Israel: a mais perfeita desordem

Comecei a escrever no vôo Israel- Kiev, o primeiro de 3 até Bali, tentando resumir meus quase quatro meses em Israel. O texto ficou uma bagunça. Ia e vinha, sem um fio condutor que ligasse todos os fatos. Depois de 18 horas entre aviões e aeroportos,sem um único atraso, com as poltronas mais confortáveis dos aviões (com direito a um upgrade misterioso pra classe executiva no primeiro vôo), entro na última etapa da saga. Mais 5 horas de Bangkok a Bali. Sento na janela, com espaço para esticar as pernas nas 2 cadeiras vazias ao meu lado esquerdo. Lembro do parto dolorido que foi chegar em Israel via Madrid. Tudo o que podia ter dado errado deu. E agora, tudo se encaixa perfeitamente. Certo por linhas tortas. Linhas? Que linhas? Deus não é linear… Estou divagando, mas é que olhei pela janela e não vi nuvens, enxerguei a mais explícita manifestação divina.

O sol brincando de esconder e, em determinados pontos, incidindo angelicamente no branco, construindo montanhas, rios, vales, comunidades inteiras de luz com uma clareza que só um cego de três olhos não conseguiria ver. E percebo que minha viagem não é racional. Desisto então de tentar achar uma única narrativa pra esse texto. Os pontos já estão ligados, mas palavras reduziriam o significado desse primeiro capítulo. Decido então expor meus pensamentos tais como apareceram inicialmente, na mais perfeita desordem divina.

Dia 6 de maio de 2011, dia em que cheguei em Israel. Já no controle de passaportes, percebi como o israelense é grosseiro. “Grosseiro?”, me pergunto depois de umas 6 semanas de convivência. Não. Rude é como o brasileiro o enxerga. Porque o israelense, quando chega num bar e esbarra numa mesa com 10 conhecidos, não dá dois beijinhos em cada um. Ele dá o famoso “oi geral” e se realmente tem interesse em falar com alguém, senta a seu lado e conversa olhando nos olhos. Rude é como o brasileiro o enxerga. Porque o israelense, quando se irrita com o engraçadinho que furou a fila do supermercado, não finge que não viu e vai pra casa se remoendo de raiva. Ele grita com o malandro na hora e não se deixa ser passado pra trás. Rude é como o brasileiro o enxerga. Porque o israelense, quando absorto em um assunto qualquer, não pára o que está fazendo para ser cordial. Ele junta todos os dedos da mão, não olha para quem o está chamando e, com um só gesto, faz com que a pessoa espere ele terminar sua tarefa. Rude é como o brasileiro o enxerga. Depois de um tempo, ele deixou de ser rude pra mim. Passou a ser verdadeiro, sem necessidade de “small talk” e cordialidades superficiais.Passou a ser irônico pra mim não encontrar a famosa culpa judaica num Estado Judeu. E a partir daí, a culpa começou a se dissolver também dentro de mim.

Mas só entendi tudo isso quando percebi o quão prestativos são. Como oferecem ajuda sem esperar nada em troca. Pessoas que conheci em cafés me convidaram para jantares na casa dos avós. Amigos de amigos que não só me ofereceram a casa para um pernoite, me fizeram dormir na sua cama enquanto dormiam no sofá. Desconhecidos que pararam de concertar o próprio carro para me levarem a um endereço ao qual não sabia como chegar. Tudo isso sem ser meloso, sem esperar nada em troca, sem segundas intenções (com exceção de uns tarados aqui e outros ali). Com o prazer genuíno em estender a mão ao outro. Por vezes, me senti desconfortável com tanta ajuda. Não sabia como agir, como agradecer, o que oferecer em troca. Mas acabei cedendo ao encanto de simplesmente receber e mostrar gratidão com um sorriso honesto. E a partir daí, fui aprendendo a receber. Sem culpa.

E, nesse contexto, fui aprendendo mais e mais. Aprendi a ser verdadeira e íntegra comigo mesma, para, a partir daí, funcionar da mesma maneira com o outro. Permiti-me perceber o quanto de minhas atitudes são baseadas no que acho que o outro espera de mim. Encontrei dentro de mim um espaço que oferece ao próximo sem tirar de mim. Agir estando íntegra e inteira na ação.

Íntegra no “oi, tudo bem?”, que tenho perguntado somente quando realmente me importo, e não sempre que a situação social impõe. Quantas vezes perguntamos sobre se o outro está bem e não nos lembramos da resposta? Estamos realmente interessados? Porque fingir que sim? Porque construir um dia a dia baseado em convenções sociais vazias de sentido?

Íntegra no dia de trabalho. O quanto ofereço ao ambiente de trabalho, além dos afazeres e da mão de obra em si? Ao chegar ao escritório impaciente, pensando no iluminado dia em que terei coragem de pedir demissão, será que minhas tarefas compensarão a energia negativa que estou trazendo?
Uma vez em contato com minhas reais ânsias, necessidades, reações e emoções, fica fácil fazer a mudança de estado de espírito e mente. Na presença, toda troca é verdadeira. A presença vem e vai, mas o importante é que eu agora percebo quando ela se foi e sei como trazê-la de volta.

Aprendi o prazer que me dá me sentir parte do ciclo da natureza. Da felicidade inversamente proporcional a minha pegada ecológica. Aprendi que pode ser delicioso ficar sozinha. Aprendi sobre poder do silêncio. Aprendi a me policiar a estar com o outro sem me perder. Aprendi como a convivência pode nos levar a navegar a onda do outro e esquecer o formato da própria prancha. E então lembro como sou mais agradável quando estou em contato comigo. E demando meus momentos de solidão para voltar a meu centro. Aprendi a deixar o outro entrar depois de ter estabelecido meu próprio espaço. Aprendi sobre o tamanho do meu pavio e sobre como alongá-lo. Aprendi a rir de mim mesma. Ou melhor, aprendi que ainda preciso aprender a rir de mim mesma com mais facilidade. Aprendi a ser mais suave. Mas, acima de tudo, aprendi uma boa maneira de aprender sobre mim mesma.

Nos últimos dias dormi mal. A idéia de ir embora de Israel não me era bem vinda. Sim, estou indo pra Bali. Bali. Bali! Mas é que tudo foi tão bom, tão perfeito, tão encaixadinho até agora que tenho pena de fechar esse ciclo. Me apeguei. Pronto. Falei.

Muitas lágrimas correram nos últimos dias. Despedidas de lugares, de expressões de linguagem, de situações recorrentes e de pessoas. Ah! As pessoas. Lindos seres humanos me tocaram. Lágrimas de tristeza, por saber que dificilmente voltarei a ver quem tanto me marcou e ajudou a crescer. Mas, principalmente, lágrimas de gratidão, por ter, em truques do destino, esbarrado em situações e seres de luz que me permitiram aprender sobre a troca, o dar, o receber, o sorrir, o chorar, o amar. Faróis que me encheram de brilho para seguir em frente e, sim, olhar pra trás. Olhar pra trás e ver o quanto cresci, o quanto caminhei e tudo que conquistei. Olhar pra trás e perceber cada uma das bênçãos que cruzaram meu caminho. Cada uma das bênçãos que mereci.

Estico as pernas nas poltronas ao lado. No espaço entre o céu e a terra, no espaço entre o que foi e o que será, no espaço entre Israel e Bali, faço minhas mentalizações para chegar no lugar que me impeliu a sair de casa. Porque Israel era pra ser um pit-stop antes do destino final. E, se o tira gosto se transformou num banquete, mal posso esperar pra (vi)ver o que vai acontecer com o prato principal.

Bom apetite!

E, pra sobremesa ser deliciosa… Pini, a série sobre um israelense que se muda pra Inglaterra depois do exército.

Esse espisódio é engraçadinho, mas vale ver desde o começo aqui.

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3 respostas para Israel: a mais perfeita desordem

  1. denise disse:

    li, reli, seu pai chegou, li de novo, estou babando. O sorriso não sai da minha cara, minha bochecha vai ficar doloridamente feliz ao longo do dia.

  2. Paula disse:

    Lindíssimo.

  3. Pingback: Presente de Vida pra Vida | Quando o mar se abre…

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