Sobre crianças, comércio, dinheiro e futuro.

Meu último post causou alguns mal-estares entre família e amigos… Acho que fui muito dura em minhas palavras, apesar de não ter percebido enquanto escrevia. Não foi minha intenção. Esse kibbutz é um universo paralelo, então fica difícil descrever o que acontece por aqui sem parecer xiita. Talvez seja um tanto radical, sim, mas o propósito justifica. A idéia é fazer você perceber como você reage aos estímulos, como expliquei na semana passada. E não reagi muito bem ao último estímulo, por isso as palavras secas. Mas hoje minhas palavras estão bem molhadas, para alegria de papai e mamãe!

Além de trabalhar na mudança das casas, alguns de nossos turnos são dedicados aos trabalhos normais do kibbutz. Então pude passar por diferentes departamentos e perceber com qual deles me identificava mais, ou menos – o que é maravilhoso quando se está passando um ano fora em busca do que te dá mais satisfação.

Ordenhar e cuidar das cabras : boring… elas são fofas e curiosas, mas Yeoshua, o pato que as acompanha, me encantou mais do que o mééé, mééé, mééé em si.

Fábrica de produtos orgânicos: colocar potes de geléia na máquina de embalar potes de geléia, contar caixas de tâmaras, limpar vidros de azeite que acidentalmente ficaram melecados, intervalo com chá (sempre ele!) e mais tâmaras (todos comem 3, eu como umas 15… ainda bem que não tem espelho de corpo inteiro nem balança por aqui…). E não é só a comida que me encanta. Quantos assuntos relevantes foram trazidos nesses 45 minutos: usamos máscaras no nosso dia-a-dia? Nosso corpo por si só é uma máscara? Porque sentimos a necessidade de agradar o outro? Será que é por falta de confiança em nós mesmos? Como criar seus filhos para que agradem a si antes de tentar agradar o próximo? Essa tâmara precisa de mais açúcar?

Cozinha: achei que me faria bem aprender a cozinhar e por isso estava animada. Mas cortar alface para 250 pessoas e quebrar centenas de ovos, separar 50 claras, limpar o chão e lavar a louça não me parece exatamente aprender a cozinhar.

Colher maçãs e uvas: me dá azia, de tanto que como. É lindo, porque o turno é sempre o das 6 da manhã, então a luz está dourada. E estar no meio do vinhedo ou das macieiras é sempre gostoso. E só.

Ajudar a preparar o jantar das crianças: estar no ambiente delas (menores de 17 não comem com os adultos) faz eu me sentir em casa. Quando as 35 crianças de 9 meses a 16 anos chegaram e sentaram na mesa que eu tinha preparado, eita satisfação! Que balagan gostoso… Algumas, aos 2 anos, já se servem. A proporção entre macarrão e molho de tomate fez o prato (raso) virar o mar vermelho com algumas poucas algas boiando. Mas Mayan comeu tudo. Roni suja a mesa mais do que a boca. A lourinha de trança no cabelo levanta a mão e espera, não tão calmamente, pelo refil de salada. O pequerrucho barrigudo quer comer rastejando a pancinha pelo chão e empurrando o prato com a testa. E a que está sempre chorando quer comer em pé em cima da mesa. Não deixam e ela… chora. Paro pra pensar na educação que acredito ser saudável, em como a infância determina seu futuro, como você vai lidar consigo mesmo, com os outros e com o planeta. Penso no papel essencial das escolas e pais. E em como estamos subestimando a inteligência de nossas crianças, colocando nossos próprios medos como base da sa criação. Esse foi o momento que mais me cobrei por não falar hebraico. Quantas conversas hilárias e esclarecedoras não deixei de ter com essas figurinhas?

Pundak (o restaurante na beira da estrada/ mercado de produtos orgânicos): ah! O Pundak… Pessoas estão esperando por você,dependendo da sua boa vontade e atenção para que a refeição delas seja a mais agradável possível. A falta do hebraico, aqui, não é tão sentida. Muitos turistas e quase todo israelense fala inglês. Então o diálogo começa: “Shalom! A kol beseder?” Eles respondem algo que não entendo e com o maior sorriso amarelo de todo o deserto eu respondo: “ Anglit?” E recebo um sorrisinho de volta: “Yes, could we have a bagel toast, please?”. Alguns clientes são barulhentos, outros grossos, outros fazem a maior lambança na mesa. Pode parecer feio, mas é muito bom comparar o comportamento dos que estão fora do kibbutz com os que vivem aqui. Logicamente, existem exceções. Afinal, não é necessário morar em Neot Semadar para ter um olhar que te enxerga e um ritmo consciente. Mas, em geral, a diferença é clara. E é importante pra mim saber o quanto me refinei nessas duas semanas. A troca no Pundak me faz feliz.

Apesar de adorar da não pressão dos outros lugares que já trabalhei aqui, servir o outro me traz uma adrenalina gostosa. Saber de onde ele vem, pra onde ele vai, se a salada está gostosa, se ele quer uma torta de maçã ou um brownie. Passar no meio da refeição e perguntar se está tudo bem, limpar o vômito da criança que enjoou na estrada, perguntar pra minha “chefe”se posso tomar esse cappuccino no balcão ou se devo ir pra cozinha e receber de resposta um “senta na mesa e aproveita seu café com calma!”, comer as sobras deliciosas de clientes sem apetite, adivinhar o quanto vou ganhar de gorjeta.

Não que ela venha para o meu bolso. Gorjetas vão pra caixinha geral do kibbutz. E, de alguma maneira, elas me fazem pensar no espaço que quero que o dinheiro tenha na minha vida. Estou longe de chegar a alguma conclusão sobre esse novo formato de vida, de trabalho, de troca, de relação com as pessoas e com o dinheiro. Mas eu chego lá.

É capcioso chegar a uma conclusão sobre como ter uma relação saudável com o dinheiro, considerando que adoro trabalhar no comércio. E isso me fez pensar se essa minha excitação sobre trabalhar nesse restaurante é genuína ou originada numa necessidade de um sentimento familiar. Porque hoje fazem exatos 2 meses que nada me é familiar. O comércio sim. Familiar em todos os sentidos. Conheço suas nuances, sei como lidar com ele, sei que tenho talento. Mas além disso, é da família. Me faz me sentir em casa, de alguma maneira. Nos últimos 2 anos e meio, trabalhei com minha mãe, num negócio que acompanhei por 12 anos. O que pode ser mais familiar do que isso?

Então surgiu a dúvida: “esse seu interesse vem do coração ou é uma tentativa de se sentir em segurança?” Vem do coração. Trabalhar no comércio e com crianças vem do meu coração. Trabalhar no mercado e na infância é uma paixão genuína. O Mercado Infantil me entusiasma. O que me prova que, no meu caminho, nada é por acaso. As peças vão se encaixando cada vez mais. O exercício agora é juntar os pedaços desse quebra cabeça para definir pra como reunir essas duas paixões em um formato que me pareça sustentável. E, por sustentável, entenda-se o trabalho num novo paradigma: saudável em tudo o que tange o meio ambiente, a justiça social e a espiritualidade, para mim e para os outros. É o tripé que tem me equilibrado, mesmo que me desequilibre de vez em quando. vão se encaixando cada vez mais. O exercício agora é juntar os pedaços desse quebra cabeça para definir pra como reunir essas duas paixões em um formato que me pareça sustentável. E, por sustentável, entenda-se o trabalho num novo paradigma: saudável em tudo o que tange o meio ambiente, a justiça social e a espiritualidade, para mim e para os outros. É o tripé que tem me equilibrado, mesmo que me desequilibre de vez em quando.

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3 respostas para Sobre crianças, comércio, dinheiro e futuro.

  1. denise disse:

    bem molhado mesmo, com molho no ponto.
    e não precisa ser comerciante pra gostar, seu pai aqui do lado é que falou…
    60 dias de viagem, puxa vida, que mergulho, que vôo!
    engraçado que hoje, ainda na Mercado Infantil, me vi voltando no tempo, criando produtos novos, rindo e me perguntando como será o futuro. Será que vamos ter respostas com você? Enquanto você taí, eu vou me dar ao direito de boiar, sem muito agito, igual na piscina do museu.

  2. crisbelu disse:

    Adoro comer sobra do prato dos outros! Pronto falei! Hummmmmm! beijossss

  3. baloian disse:

    sorte minha de viver estes seus dois “encontros”! Mercado Infantil e Super Tia Caracol em ação!!
    bjs, Mila

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