De púrpura a flicts

Estava à procura do Divino. Quem procura, acha. Ontem, achei alguns tesouros. E nem precisei de arco íris.

Divindade no jardim Bahá`i, na beleza que me cerca, nas linhas simetricamente perfeitas, numa junção de criatividade humana (e por isso divina) e natureza estonteante (indubitavelmente criação de Deus, seja ele como, quem, onde, porque for). Meus olhos não precisam focar nada, não precisam escolher pra onde olhar, porque cada milímetro do espaço que me cerca é de uma beleza indescritível. Minha visão descansa em tanto encanto. Por mais que eu tente explicar a graciosidade do desenho do jardim, dos fractais nas flores, da luz refletida em cada folha nas árvores, é a simples existência de tudo isso, em conjunto, que exala perfeição. É no olhar marejado, no terceiro olho relaxado, que Deus existe.

Divindade na mais recente das religiões mundiais, Bahá`i, que desde 1844 difunde a mensagem de que existe um único Deus, uma só raça humana e que todas as religiões mundiais têm sido estágios progressivos na revelação da vontade divina (que eu entendo como vontade universal).
Meu estado de espírito é agora leve demais para indagar porque uma crença que acredita que todas as religiões são fases anteriores à Verdade se intitula “religião”, mas que fique aqui a nota, porque eu ainda sou eu e ainda adoro colocar uma interrogação na mesa… O que me interessa hoje é o que os bahá`i acreditam. Na chegada da era de nossa maturidade espiritual, no reconhecimento e estabelecimento da unidade da humanidade, abandonando preconceitos, considerando a base comum a todas as religiões existentes, dando o direito e a responsabilidade para o indivíduo pesquisar independentemente sua Verdade, reconhecendo que a fé deve ser consistente com a razão e que ciência e religião devem estar em harmonia.
As pedrinhas que eu pisava com meu dedão escangalhado, a grama verde que me refrescava depois de tanto deserto e as árvores que me presenteavam com sombras magníficas foram ali colocadas com o intuito de promover a possibilidade de se pensar na unidade da humanidade. Na (H)u(ma)nidade. E o que poderia ser mais divino do que reconhecer que todos somos um?

Depois, divindade em Rosh Hanikra: cavernas em uma rocha gigante rocha, escavados pelo mar. Deus na relação entre rocha e mar, nos movimentos incessantes das ondas e do formato em constante mutação da rocha. A água, ora suave e amorosa, vai entalhando pacientemente uma escultura impermanente. Ora agressiva e apaixonada, bate na pedra de maneira a, rapidamente, arrancar nacos e formar grandes sulcos. Divindade nas gotas, que de tanto pingarem do teto das cavernas, ao lado dos morcegos, foram abrindo caminho para que cada gota encontre o oceano, e não mais o chão. Irremediavelmente, a relação entre água e rochas vai moldando superfícies. Divindade na transformação incessante do formato da rocha. Ano após ano, dia após dia. A escultura de hoje não é a mesma de ontem. Água mole, pedra dura.

Ainda, divindade em Akko, no Museu Memorial dos Prisioneiros da Resistência, ou Prisão dos Ingleses. Durante o mandato britânico em Israel (1922-1948), diversos grupos lutavam, de maneiras distintas, pela independência. Os ingleses combateram como podiam e escolhiam poder e prenderam diversas pessoas, enforcando algumas. O museu é um memorial a essa resistência e é estabelecido na prisão onde os rebeldes foram encarceirados: um anexo erguido em cima da fortaleza da cidade, construída no século XVI, com um pé direito arrebatador. O museu foi concebido de maneira minimalista, o que o torna ainda mais impressionante. A tensão não está nos objetos nem nos fatos retratados. Está no ar. Está na reminiscência do sofrimento dos que viram a vida passar por detrás das grades. Da tristeza dos que se comunicavam com seus parentes através de arame farpado. Do ódio dos que dividiam celas com seus rivais. Da desesperança dos que foram condenados ao enforcamento. Está no ar. Está em cada partícula, cada molécula, cada átomo presente naquela prisão. A divindade? Não está na história. A divindade está na energia densa que resiste a décadas de conflito, críticas, esperança, turismo e emoção despejados nas celas transformadas em salas de exibição. A divindade está na possibilidade de transmitir sensações, emoções, pensamentos, energia através do ar, através do tempo, através do universo.

E. finalmente, divindade no cansaço de chegar no albergue exausta e ter força para um só capítulo do meu livro, “The Colour Purple” (“A Cor Púrpura”, em português), de Alice Walker, que até então só abordava o racismo nos Estados Unidos, numa linha de tempo indefinida. O livro, que já era interessante, tornou-se imperdível depois do que li ontem à noite:

You telling me (sic) God love you and you ain´t never done anything for Him? I mean, not go to church, sing in the choir, feed the preacher and all like that?
But if God love me, Celie, I don’t have to do all that. Unless I want to. Tell me, Celie, have you ever found God in church? I never did. I just found a bunch of folks hoping for him to show. Any God I ever felt in church I brought in with me. And I think all the other folks did too. They come to church to share God, not to find God.
(…)
God is inside you and inside everybody else. You come into the world with God. But only them that search for it find it. And sometimes it just manifest itself even if you are not looking, or don’t know what you are looking for.(…) Trees. Then air. Then birds. Then other people. But one day I was sitting quiet and feeling like a motherless child, which I was, it come to me: that feeling of being part f everything, not separate at all. I knew that if I cut a tree, my arm would bleed. In fact, when it happen, you can´t miss it. (…) You can just relax, go with everything that´s going, and praise God by liking what you like.
God don´t think it dirty? I ask.
God made it. Listen, God love everything you love – and a mess of stuff you don´t. But more than anything else, God love admiration. I think it pisses God off if you walk by the color purple in a field somewhere and don´t notice it.

Roxo, púrpura, vermelho, rosa, amarelo, laranja, azul, flicts.
I´m noticing it.

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2 respostas para De púrpura a flicts

  1. denise disse:

    Loli,
    por algum motivo eu tinha perdido este. Que coisa mais linda!
    You make me so proud of you,
    thank you thank you love you saudades you.

  2. Pingback: Descobrindo o poder de Bali | Quando o mar se abre…

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