraico). A questão foi resolvida em dois minutos, com novas estruturas de trabalho. E eu estava com uma pulga atrás da orelha há dias.

Vinda do Kibbutz Lotan, trouxe comigo a pulga da sustentabilidade e a expectativa de que aqui, a permacultura fosse praticada. Ledo engano. Aqui, os recursos naturais são utilizados sem cuidado. Vejo água escorrendo pelo deserto e isso estava me tornando crítica demais. Era hora de colocar pra fora, e as palavras saíram vagarosamente, com pausas para utilizar as palavras perfeitas, daquela maneira que sempre me deu nos nervos. Aqui, não tem outro jeito de falar. Não só porque não quero ser agressiva com minhas palavras, mas porque não há pressa. Interna nem externa.

“Quando você perguntou como podemos trabalhar de uma maneira mais limpa, o que veio a minha cabeça era mais limpa em relação ao meio ambiente. Ontem, quando estávamos arrumando o material, fiquei impressionada com a quantidade de água que utilizamos para limpar os pincéis. Será que poderíamos, nos pequenos atos, dar mais atenção a ecologia?”

Foram 45 minutos de conversa. Em inglês e hebraico, com tradução especial para a brasileira. Depois de meia hora, minha calma era só uma máscara. Estava borbulhando por dentro, frente a postura de uns e outros, que colocam que ecologia é uma maneira radical de ver o mundo e que, por isso, não a praticam. Que vontade de voar no pescoço de alguém! Mas a conversa trouxe a tona questionamentos importantes. A partir de onde ecologia se torna religião, com a cegueira que esse termo pode carregar? A partir de onde se torna um caminho fanático, de uma só avenida feita de concreto, sem copa de árvores para nos sentarmos debaixo da sombra e pensarmos para onde estamos indo, ao invés de ser uma rede de infinitas ruelas, ruas e estradas?

O termo ecologia, muitas vezes, é utilizado como um label, como um conjunto de atitudes pré-estabelecidas. No domingo, vou ao shopping da esquina de carro porque está ameaçando chover. Vou dar uma volta, porque ver Faustão é convite a depressão. Depois de um suco pra viagem, que acabo tomando no balcão, dou uma passadinha na Zara, onde compro mais uma camisetinha branca, porque nunca é demais. Mmmm… A Renner ás vezes tem umas bugingangas lindinhas, vou entrar pra ver se tem uma pulseira pra usar com aquele vestido que tá meio encalhado mo meu armário. Ih! A Forum tá em promoção. Dois jeans pelo preço de um e meio. Cabem na minha bolsa gigante, então levanto a bandeira da redução do uso de sacolas plásticas.

Ok, utilizar menos plástico é essencial. Mas e a regata branca, a pulseira e os jeans? Também são? Onde nasce a sustentabilidade dentro de mim? Ecologia pode começar numa atitude de presença, de olhar pra si e agir de dentro pra fora. A presença pode trazer a serenidade para perceber o que, quando, como e porque o consumo me faz feliz – ou não. E o consumo é só uma faceta da questão – a que mais me tenta. Porque achamos que precisamos de tanto? Porque eu acho que preciso de tanto?

Comprar sem consciência e evitar sacolas plásticas é como a diferença entre a religião praticada simplesmente por ser religião e a religião praticada por ser espiritualidade. O que é ecologia para cada um de nós? Onde esse tema nos toca e como vamos lidar com ele? Em que profundidade?
Não sei onde me encontro nessa escala. Não sei onde essa questão me toca. Mas achei curioso o fato de eu ter ficado irritadiça com como o tema foi abordado por alguns. Será que se eu estivesse 100% segura de como quero lidar com isso eu teria reagido dessa maneira? Será que minha inquietude derivou do dedo enfiado na minha ferida? Não tenho a pretensão de estabelecer certos e errados, até não acredito em certos e errados. Acredito que é um tema relevante, que precisa ser levantado e refletido, mas cabe a cada um de nós se relacionar com ele. Ou não.

Ao final dessa pausa pra chá, voltamos ao trabalho. Tentei voltar imediatamente, mas minha cabeça estava em outro lugar. Estava incomodada. Saí do quarto que estava pintando de branco, com o cuidado de não apagar a linda árvore pintada do chão ao teto. Precisava respirar e recobrar a calma e a presença. Depois de 30 inalações, de volta ao trabalho. Um pequeno rebuliço havia se estabelecido e eu tentava entender o que estava sendo dito, em hebraico. “Etz” pra lá, “etz” pra cá. Um pedaço de papel está colado na pintura, como um protesto. Algo de errado com a árvore. “Má corê?”, pergunto o que está acontecendo. Precisamos pintar a árvore de branco, ordens do responsável pela parte espiritual do kibbutz. Imagino que seja mais um blá-blá-blá sobre o desapego e sobre nossa reação frente ás situações. Mas, como ainda não estou totalmente limpa da conversa sobre água, plástico e árvores , minha reação interna não é das melhores, percebe-se pelo “blá-blá-blá”. Piora quando eu, ironicamente, sou apontada como a responsável por apagar a árvore da parede. Vai ecochata, corta essa árvore… Quase posso ver a seiva escorrendo.

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