Egoísmo ou auto amor?

Pra ler ouvindo…

“Ein li koach”. Essa foi minha frase na última semana. Não tenho energia. A mudança das quase cem casas chegou na reta final e estávamos reformando e pintando casas 10 horas por dia, dormindo 5 horas durante a noite, além de uma hora de siesta. A “diretoria” – entre aspas porque não obedecem esse tipo de hierarquia, mas são os responsáveis pelo movimento geral dos grupos e casas – deixava claro, quase que diariamente, que o mais importante nesse processo era respeitar o próprio corpo. Eu via pessoas com olheiras memoráveis, mas com um sorriso no rosto e transmitindo alegria em estarem trabalhando.

Na primeira semana, a energia do grupo era tanta que nem senti o cansaço bater. Pintava, cantava, dançava, limpava, gargalhava. Na segunda semana, o cansaço deu sinais de existência e minha tolerância começou a baixar. Tolerância a tudo. Às pessoas, ao calor, à falta de sono, à pintura, à liderança do meu grupo. E, por 3 dias consecutivos, não trabalhei em todos os 4 turnos do dia (antes do café, depois do café, depois da siesta, depois do jantar). Ou dormia até o café da manhã, ou ia pra cama mais cedo. Mas não conseguia ser sincera com o responsável pelo grupo quando precisava dar satisfações. Eram mentiras sinceras, mas mentiras. Não me sentia confortável dizendo “preciso dormir”, sentia uma crítica no caminho. Via todos trabalhando, dando seu máximo e sentia que eu não estava fazendo o mesmo. Mas não queria ultrapassar meu limite. Assumo que não agi de uma maneira “limpa”, com o grupo, com os cabeças dele ou comigo mesma.
Até que, na 3ª semana, um dos responsáveis veio conversar comigo sobre minha atitude. Que se eu não quisesse trabalhar, ou precisasse descansar, que falasse com honestidade, mas tivesse em mente que todos estavam “making an effort” e que ele esperava o mesmo de mim. Infelizmente, como eu previa, suas palavras foram carregadas de julgamento e acidez, atitudes que não se encaixam nesse kibbutz. Foi a deixa para eu me sentir culpada e trabalhar até a última gota de suor e tinta.

No último de dia de pintura, eu estava irreconhecível. Física, espiritual e mentalmente. Principalmente nos meu padrão de pensamento. O pessimismo tomou conta de mim de uma maneira que nunca tinha presenciado antes. Era como se tivesse voltado pros meus 5 anos, quando ao primeiro sinal de aborrecimento, eu fechava a cara, cruzava os braços e ficava horas sem pronunciar uma palavra. Com a diferença que eu pronunciei várias palavras. Todas negativas. Foi o auge do meu mau-humor, que vinha crescendo durante a semana. Estava criando problemas onde havia soluções, tristeza onde havia felicidade, sofrimento onde havia alegria. Minha vida estava uma merda, com o perdão da palavra. Nessa noite,todos trabalhariam madrugada adentro e eu pretendia acompanhá-los. Mas, às 12 badaladas, virei abóbora. Não dava mais.

Fugi pro meu quarto e chorei. Como não chorava há muito tempo. Chorei por não me reconhecer mais, mas principalmente porque sabia que essa era a maneira que meu corpo tinha encontrado de colocar a energia negativa pra fora. Chorei até adormecer. E dormir por 11 horas consecutivas, sem me importar nenhum pouco com o trabalho a ser feito, com a missão comunitária a ser cumprida. Minha missão agora era puramente individual. Recobrar minha sanidade.

Acordei melhor, com clareza mental e a caminho da gratidão novamente. Percebi que meu cansaço não era somente devido ao trabalho e ás poucas horas de sono. Eu não conseguia olhar meu “chefe” nos olhos. Não havia engolido o julgamento e minha reação a ele. E isso me consumiu. A culpa não me deixou descansar.

Se eu estivesse íntegra, com a base firme, esse sentimento não teria me invadido. É possível que o julgamento dele estivesse na minha mente. Mas, cansada, permiti que a depreciação do outro tomasse um espaço desproporcional. E excedi meus limites. Os 2 quartos que eu pintava durante o dia eram menores do que a energia negativa que eu trazia para o grupo. Teria sido melhor pintar menos e iluminar mais. Mas não enxerguei isso. Enxerguei uma liderança focada na missão geral, ignorando o processo individual. Se eu estivesse inteira, no momento em que sentisse um olhar depreciativo, uma palavra carregada de julgamento, teria rebatido essa energia, sem me deixar ser envolvida por ela. Teria percebido que o problema está no outro, não em mim, porque eu estaria agindo com honestidade. Mas, de novo, minha mente estava cansada demais para perceber e reagir com serenidade. Ela estava me pregando peças. Várias delas.

Depois das 11 horas de sono, enxerguei também que a linha entre egoísmo e responsabilidade frente a seus limites é tênue. Pensar no meu próprio bem, considerando a necessidade do outro não é uma tarefa tão simples quanto pode parecer. Ir dormir mais cedo que o grupo e trabalhar no dia seguinte com presença de mente, corpo e espírito ou acompanhá-lo madrugada adentro? Dizer para meu marido que preciso encontrar minhas amigas de infância pra fofocar ou acompanhá-lo naquela reunião de trabalho em que só vão falar de negócios? Desmarcar o encontro com as meninas porque preciso ficar sozinha essa noite para me conectar comigo mesma? Desligar o celular durante a noite porque meu sono é sagrado ou deixá-lo na cabeceira para se alguém precisar de mim?
Porque nos deixamos chegar ao limite do nosso próprio ser? Porque nos entregamos tanto ao outro e tão pouco a nós mesmos? Depois de ultrapassar nossa própria fronteira, voltar a demarcar nosso território passa a ser uma tarefa difícil, por vezes dolorida para nós e para o outro. Porque o outro se acostumou com nossa atitude de colocá-lo antes de nós mesmos. E voltar atrás pode parecer desamor por ele, quando na verdade é só uma demonstração de amor a você mesmo.

Porque nos deixamos esvair pelo outro? Necessidade de aprovação? De ser amado? Medo de ser julgado? Medo da confrontação? Medo de ser condenado? Só na paz profunda e na liberdade, o serviço, cooperativismo, altruísmo e fraternidade podem existir. Sem esse silêncio interior, a vida em comunidade é falsa, é exercida por uma necessidade interna de ser aprovado externamente. Mas o único que essencialmente precisa me aceitar sou eu mesmo. Até que eu me admita exatamente como sou, sem buscar nos olhos do outro uma imagem de mim mesmo que me pareça bonita o suficiente, a imagem que o outro tem de mim não será 100% verdadeira. E, no ciclo vicioso de me maquiar diariamente para parecer linda para ele, como ele vai continuar me amando ao me ver acordando de cara lavada?

A vida em comunidade tem se mostrado muito mais complexa do que eu poderia imaginar. Desde a comunidade na casa da Fabi, que tem um funcionamento todo especial que ainda não consegui entender com clareza, passando por uma eco-vila, onde cada um pratica permacultura no seu próprio limite, chegando num kibbutz que procura o não julgamento, mas acaba julgando aqueles que julgam… Viajar sozinha, em busca dessa honestidade nua e sem maquiagem para comigo mesma consiga conviver com o outro em harmonia e integridade, ao mesmo tempo em que vivo em grupo tem feito minha estrutura tremer de vez em quando. Ainda não achei esse meio do caminho entre eu e o outro. Ainda tenho muito o que me descobrir antes de conseguir trocar com o outro sem barreiras e medos.

Depois das 11 horas de sono, precisava deixar pra trás o negativismo também de uma maneira material. Deixar pra trás a necessidade de ser bem vista pelo outro e assumir que estou aqui para me reconstruir. “Noah, quer cortar meu cabelo?”
Eu, que sempre fui super-hiper-mega chata com quem iria tocar no meu cabelo, que só cortava meu cabelo com 2 profissionais, com medo de ficar feia, com cara de poodle ou pior, com cara de todo mundo. “Noah, quer cortar meu cabelo?” Sentei no chão do quarto dela, com uma tesoura qualquer. Com um único pedido: “quero poder fazer um rabo de cavalo”. Nunca se sabe… No som, a música que sugeri como a trilha sonora desse post. Uma sensação de leveza me tomou. Liberdade por perceber que tudo é passageiro, que cabelo cresce, que minha imagem não precisa ser impecável, que é lindo ter cicatrizes e imperfeições. Que mais bonito que um cabelo bem cortado, é um cabelo com história pra contar. Mas, cá entre nós, fiquei feliz da vida que, se a carreira dela como professora de yoga não der certo, ela pode fazer sucesso como cabeleireira.

Depois de tirar o cabelo do corpo com um banho no lago e ir colher figos, uvas e alfarrobas pro meu lanche da tarde, praticar acro-yoga no gramado e experimentar ver prana entre as mãos de duas pessoas, a gratidão voltou. Gratidão à vida, ao sono, ao prana, à Noah, às palavras abaixo.

“Exercite auto-amor até o último grau. Desprenda-se… Let go… Fique no flow sem vergonha.”

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7 respostas para Egoísmo ou auto amor?

  1. Priscila disse:

    love, love, love!!! Parabéns pelo lindo processo espiritual, Carol!!!!

  2. Iaci disse:

    Fiquei muito emocionada!!!! foi tão importante para mim ler esse post amiga, até para eu entender que, de fato, não tem problema não atender meu celular.. (confesso que me senti presenteada com essa parte).

    Linda!!! te amo, bjos

  3. crisbelu disse:

    Carol, estou passando nas últimas duas semanas um processo tão próximo! Me marcou isso: que essa sensação negativa ou do corpo processando, foi uma maneira de libertar essas crenças, de colocar a gente no caminho dessa transmutação!

  4. crisbelu disse:

    Ah! E tb cortei o cabelo!!!

  5. sabrina disse:

    Carol, sou irmã da Carina, amiga da Mila!
    De emocionar e de vontade de fazer uma viagem igual!

  6. MUITO OBRIGADA POR ESSE POST, MUITO OBRIGADA! Quero gritar até vc ouvir dai!
    muito obrigada por existir, por ser minha irmã e minha inspiração.
    te sinto aqui do meu lado, passei por esse mesmo processo essa semana.
    aho!

  7. edumourao disse:

    Nada fácil. Longe, muito longe disso.

    “…Pensar no meu próprio bem, considerando a necessidade do outro não é uma tarefa tão simples quanto pode parecer….”

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