Pedalando como uma israelense

Depois de Akko, Tiberias, a cidade mais “arsim” de Israel. Arsim é a denominação local pros homens eternamente adolescentes, com cabelo igual ao do Cristiano Ronaldo, brilhante gigante na orelha esquerda, corrente de prata no pescoço, Nike Shocks nos pés, house, trance e música ruim no volume máximo no carro esporte. Muda a denominação e o endereço. Só. Eles estão espalhados no mundo inteiro.

A cidade é a mais movimentada no Kineret, ou Mar da Galiléia, um lago de 55 km de diâmetro, o maior reservatório de água fresca de Israel, e também é a maior e mais importante fonte de água potável do país. Foi lá que, supostamente, Jesus andou sob a água. Tínhamos 2 dias na cidade. No primeiro, procuramos uma praia agradável pra descansar. Encontramos lixo empilhado nas pedras e praias particulares. Depois de muito andar e não esbarrar em nada interessante, a conclusão: amanhã alugamos uma bicicleta pra dar a volta no lago.

Ás 6 da matina, eu e Sharon já de pé, com protetor solar, mochila nas costas e as roupas menos inadequadas que tínhamos: short jeans e regata. Alugamos 2 bikes, compramos frutas, 4 litros d´àgua pra cada uma e colocamos os pés nos pedais. 55 km de estrada pela frente, num calor que atingiria 42 graus ao meio dia. A estratégia era pedalar o máximo possível antes do bafo começar e só depois parar em algumas praias e relaxar. Começamos pelo norte, o trecho com mais subidas e descidas, aproveitando a brisa e os músculos ainda inteiros.

Informação importante e embaraçosa: aprendi a andar de bicicleta aos 19 anos. Ponto parágrafo.
O sobe e desce começa. A cada subida, a felicidade que antecede a descida. As coxas e o bumbum estão em tensão total, mas sabem da recompensa que receberão e não poupam esforços. E eu estou em controle da minha mente. Quando o cansaço bate, mudo o foco do olhar. Abaixo a cabeça e olho 2 metros na frente, esquecendo a distância que ainda tenho a percorrer antes que o vento no rosto me faça esquecer do cansaço.
Medito na textura do asfalto e na sua nitidez, que vai mudando a medida em que troco meu foco: 2 metros na minha frente, embaixo dos pedais, 1 metro na frente, embaixo da roda dianteira. Quanto mais perto de mim, mais rápido o chão parece passar. A concentração é tanta que não percebo que estou me movimentando pra direita, pra londe da pista e… o asfalto acaba. Cai bicicleta, cai Carol, buzinam os carros passando, eu gargalho.

Subo no selim e começo tudo de novo. Sharon está na minha frente, porque eu paro pra registrar tudo. Começo a cansar e as fotos já não funcionam mais. Depois de 10 km, minhas costas estão doendo. A bicicleta não tem o tamanho perfeito pra mim, o guidom é muito baixo e a mochila está pesada com tanta água. E nada da Sharon. Ligo o iPod, escuto um podcast do Vida Fodona (recomendo!) pra dar um pique e a música está tão boa que, antes que eu lembre que estou cansando, eis Sharon me esperando num ponto de ônibus.

Paro, me alongo, troco o short jeans por um de algodão, que uso como pijama diariamente. Me alongo um pouco mais (e viva Iyengar Yoga!) e boto o pé na estrada de novo. As pernas aguentam, a coluna é que começa a dar sinais de desgaste absoluto e a tomar controle da mente. O pensamento que começa a povoar meus pensamentos suados é: “Oy Vey! Só pedalei 1/5 do total e já estou com dor. Não vai dar. Não vai dar. Não vai dar.” Mas aí vem mais uma descida e a oscilação entre a desistência e a endorfina começa. “Que delícia trabalhar meu corpo. A vida é tão linda. Eu estou fazendo uma viagem tão deliciosa. Obrigada pela oportunidade. Minha mente é forte o bastante pra tanta coisa. 55 km não são nada. Ai, minhas costas. Estou fora de forma. Não vai dar. Não vai dar. Não vai dar.”

E assim vou por mais 7km. São 10 da manhã e o calor está castigando. Precisamos parar pra comer umas frutas, beber bastante água e dar um mergulho no lago. Depois de passarmos pela vila onde Jesus fez algum milagre que já não me lembro mais qual era, descemos uma rampa inesquecivelmente gostosa, colocamos um biquini e aaaaaah….. que delícia de água fria. Que delícia é a sensação de não-gravidade. Que delícia é relaxar os músculos e boiar com os ouvidos dentro d´àgua. Depois de resfrescadas e rindo de tudo, resultado da endorfina que me proporcionou um humor que há muito tempo não tinha, checamos o relógio. Passaram-se uma hora e meia nessa brincadeira. Ui! São 11 e meia e ainda temos 36 km pela frente. Mas meu estado de espírito está tão positivo que nem penso mais no cansaço. Endorfina, eu recomendo.

Um choque de realidade. A rampa inesquecivelmente gostosa se torna uma sauna inesquecivelmente desagradável e, depois de 5 míseros minutos, eu chego no topo carregando a bike na mão, com todos os poro do meu corpo pingando. Não é força de expressão. Todos os poros do meu corpo suam depois de 5 minutos de subida. Ferrou.
Mas vamo que vamo. Parece que os próximos quilômetros são mais tranquilos, porque não vejo, no horizonte, nenhuma subida ou descida monstruosa. Aparentemente, chegamos na ponta do lago. A informação que nos deram era que, a partir desse ponto, não precisaremos mudar tanto de marcha. Ufa!

Agora escuto Phoenix. Minhas pernas doem. Agora escuto Otto. Minhas costas gritam. Agora escuto Balkan Beat Box. A música que sempre me coloca pra cima parece se arrastar e não terminar nunca. Porque está tão difícil finalizar essa reta? São os 6km mais sofridos da minha vida. Pior que a aula de spinning avançado master super plus. Ferrou. Se estou sofrendo assim numa mísera reta, nunca vou completar o lago todo. Eis Sharon, no próximo ponto de ônibus. Me recebe com um “essa última subida foi mortal.” Olho pra trás. Sim, foram 6 km de subida numa inclinação quase invisível. 6 km de músculos trabalhando. Nossos cálculos sobre a ponta do lago estavam errados. Não dá mais. Estou morrendo.

Do outro lado da estrada, um restaurante. É a solução pros meus problemas. Preciso de carboidratos, café e uns momentos no ar condicionado pra continuar a saga. Sanduíche com pouco queijo e muitos vegetais, água com muito gelo e café. Depois de gargalhadas sem fim estirada no banco, estou pronta pra próxima etapa.
Começo bem. Mas o bem dura pouco. Muito pouco. São uma da tarde e nunca senti tanto calor na minha vida. Já não vejo mais Sharon pra dizer que vou parar. Que não vai rolar, que vou esperar um ônibus ou tentar uma carona que tenha espaço pra bike. Não quero pegar o telefone na mochila. Minha mente começa a pifar: preguiça de pegar o telefone, mas ainda tenho um restinho de energia pra pedalar até Sharon.

Minhas costas. Ai! Prática de yoga, como você me faz falta. Subidas e descidas sem fim. Mas agora as descidas não valem mais o peso das subidas. A cada nova curva na estrada, vejo Sharon me esperando. É miragem. A fumaça do calor no asfalto e meu cansaço estão me fazendo ver coisas. Desisto de pedalar. A bike vai na mão.

Quando atinjo o fim de uma subida mortal, monto novamente na bicicleta pra aproveitar o descanço dos músculos. Mas,logo no comecinho da descida está Sharon, sentada me esperando. O cabelo desgrenhado, o rosto vermelho pingando, a bicicleta jogada do seu lado. Ela também não consegue mais. Entramos na próxima praia, depois de passar pelo camping onde foi o Indigo Festival. A faixa de areia é pequena, mas suficente pra deixarmos nossas coisas, em meio a famílias religiosas com o corpo totalmente coberto. E nós, pingando, jogamos a bicicleta no meio do caminho, tiramos nossas roupas correndo e, de biquini brasileiro, nos jogamos no lago.

Boio no lago, leio na areia, observo as crianças fofas ao meu redor. Boto as pernas pra cima e penso o que fazer com duas bicicletas e 27,5 km to go. Vamos tentar uma carona num carro grande o suficiente pra 2 mulheres e 2 bicicletas. O momento relax merecido dura quase 2 horas e, às 17hrs, time to hit the road again. Temos uma hora pra conseguir a carona ou torcer pro ônibus passar a tempo de entregar as bicicletas.

Cansada, mas eufórica, peço carona não só com o dedo. Estou dançando e cantando no acostamento. Feliz da vida. Os carros até param e oferecem carona, mas ninguém tem lugar pras bicicletas. Até que, 40 minutos, uma conversa com policiais e amigos americanos depois, um carro (quase) suficientemente grande pára. É uma mini micro van com um porta malas grande para as bikes, mas que está cheio de pneus e material de construção. O motorista está imundo de graxa e o irmão mais novo está no banco do carona. Ele topa levar as bikes. Opa! Temos 20 minutos pra chegar lá. Vai dar.

Demoramos 15 minutos só pra encaixar as magrelas. E mais uns 5 pra definir quem senta onde. Eu acabo no banco do carona e Sharon no banco de trás, com o pescoço envergado entre um selim e um irmão fedido. Vamos nos atrasar. Paciência. O motorista não fala inglês e eu pratico meu vasto vocabulário de 200 palavras em hebraico. Nos entendemos bem e ele é uma simpatia. Nos oferece um mergulho no lago. Um não. Uns. Mas estamos com pressa. Ele mostra o caminho pra casa dele e diz que não vai pra casa agora porque quer nos deixar em segurança em Tiberias. Eu e Sharon comentamos em inglês como os israelenses são cordias e prestativos.

Ele nos deixa num estacionamento pertinho do lugar onde precisamos devolver as bikes. Mais uns 10 minutos pra desmontar o ninho que fizemos. Selim que prende na roda. Guidom que prende no banco. Eize balagan! Quando está tudo pronto pra ir, ele me chama. E, muito sério, me diz: “Meá shekalim”. Ele quer 100 shekalim (a moeda local) pela carona. Ah, não!

Meu vocabulário de 200 palavras imediatamente passa a ser um dicionário em hebraico. Não sei como, me transformo numa professora de hebraico. E dou um sermão nele, enquanto Sharon me olha com os olhos arregalados:

Estou há 3 meses e meio em Israel, pegando carona pra cima e pra baixo e, em nenhum momento, alguém me cobrou. Se eu tivesse dinheiro, estaria num ônibus, e não pegando carona com um estranho. Se você quer dinheiro quando oferece carona, precisa deixar isso claro antes que o passageiro entre no seu carro. Não é assim que as coisas funcionam, meu querido!

E ele repete: “ Meá shekalim”.

Vou até minha mochila, pego 50 shekalim e volto.

Isso é tudo o que tenho. E estou te dando pelo combustível e pela ajuda com as bicicletas. Se eu tivesse mais, te daria, mesmo não concordando com o que você está pendindo. Aval ein li od kessef! Mas não tenho mais dinheiro. Zé kol ma she yesh li. Isso é tudo que tenho. Ha erev ani lo ochal aruchat erev ki ein li od kessef, atá mevin? E hoje não vou jantar porque não tenho mais dinheiro, você entendeu?

Ele me responde: “Od chamishim”. Mais cinquenta. Mesmo com meu drama mentiroso.

Ata lo makshiv li? Ein li od kessef! Você não escutou o que eu disse? Não tenho mais dinheiro!

A discussão continua por uns 10 minutos. A endorfina se mistura com adrenalina e eu estou com a macaca, mas sem perder a compostura. Sou grossa e educada ao mesmo tempo, como uma perfeita israelense. E me despeço:

Ani holechet archaiv. Estou indo agora. Espero que da próxima vez que você oferecer carona, saiba como funcionam as coisas nesse país.

Viro as costas, pego a bicicleta e pedalo, na paz de Gandhi.

Dizem que você precisa de um tempo viajando num país para entender como as coisas funcionam e realmente sentir a cultura. Em Tiberias, fui mais que turista e mais que viajante. Fui israelense. A duas semanas de seguir viagem para Bali. Se pudesse, ficaria mais tempo por aqui.

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5 respostas para Pedalando como uma israelense

  1. Luísa Parnes disse:

    Sensacional. De vez em quando dou uma lida aqui no blog, e esse foi, com certeza, o melhor post que li, Beijos

  2. letícia sertã rezende disse:

    Carol, muito bom receber os e-mails da sua viagem logo aqui na minha caixa.
    Uma brecha da vida daqui, dos assuntos daqui.
    E já que não o teletransporte não existe ainda… eu estou lendo e me sinto ali, pedalando, suando, no limite. No sol – que hj aqui tb faz um dia daqueles – de brilhar.
    As historias, a leitura, as fotos… ah as fotos.
    Está muito lindo daqui e sinto que tb está por aí.
    Se um dos objetivos era inspirar, score!

    muitos beijos e um abraço bem apertado

  3. denise disse:

    ein li PALAVRAS le medaber at ma ani SENTI ve GARGALHEI im a text shelach. Zé mestuiain, ani rotsá od echad AVENTURA im sof tov.
    ENTENDEU? beijos

  4. Paula disse:

    Hahahaha.. Mamash! Perfeita israelense! =]

  5. Pingback: Presente de Vida pra Vida | Quando o mar se abre…

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