Criação. Ato Divino.

Sim, fora o post anterior – que escrevi depois de ter escrito esse- estou há semanas sem escrever. E não é por falta de tentativa. Talvez por falta de tempo e espaço, estou de galho em galho, de cidade em cidade. Mas principalmente por falta de inspiração. Já sentei pra escrever sobre a saga Neot Semadar – Ein Guedi – Mar Morto – Massada – Kibbutz Lotan – Petra – Wadi Ram – Jerusalém – Tel Aviv. Estava num ônibus intermunicipal com o computador no colo (como agora) e o texto ia bem, até que cheguei no meu destino e perdi o fio da meada. Pra sempre. A aventura de caronas, oásis, cidades perdidas e encontros inesperados ficou pela metade, esquecida num arquivo de Word.

Depois, comecei a esboçar um rascunho a mão sobre relações construídas com data pra terminar. Tenho mais 3 semanas e meia em Israel e comecei a pensar se as conexões que tenho feito seriam diferentes se eu morasse aqui. O quanto deixamos de nos entregar por saber que a troca não tem chance de ser pra sempre? Ou o quanto nos deixamos levar com coisas que nos incomodam porque não sentimos a necessidade de fazer a relação ser o mais limpa possível? Eu e Sharon temos conversado muito sobre se nossa amizade seria diferente se não fôssemos nos separar em tão pouco tempo. O rascunho sobre esse tema ia bem, mas a linha de pensamento ainda era muito fugaz. Não funcionou nem pra colocar minhas idéias em ordem. E eu comecei a me pressionar por não estar conseguindo fazer a escrita fluir.

A não criação possivelmente se originou no fato que eu não fico sozinha há um bom tempo. Estou sempre com alguém ao lado. Falando, olhando, comentando, small talk, big talk, random talk, funny talk. Talk, talk, talk. Onde estou eu quando estou falando tanto? Era hora de perambular pelas ruas de Tel Aviv sozinha. Coincidentemente (ou não), eu fiquei sabendo de uma jam session de contato e improvisação, no fim da tarde em Yaffo. Certeza de que ninguém iria comigo. Da série programas-malucos-que-só-a-Carol-topa.
Cheguei em Yaffo com algumas horas de antecedência, mas era Shabat e tudo estava fechado. Deixei a onda me levar e acabei na porta de uma galeria. A única aberta. Lá dentro, fotos lindas. Luz incrível, portraits penetrantes e um texto de abertura que foi escrito pra mim. A exposição era sobre criação. Os personagens retratados eram todos criadores israelenses e as palavras que li eram de um escritor. Diziam que a criação é um ato divino, que você compartilha consigo mesmo, com Deus e com o universo. E que atos divinos não devem ser desperdiçados, que o exercício deve ser a busca por inspiração e não por criação. Ao viver uma vida inspiradora, a criação é natural e fluida. E as coisas pra mim começaram a voltar ao seu devido lugar.

4:45 PM. Era hora de dançar. Contato e improvisação é um tipo de dança baseado na não expectativa do próximo movimento. É viver cada movimentar na sua totalidade, no presente. Com um ou mais pontos de contato entre duas ou mais pessoas, a conexão entre o seu corpo e o do outro vai se definindo e desenhando movimentos suaves, energéticos, agressivos, minimalistas ou acrobáticos, de acordo com a comunicação corporal estabelecida pelas pessoas. O mais importante é escutar o seu corpo e o corpo do outro, que eventualmente tornam-se um só a se movimentar. Não calcular, não ter expectativas. Oferecer espaço para o outro ser no seu corpo e aceitar o que ele quiser fazer no espaço oferecido.
Há 3 meses sem yoga ou qualquer outro exercício a não ser andar, pintar e construir com lama, não estou na minha melhor forma. Mas não tinha percebido isso até começar a me movimentar. Ai! Minhas costas! Ui! Minha perna! Fluidez não era meu nome, especialmente depois da topada que meu dedão do pé direito decidiu dar numa pedra na semana passada. Prefiro não descrever o estado dele pra não trazer informações escatológicas. Não nesse post. O dedão doía, protegido por uma gaze que tinha o intuito de avisar pros meus possíveis parceiros: “Meu pé está machucado. Por favor tenha cuidado.”. Não adiantou muito. Em 5 minutos de dança, a gaze já não era mais branca.Era vermelha.

Mas mesmo com o dedão latejando, estava dançando. Estava criando com meu corpo, me comunicando através dele. Meu estado de espírito era interno, o que significa que eu oferecia uma troca suave, detalhista. Mas meu parceiro procurava explosão. Me jogava pra cima, pra baixo, me carregava nos ombros e rodava comigo voando. Meu dedão sangrando, minhas costas pinçando. Eu me deixava ser carregada por algum tempo e sugeria, com meu corpo, uma exploração mais delicada e tranqüila dos movimentos. Ele não escutava. Continuava procurando uma movimentação enérgica. Até que nossos corpos suados não ofereciam mais atrito o malabarismo ficava mais difícil. Hora de beber água. Não andei até o bebedouro. Manquei. A nádega direita doía, a perna esquerda pinçava da lombar até a panturrilha, o dedão pulsava. Sentei pra observar a dança alheia. Deitei. Dormi.

O estica e puxa, vai e vem, saltos e piruetas, impactos e contatos não funcionaram pra mim. Eu queria me expressar com suavidade, com dedos se encontrando, pele ao invés de músculos. Tentei entrar na onda dele, mas acabei me machucando. E ele não escutou meu corpo. Forçou e não fluiu. Como eu no meu processo de criação. Estava sentando pra escrever pela obrigação e não pela inspiração. Sentando pra escrever pros outros me lerem, pela necessidade de ser lida, e não pela necessidade de me expressar. O objetivo estava no outro, e não em mim.

O processo estava se perdendo. Os textos se tornando mecânicos, como os movimentos. Buscando uma conclusão ainda não concluída. Assim como nossos corpos sem comunicação, eu estava sem comunicação com minha busca por inspiração. O estar acompanhada estava me cegando, me forçando um comportamento social que me tirou do eixo. Mas isso é assunto pra próxima onda de inspiração. Agora é hora de saltar do ônibus e pegar um outro pra Akko. De lá, continuo viajando pelo Norte, em busca de poesia no olhar, nas palavras, nas trocas, na música, na luz. Com o intuito de encontrar divindade. Dentro e fora.

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3 respostas para Criação. Ato Divino.

  1. edumourao disse:

    Muito bom, Carol.
    Não sabia nada de vc ate aqui.
    Parabéns pela coragem e pelo motivo da coragem. Parabéns pela busca.
    Adorei ter lido isso:
    Abusca de ve ser por inspiração e não por criação.
    Perfeito.

    “…Diziam que a criação é um ato divino, que você compartilha consigo mesmo, com Deus e com o universo. E que atos divinos não devem ser desperdiçados, que o exercício deve ser a busca por inspiração e não por criação. Ao viver uma vida inspiradora, a criação é natural e fluida. E as coisas pra mim começaram a voltar ao seu devido lugar….”

    Beijo e boa viagem.
    edu

  2. Pingback: Talhando a carne, abrindo o coração | Quando o mar se abre…

  3. Paula disse:

    E eu vou parar de comentar só para você saber que estou te lendo.

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