O besouro e o ataque

Cheguei no Sinai desconfiada, tarde da noite e com medo da situação pós-revolução no Egito. Estava escuro, eu cansada e faminta, no meu modo cranky que quem conhece evita. Depois de uma lua hipnotizante, uma boa noite de sono, o humor melhorou. Um mergulhinho com snorkel aqui, uma dormidinha numa praia paradisíaca ali, eu estava back on track! Ou era o que eu achava. Dois dias de praias semi- desertas, águas cristalinas, silêncio merecido e descanso me renovaram, mas alguma coisa ainda estava fora da ordem.

Como de costume, as coisas têm se resolvido em poucos minutos pra mim. Fui dar um passeio ao por do sol com a câmera na mão. Estava num bom flowtográfico (eita, breguice de palavra inventada!), até a bateria da câmera acabar. Procurava alguma vendinha pra pegar uma tomada emprestada, mas nas poucas que estavam abertas os vendedores me olhavam como carne no mercado. Coisas de países árabes. Já estava desistindo e me remoendo de ver a linda luz que estava perdendo, mas… c`est La vie.

Até que um vendedor com a loja aberta me vê não me dá a mínima. Só levanta a mão com simpatia e abre um sorriso sem malícia. Corta a cena. Estou dentro da loja tendo aula sobre mitologia egípcia enquanto procuro, com a certeza irracional de que vou encontrar, alguma coisa que me salte aos olhos em meio a quinquilharia de vestidos hipongos, colares de moedas, óleos e incensos. Meus olhos vão vai de encontro aos besourinhos e besourões entalhados em turquesa. Lindos. Mágicos. Mas ainda não é isso.

Mini flash back. Eu dirigindo para o sul de Israel, em direção ao Sinai, sozinha no carro emprestado de um amigo. Coloco o único Cd que ele tem no porta malas e que chama minha atenção: Pulse Live, Pink Floyd. É a trilha sonora perfeita pra uma estrada suave, no meio do deserto, num por do sol que traz cor de rosa para as montanhas. Faixa 11. Wish you were here. Quando o som atinge a primeira nota, começo a chorar. Choro de gratidão, de beleza, de solidão confortante. Repeat. Repeat. Repeat. Repeat. A música vira mantra que entoa minha direção. Sozinha mas acompanhada na estrada Beer Sheva – Eilat.

Volta pra vendinha no Sinai. Volta pra procura pelo objeto que vai saltar aos meus olhos. Volta pros besouros na prateleira. Sem pensar, minha mão direita se enfia num cantinho escondido entre tabuleiros de gamão e escuto, ao tocar um objeto que ainda não sei o que é: “how I wish, how i wish you were here.” O vendedor está cantarolando e consertando meu cordão que, misteriosamente, arrebentou na bolsa da câmera, enquanto meus dedos encontram um besouro feito de uma pedra branca leitosa. Achei. Imediatamente sei que aquele besouro é meu. E que vai se encaixar no cordão que Ali conserta.

Passamos a próxima hora conversando sobre o significado do besouro pra cultura egípcia, sobre as inscrições atrás do meu novo “amigo”, sobre Deltas, chaves da vida, Iris e Osiris. Sobre a proteção para os mortos e para os vivos. Rimos juntos, falamos sobre a magia por trás das pirâmides do Egito, sobre a possibilidade de se modificar um ponto gravitacional e sobre mangas. Ele vai até sua geladeira e me trás uma delas. Eu vou embora limpa, suja de manga.

A câmera está carregada, mas o sol já se pôs. E eu estou num estado meio de transe. E continuo assim até adormecer. Numa alegria inexplicável. Uma alegria pra dentro, de quem sorri pra si mesma, que encontra beleza em todos os átomos que cruzam seu caminho. E começo a entender o Sinai, finalmente. Decido que ficarei por lá por mais uns 2 dias, pra entrar no ritmo de vez.

Isso foi ontem. Adormeço com o planejamento pros próximos dias na cabeça. Hoje acordo com uma necessidade súbita de voltar pra Israel. Uma urgência irracional. Intuição. Explico o inexplicável pros que estão comigo e, estranhamente, todos aceitam sem discutir, mas propõem que tomemos café da manhã com a pergunta na cabeça, pra ver se é realmente a coisa certa a se fazer. Durante o pão com queijo, a notícia: ataque terrorista na estrada Beer Sheva – Eilat. Aquela que me proporcionou um choro solitário e feliz, alguns poucos dias atrás. Encontramos nossa resposta. É hora de voltar. Até então era um ônibus atacado sem vítimas mortais.

Pratico meia horinha de yoga, dou um último mergulho no mar, tomo uma chuveirada demorada, arrumo as coisas e vou pro lobby da pousada esperar o taxi. A TV está ligada. Sete mortos.

Minha volta pra Israel é um fio de pensamento ininterrupto. E que fique claro que não cheguei a uma conclusão. O quanto vale uma vida? O que vale mais? O orgulho, a religião ou a existência? O quanto vai demorar pro exército israelense jogar uma bomba em Gaza?(Resposta veio logo em seguida: menos de 12 horas). Porque os israelenses não se chocam com o que aconteceu? Porque não aproveitar o estrondoso orçamento israelense de 6,5% do seu GDP (cerca de US$16bi) para, a cada bomba enviada a faixa de Gaza, enviar também uma equipe de professores, construir uma escola, um centro de esportes? Porque sugiro bomba e escola? Porque não pode ser só escola? Porque o mundo continua acreditando que a melhor maneira de combater terrorismo é com mais terrorismo mesmo depois de anos de tentativas frustradas?

Os israelenses que estavam comigo pareciam não se incomodar tanto. Suas mães não ligavam preocupadas como a minha. A sensação de “a vida continua” não se encaixava no meu estado de espírito. Chegando na fronteira, ainda no lado do Egito, era como se nada fosse. Filas longas sendo furadas, bagagens esquecidas pelo caminho, carimbos dados sem muitas perguntas. E tudo muda depois de 2 minutos, ao chegar em Israel. A tensão era palpável no olhar dos policiais atrás de seus binóculos, nas mochilas que passavam cada uma 3 vezes na máquina de raio-x, nas perguntas infinitas e desconfiadas que me faziam a cada vez que eu esbarrava num oficial. Pelo menos a fronteira ainda estava aberta. Perguntamos pra um oficial menos emburrado qual era a situação. A estrada pro norte estava fechada. Os ataques continuam, cerca de 20 terroristas estão escondidos no deserto, atirando em qualquer veículo que passa. Teremos que dormir na cidade israelense que menos suporto, onde me sinto visitando o filho de Miami com Las Vegas.

As televisões estão ligadas em toda a esquina. Paramos pra checar. Mais 6 mortos. O veículo particular de uma família fora atacado por mísseis. Todos morrem. Quanta tristeza. E piora: O exército israelense envia bombas para a faixa de Gaza, matando pelo menos seis palestinos. Isso a poucos quilômetros a norte de onde estou. E todos continuam comprando seus tênis Adidas, seus biquínis Hurley, tomando ice-café e frozen yogurt.

Por algumas horas, caminhando em meio ao consumismo louco, esqueço de tudo também. Até chegar no albergue e sentar pra escrever. Sensação de vulnerabilidade, de desproteção, de tristeza, de tempo correndo e a gente não acordando pra mudança que precisa acontecer.

Agora estou presa em Eilat, mandando energias positivas pros familiares que ficaram, fazendo força pra não ficar desesperançosa e agradecendo a mim mesma por ter escutado minha intuição.

____
Em tempo: agora são 9:30 am de “amanhã”. 1 dia depois de ter postado o texto acima. Acordo e checo as notícias. Estava indagando se não era melhor ter ficado no Egito. Não. Meu sexto sentido nos livrou de uma. O exército israelense está invadindo o Sinai. A faixa de Gaza está sob alvo de bombas. As estradas estão livres. Melhor sair do sul. Rumo ao norte agora. Mãe, te ligo assim que chegar lá em cima.

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3 respostas para O besouro e o ataque

  1. denise disse:

    honrando o meu instinto (ou minha realidade?) iidishe mame, te liguei antes de você chegar no norte!
    vou comprar um babador, ou colocar um sugador de dentista. Melhor a segunda opção.
    Muitos beijos

  2. Iaci disse:

    Orgulho de vc meu amor! parabéns pelo post, que para mim, é um artigo de muito conteúdo e crítico! orgulhosa de ler isso! bjos

  3. Pingback: Presente de Vida pra Vida | Quando o mar se abre…

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