Sinais claros. Estou no caminho certo.

Cá estou, intrincada na natureza semi-selvagem. Trabalhando numa horta orgânica. No retiro espiritual de uma terapeuta holística. Conversando sobre espiritualidade, meditação e outras dimensões. Cá estou, em Bali, Terra dos Deuses. Cá estou, com dificuldade de achar Deus.

Minha mente não para. Saudade de casa. Apego a Israel. Solidão sem gratidão. Choque cultural. Jet lag. Desejo de conhecer Ubud, cidade a uns 5 km daqui. Me sinto “presa” nessa vila por, no mínimo 5 dias, até meu primeiro dia de folga. Pedalo pelas redondezas e a arquitetura é de cair o queixo. Templos a cada 5 metros. A umidade corrói a pedra, que fica sutilmente coberta por uma leve camada verde de limo. Tudo que meus olhos alcançam transborda algum tipo de magia. Mas meu coração não está em paz. E começo a ficar ainda mais angustiada por não estar conseguindo encontrar um espaço de contentamento e gratidão.

Estou tirando ervas – daninhas dos pés de tomate, após a rápida meditação coletiva matinal. Mas não estou cá. Não estou lá. Não estou em lugar nenhum. A cada 5 raízes arrancadas, paro e sofro. Pergunto-me incessantemente o que devo fazer à tarde. Se devo ir pra Ubud pra conhecer uma cidade e tentar diminuir essa emoção de saudade de Israel. Ou se devo praticar yoga e meditar novamente. Se devo ler meu livro. Se devo ir até o mercado comprar frutas e papel higiênico. Se devo meditar agora pra acalmar minha mente ou se é melhor fazê-lo mais tarde. Depois de meia hora de “devo meditar agora ou esperar até terminar o trabalho?”, uma força maior me arranca da grama e me faz levantar.

Ando decidida para o lugar reservado para meditação, utilizado em seminários. Minha mente tem certeza de que a energia desse ponto vai me ajudar a focar. Meus calcanhares descalços batem com força na leve camada de limo que cobre o caminho de pedras. Ouço grilos, muitos pássaros, o vento nas plantas e… uma vassoura. Lá se vai meu cantinho de meditação. Está sendo varrido. “É pra desistir?” – me pergunto, para em seguida rir de mim mesma. “Porque está se sabotando, dona Carolina? Siga adiante, porque nada é por acaso. Existe um ponto melhor te esperando.” Continuo andando pelo caminho de pedras. Até que chego a uma bifurcação. Direita ou esquerda? Direita. Chego num altar que saúda o “Anjo das Águas”, com três oferendas no chão. Supostamente, não há lugar melhor do que esse. Mas alguma coisa não está fluindo ali. Olho pra esquerda. Um rio corre. E um cantinho se ilumina. É ali.

Vou até lá e sento. Estou no lugar certo. Cruzo as pernas, olho ao redor, me familiarizo com o local. Fecho os olhos. Choro imediatamente. E, surpreendentemente, começo a falar em voz alta. Nunca falo enquanto medito, ou enquanto me preparo para meditar. Mas minha voz é mais forte que eu. Não estou pensando no que vou dizer. Estou dizendo e chorando.

“Por quê? Porque não estou conseguindo? O lugar, a natureza, a situação, as pessoas são perfeitas para eu encontrar Deus. Porque não consigo te ver? Porque estou cega para os sinais do universo? Porque não encontro paz dentro de mim? Me ajuda a ver, me ajuda a sentir, me ajuda. Me manda sinais claros, porque os subjetivos estão muito distantes pra mim nesse momento.”

Choro. Minhas mãos começam a se preencher de energia. Sinto que é hora de um reiki absolutamente intuitivo. Deixo minhas mãos passearem pelo meu corpo. Não lembro o que fizeram, pois não era minha mente no comando. Ela estava em stand by. Só o que lembro agora é que meu chakra cardíaco precisava de ajuda. Minhas mãos dançaram, me protegeram, me limparam, me pentearam, me amaram. E, quando concluíram sua função, voltaram a descansar no meu colo. E a imagem de uma chama violeta apareceu na minha tela mental. Venha, chama violeta, transmute o que ainda precisa ser transformado em luz.

Minha garganta começou a coçar. Queria dizer algo. Abri os lábios e deixei sair. OOOOOOOMMMMM. Numa voz estranha, uma vibração vocal que não era minha, grave e forte. Minha mente não a reconheceu. E, no exato segundo em que pensei “epa!”, minha voz voltou ao normal. Terminei a vocalização desafinando. Mas tentei novamente. E, dessa vez, com a mente de fora do processo, alcancei um tom que não sabia que existia dentro de mim. Grave, poderoso e longo, muito longo. Era como se não precisasse de ar para deixá-lo sair. Parecia não ter fim, não ser dependente de fôlego. Senti minha vibração e a de tudo ao meu redor se modificar. Era como se tivesse “batizado” o local com a minha energia.

Ao terminar, apreciei a potência da vibração sonora e as sensações corporais, mentais e espirituais que ela provocara em mim e ao meu redor. Abri os olhos. Tudo tinha uma cor diferente, uma luz diferente, uma impressão diferente. E havia um balinês limpando a margem oposta do rio, uns 15 metros a minha frente. Ele não olhava pra mim, estava absorto em seus próprios afazeres.

Olho ao redor, agradeço pelo momento de luz e, quando volto a olhar para o rio, o homem está caminhando em minha direção. Ele está com uma calça de jogging, sem blusa. O cabelo perfeitamente aparado, como a maioria dos locais. Cumprimenta-me e pergunta se eu medito. Sim. Medito. E você? Eu também, todos os dias no templo da minha casa. Mas medito sem som. Ouvi o som que você fez. Ele me chamou. Vim ver o que estava acontecendo. Que som era esse? Não sei dizer. Ele apareceu pra mim. Não sei de onde veio nem porque o vocalizei. Só sei que foi assim que ele saiu. Ah, entendi. Mas você viu alguma coisa nesse lugar?Que tipo de coisa? Coisas, energias, seres, pessoas. Você viu? Não, não vi. Fiz uma meditação pra ver o que acontece aqui dentro e não aqui fora. E você? Que tipo de meditação pratica? Eu medito pra minha intuição ficar melhor, com os chakras. Inspiro, prendo a energia no 2º e no 6º chakra, e expiro. Ah! Kundalini, você quer dizer? Isso, isso! Você conhece kundalini? Conheço, sim. Mas não foi esse tipo de meditação que pratiquei agora. Eu sei, eu vejo isso em você. Você está com um problema, não é? No chakra cardíaco.

A conversa foi longa. E, a medida em que íamos nos aprofundando, ele ia tomando uma luminosidade diferente. Era como se tudo ao redor dele perdesse o foco e ele estivesse sendo fotografado com uma lente fixa de 50mm, com um obturador totalmente aberto. Eu via cada poro do seu corpo, apesar dele estar na outra margem do rio, a cerca de 4 metros de distância. Me conta sobre seu grupo de meditação, que se encontra algumas vezes na semana. Ele é o mediador do grupo. Hoje vamos nos encontrar na praia. Você quer vir?

Minha resposta apareceu. Hoje a noite, não vou pra Ubud.

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4 respostas para Sinais claros. Estou no caminho certo.

  1. issalacroix disse:

    linda linda e emocionante! sempre me encanto e me sinto feliz por ter seus relatos. Obrigada obrigada!!!!!

  2. lilia disse:

    linda tks pelo seu caminha partilhado e tão desnudo…choro,seco,aprendo e sinto e me emociono.
    muuuuuuuuuuito tks
    jão
    lilia

  3. IBARBOSA disse:

    OLá!
    ADOREI LER!!!
    PODE-ME INDICAR ONDE FEZ O RETIRO EM UBUD?

    OBRIGADA
    INÊS
    PORTUGAL

  4. Gustavo disse:

    LINDO!

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