Talhando a carne, abrindo o coração

Há 1 mês e meio que minha perna carrega uma inflamação. O que começou como uma mini espinha se transformou num vulcão, depois de tanto tempo de negligência. Eu achava que estava tudo bem, que iria melhorar com a pomadinha que estava passando e com uma mente saudável. Meus amigos me diziam, quase que diariamente, que era hora de ir ao médico. Mas eu sou durona, mulher forte que não precisa de ajuda pra nada. E não vou fazer o que vocês me sugerem, porque sou dona de mim.

Ledo engano. Semana passada, minha perna acorda latejando. O interior da inflamação está roxo. Estou no norte de Israel, numa cidade pequenina, sem hospital por perto. Comento com Sharon e Yonatan que meu Tamagoshi está doendo e eles decidem por mim. Não agüentam mais ver minha perna tão nojenta. “Hoje nada de cachoeira. Vamos pro hospital da cidade vizinha. Agora.”

Eu não tinha escolha. Na verdade, sempre tenho escolha, mas dessa vez percebi que eles tinham razão. Iria pra Bali em menos de 2 semanas e tratar uma infecção na Indonésia não é tão fácil quanto aqui. Lá fomos nós pro hospital em Tzfat. Chegando lá, preenche formulário, vai pra emergência, checa pressão e temperatura. Meu hebraico já me possibilita me comunicar com garçonetes, motoristas de ônibus, mães de crianças fofas, caixas de supermercados e afins, mas entender vocabulário de médico, só depois de uns 5 anos em Israel. Entrei no quartinho sozinha. O enfermeiro falava um inglês macarrônico, mas o médico, além de rabugento e de não olhar nos meus olhos, não entendia uma palavra do que eu dizia.

Parêntesis: meu pai é médico, o significa que eu nunca precisei ir pra emergência de um hospital público, nunca precisei entender o procedimento de um tratamento, nunca precisei me preocupar se os profissionais eram bons ou não. Papai sempre cuidou de tudo.

Por isso, quando o médico me mostra a seringa com anestesia local, tudo o que eu consigo pensar era que eu queria que meu pai estivesse segurando minha mão. (Aviso: se você não se sente confortável com informações escatológicas, vá direto para o próximo parágrafo) Quando a seringa encosta na minha perna, imediatamente pus começa a pular da infecção. Um vulcão em erupção. Depois do teste se eu não estou realmente sentindo nada, o corte. Não consigo olhar, coloco as mãos no rosto e só dou uma espiada quando a gaze está em cima do talho. Quanto sangue, quanto pus, oy vey! Cadê meu pai pra segurar minha mão com suor gelado? Ele deixa uma gaze dentro do corte, coloca um curativo e pronto! Começa a me explicar em hebraico o que devo fazer, como devo limpar, o que devo tomar. E eu com cara de ponto de interrogação. “Yonatan! I need you in here!”
Ele vem e traduz tudo. Preciso voltar amanhã pra limpar tudo, trocar o curativo e ainda hoje começo o antibiótico. Aparentemente, se eu demorasse mais uma semana pra me tratar, possivelmente tirariam um naco da minha perna. A situação tava feia.

Saio do hospital pensativa. Porque demorei tanto pra dar o braço a torcer? Porque demorei tanto para reconhecer que precisava ser tratada por um profissional? Porque demorei tanto tempo para reconhecer que eu sozinha não daria conta do recado? Que Sharon, Yonatan e o médico rabugento precisavam entrar em ação?
É como se, para poder me entregar para o outro, eu precisasse antes me entregar a mim mesma. Para confiar no outro, preciso primeiro confiar em mim. Demorei porque ainda não estava pronta para deixar o outro penetrar meu íntimo. Porque eu ainda não conhecia meu íntimo. Como deixar o outro adentrar um espaço que eu mesma desconheço? Como garantir que ele não vai entrar num beco escuro, do qual nem eu conheço a saída? Como garantir que ele não vai sentar no sofá mais confortável da sala e escolher um canal que detesto, enquanto eu vou tomar uma chuveirada? Como receber o outro na minha casa se eu não conheço todos os cantos claros e escuros dela?

Precisava me (re)construir, ficar forte e íntegra para permitir a troca. Quando consegui estar com eles sem perder meu centro, consegui ouvi-los. Era como se, se eu os “obedecesse” o sem antes ouvir a mim mesma, perderia minha conexão comigo. Só no momento em que me senti confortável comigo consegui estar com o outro sem me perder. E aí me permiti ouvi-lo e agir de acordo com seus conselhos e opiniões. Precisei de 3 meses e meio de uma Carol durona para me permitir ser aconselhada por um outro. A partir de uma Carol durona, consigo construir uma Carol macia. E, na maciez, a carne marcada não dói tanto. Porque estou pronta para a incisão, é mais do que hora dela acontecer. A infecção era perigosa. Já estava me machucando não ser talhada, não ser marcada. A menos de duas semanas de me despedir das conexões feitas em Israel, me lembro de um e-mail que meu pai me mandou, depois desse meu post:

“Acho que é isso que você quis dizer no último post, com a sensação de impermanência das relações que você está fazendo, com a incapacidade de seu parceiro de movimento e dança de entender seu ritmo. Mas tudo isso é permanente, deixa uma marquinha, um aprendizado, um lucro para sempre. E foi atrás desse lucro que você começou sua viagem. Lembre também que as mesmas marcas que você recebe você deixa, e aí a impermanência evapora.”

Agora, tenho 4cm de um talho na minha perna, para lembrar das marcas que recebo e deixo. Uma cicatriz permanente.

Sim, já estava marcada. Mas aparentemente, não entregue, como a vida me mostrou em seguida.
Ontem, depois da viagem pro Norte, me despedi da Sharon, com um aperto no coração. Depois de 2 meses e meio com ela, um adeus. Ilusão achar que é até logo. E vim pra Jerusalém, dar um até logo pra cidade que me encantou. Cidade velha, shuk, almoço com amigos brasileiros, ida a um parque pra ler meu novo livro. O almoço foi delicioso e acabei adormecendo no banco do parque. Mas, antes de adormecer, me dou conta de que estou caindo no sono e me pergunto se posso fazer isso. “Sim, Carol. Isso é Israel, e não o Brasil. Aqui você está segura. Bom cochilo!”

Acordo depois de uns 40 minutos, com o livro aberto na minha barriga, a mochila como travesseiro e… cadê minha câmera? Cadê minha bolsa? Cadê? Cadê? Não. Isso não pode ser verdade. Cadê meus lenços, meus documentos, meus cartões, meu dinheiro, meu celular, minhas fotos, meu iPod? Cadê eu mesma? O que eu faço?

Nua. Raivosa. Desesperada.

Vem chegando um senhor de cabelos brancos e kipá, que percebe minha feição de desespero e me pergunta o que aconteceu. Ele me ajuda a tomar decisões, me diz que o ladrão deve ter pego tudo o que interessava e jogado o resto em um arbusto. Um arbusto… Esse parque tem uns 724 arbustos. Ele anda comigo pelas redondezas, olhando dentro de latas de lixo e plantas, tentando conversar comigo. De onde você vem? Pra onde você vai? Eu não quero conversar, quero achar minhas coisas! Não toca em mim! Porque você está segurando minha mão? Porque está me convidando pra tomar um café? Porque eu preciso da sua ajuda agora, seu velho tarado?

Vulnerável.

Um outro senhor percebe que estamos procurando algo e pergunta se minha câmera foi roubada. Ele viu o safado correndo, mas sem bolsa na mão. Olho por dentro de mais um arbusto e lá está minha bolsa revirada. Entro no meio do mato e encontro papeis avulsos, minha foto com meu cunhado e minha carteira. Vazia. Sem celular, sem dinheiro, sem cartão de crédito, sem cartão de memória. Sem número do celular de ninguém, sem endereço, sem saber o que fazer.

Perdida.

Ando a esmo, tentando me lembrar como chegar à casa do Yonatan, que devia estar me esperando há um tempo. Só me lembrava que era uma rua que um dia dividiu Jerusalém árabe de Jerusalém judaica. E que a rua terminava numa escadaria. Me pergunto algumas vezes se devo chorar. A casca criada nos últimos meses de depender somente de mim mesma me respondeu: “NÃO”. Não é nem que prendi o choro. Decidi racionalmente que não queria chorar. E fui, forte como o Muro das Lamentações, em busca da casa dele, com as duas únicas informações que tinha. Procuro, pergunto, procuro, pergunto e, finalmente, acho meu caminho. Bato na porta, o que dizer para a família toda? Porque estou batendo sem antes ligar avisando que viria?

Tola.

A família toda me acolhe, ele me acolhe. Israelenses podem ser grosseiros. Mas são muito acolhedores. No computador, consigo pedir pra um amigo ligar pra minha mãe e avisar tudo. Preciso cancelar os cartões todos. Ele fala com ela, ela liga pra cá. Digo que estou bem e então somos práticas. Papai vai cancelar cartões, mamãe vai achar alguém que esteja vindo pra Israel para me mandar dinheiro e um novo cartão. Estou indo pra Bali em 5 dias e preciso estar organizada novamente. Por um presente do destino, ela está almoçando com minhas irmãs e minha avó. A rede de contatos é acionada. Caderninhos de telefone trabalhando a todo vapor. Ninguém vem pra cá a tempo. Elas resolvem dar um break para respirar, estão engolindo a comida com tanta voracidade que vão ter indigestão. Começam uma conversa aleatória. “Mãe, como vai aquela sua amiga?”, minha mãe pergunta a minha avó. “Vai bem, vai ocupada, tem um bar mitzvá esses dias e está assoberbada… bar mitzvá… tem alguém vindo de Israel pra essa festa…” Resolvido. Domingo, um amigo dessa amiga da vovó vai me trazer o que preciso. Só falta comprar uma nova câmera, o que também não é um problema, porque a minha estava dando sinais de exaustão e já era hora de um upgrade. No fim das contas, perdi músicas e, mais importante, fotos sem upload. Não têm preço. Praticamente, tudo resolvido. Mas eu estava uma bagunça.

Exausta.

Yonatan percebeu. E me ofereceu uma meditação guiada. Em posição fetal, com a cabeça no colo dele, me deixo levar pelas palavras, que vão me levando ao ápice: “Obrigada nudez. É hora de você partir.Obrigada raiva. É hora de você partir. Obrigada desespero. É hora de você partir. Obrigada vulnerabilidade. É hora de você partir. Obrigada tolice. É hora de você partir. Obrigada exaustão. É hora de você partir. Aqui você está protegida, num círculo de luz em que nada de ruim pode te afetar ou afligir. De volta ao útero, tudo está bem. Aqui você pode relaxar cada músculo do seu corpo. Aqui, agora, você pode esquecer que tem um corpo.”

Fui sentindo todas as lágrimas que foram proibidas de cair dos últimos meses surgirem no meu estômago e subirem aos meus olhos. Caíram. Com soluções, soluços. No hospital, permitira cuidarem do meu corpo. Ontem permiti minha alma ser cuidada. Permiti-me deitar no colo do outro e chorar, chorar, chorar. Entregar-me sem vergonha, sem medo do julgamento, sem medo do outro me achar vulnerável. Sem medo. De encontro comigo mesma, de corpo e alma cuidados. Assumo que o outro pode me ajudar, me acolher, me proteger. Mas só depois de quase 4 meses de eu mesma me ajudando, me acolhendo, me protegendo. Agora estou pronta para receber.

Para estar confortável com o outro, preciso estar confortável comigo. Para me deixar ser vista sem muros, preciso eu mesma conhecer meus muros. Para me permitir ser cuidada, preciso saber que não conseguirei cuidar de mim mesma. Porque é necessária muita força para reconhecer fraqueza.

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9 respostas para Talhando a carne, abrindo o coração

  1. leticia binenbojm disse:

    Carol,
    Vivi isto com duas filhas pra cuidar em Londres, com pé torcido no começo de uma viagem que EU parti do Rio e ACHEI que todos precisariam de mim por lá. Passei dias arrumando as malas com todo cuidado, listas de roupas (até com combinações perfeitas), remédios (afinal, em Londres não se compra nada em farmácia sem atestado médico), etc. Resultado, aconteceu tudo ao contrário do previsto, mas eu precisava do cuidado do cuidado e carinho marido e duas filhas. Percebi que nunca estarei sozinha e que já posso cuidar mais de mim agora. Adorei o seu texto, tenha uma viagem maravilhosa em Bali e toma conta das suas erupções.

  2. edumourao disse:

    Carol, vc escreve muito bem.
    Isso aconteceu comigo, mas num lugar bem pior: Salvador!
    O médico me disse: ihh vamos ter que tirar o carnegão.
    Dito e feito, sem anestesia.
    Inesquecível….

  3. Paula Villoria disse:

    deixou a amiga orgulhosa!! Gostei de ler!!!!!

  4. Viviani disse:

    Nuss, aconteceu cmg.. na banda direita do bumbum.
    A sorte é que desenflamou sozinho e eu não precisei de talhos para me “curar”.
    Pelo menos, não nesse aspecto. Não literalmente.
    Ter que se permitir a ser curada, não é algo fácil.
    Tive e tenho algumas feridas na alma, que se foram com rapidez, e que se arrastam comigo pelos meus dias ora ensolarados, ora chuvosos.
    Enfim, gosto de ler seus posts. Vc escreve mt bem!
    E vê se não demora tanto assim pra postar.. fico ansiosa pra ler o que se passa nesse mundo. Seu mundo.

  5. o pato grizzly disse:

    Pós linda mesmo em google-Inglês.
    Fraqueza é poder. Gosto da história de Forrest Gump, que mostra-lo: Quando ele enfrentou sua fraqueza, não só ele superá-lo, ele se tornou guru nesse assunto. Bon Voyage racoon-menina.

  6. Alice Alizah Chekroun disse:

    B”H

    Me relaciono muito com os dois aparentemente grandes eventos desse post,
    hospital em Israel para mini cirurgias e bolsa roubada (minha em Madrid)…

    Mas, certamente, me relaciono ainda mais com o grande evento desse post,
    que é a capacidade de cicatrização.

    Saber se refazer, voltar ao estado inicial, mantendo a marca profunda da experiência.

    Aí a gente grita com orgulho:

    “Shemá Yisrael HaShem Elokeinu HaShem Echad!

    Im eshcacher Yerushlayim tishcach yemini”

    E chora!

    Por que a gente nunca vai esquecer Jerusalem, nem a nossa destreza, nem a nossa origem, nem a nossa jornada, nem a Unicidade do Eterno!

    E esse é o tesouro que a gente compartilha somewhere over the rainbow!

    Um beijo grande,

    Saudades,

    Alizah, Alice, Li…

  7. nina disse:

    Carol!

    Me daria umas dicas de como ir a bali sozinha? seus textos sao lindos!

  8. Pingback: Presente de Vida pra Vida | Quando o mar se abre…

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