Descobrindo o poder de Bali

Cheguei a me perguntar se a decisão de ontem de aceitar o convite para meditar com locais tinha sido prudente. Aí me lembrei das palavras do Dani, meu cunhado: “não tome cuidado, só siga sua intuição”. E assim o fiz. Quinze minutos antes do combinado, Made buzina na porta do Jiwa Damai. Estou no meio da conversa-espiritual-pós-jantar, e Margret (a dona do lugar) está me dizendo que estar atenta não é sinônimo de me proteger. Que sim, preciso estar atenta durante a noite toda, mas se eu for para a meditação com o intuito de me proteger, parto do princípio de que é uma batalha e imediatamente jogo esse tipo de energia no ambiente. Esteja atenta, Carolina (ela não gosta de me chamar de Carol). O balinês sabe lidar com questões energéticas muito bem. Perceba se o ambiente é adequado a você e até onde você pode ir. Lembre-se que está num novo campo de energia, Bali é muito poderosa.

Ketut, o segurança, desce para me avisar que Made está me esperando. Nem tempo de lavar minha louça tenho. Pego meu sarong, minhas pedras, meu caderno e algum dinheiro, enfio na bolsa e subo correndo. Made está com um amigo. Ambos com roupas tradicionais, saias e blusas de botão. Tudo branco com tecido rebuscado. Cumprimentam-me, Made em inglês e seu amigo com um sorriso e um aperto de mão. O carro é novíssimo e grande, o que me surpreende. A vila me parece tão pobre que não consigo imaginar de onde vem tanto dinheiro. Sento no banco de trás e ele me diz que devemos chegar em 45 minutos. A estrada está movimentada, é domingo. No início, Made faz de guia turístico. Aqui é o mercado, aqui é o warong, aqui isso, aqui aquilo. Mas logo, logo trava uma conversa em balinês. Tento capturar uma palavra, mas nada. Nadica de nada. Engraçado como as línguas emitem uma primeira impressão. Em hebraico, se você não entende, eles estão sempre brigando e se conhecem há anos. Em balinês, eu só escuto fofocas e assuntos supérfluos. Não me parecem falar sobre nada prático ou relevante. Acabo adormecendo, agarrada na minha bolsa, porque agora estou escolada.

Sinto o carro parar. Acordo. Estamos na beira da estrada… Eles querem ir ao mercadinho para terem água pra cerimônia. Cerimônia? Aproveito pra comprar papel higiênico (ainda não me acostumei com o costume de usar o chuveirinho pra tudo) e pergunto que cerimônia pode ser essa. Hoje é um dia muito especial, me explica Made. É aniversário de um dos reis de Bali. Estamos indo visitar suas cinzas. O inglês dele não é tão claro. Isso foi o que eu entendi depois de uns cinco “I´m sorry???”. “Ebery fibe days is special day in Bali”, ele continua. E rimos juntos dos costumes balineses.

Entramos no carro novamente e, depois de uns cinco minutos de estrada de terra, chegamos. Um lugar estranho. Uma praia sem iluminação alguma, com alguns javaneses sentados no estacionamento rezando. Um pilotis balinês do lado esquerdo (preciso aprender o nome desse tipo de arquitetura) e um muro com uma casa pequena à esquerda. Made me explica que os javaneses estão ali para celebrar o aniversário do rei, mas que ele quer esperar todos entrarem, porque não gosta de meditar com muita gente. Não entendo o que ele quer dizer com “entrarem”, mas não entendo tanta coisa que essa é só mais uma. Enquanto esperamos, pergunto sobre a tradição hindu em Bali. Religião, vida, morte, magia negra, carma, energias, visões, Deus, intuição. Num inglês macarrônico, consegui entender o espírito da coisa.

Vou num matinho fazer xixi e, quando volto, um homem com as vestimentas de padre balinês (outro nome que preciso aprender, por enquanto vou chamá-lo de padre) está sentado no chão com Made e seu amigo. Sorri pra mim e entendo que ele não fala inglês. Eles conversam, riem e levantam-se. É hora de entrar. Ainda não sei onde estamos indo. Pegam umas sacolas plásticas no carro e nos dirigimos ao casebre à esquerda. No quintal, uma bacia grande com uma caneca muito parecida com a que quase todo banheiro em Jerusalém tem. Imediatamente soube que antes de entrar, precisava limpar as mãos com a tal água. Observei os dois fazendo. Uma mão, outra mão, rosto, tira os sapatos e entra. Lá vou eu.

Lá dentro, estão todos de pé me esperando, e apontam um lugar para eu me sentar. Estou tão preocupada com como agir que nem olho o espaço que acabei de adentrar. Sento em posição de semi-lotus, eles parecem gostar da maneira com que me coloco. Pronto. Cheguei, estou sentada como os outros. Agora posso olhar ao redor. A minha esquerda estão os três. O padre mais longe, o amigo de Made no meio e Made ao meu lado. Todos na mesma posição que eu. Um mini altar na frente do padre, com oferendas, incensos, água, lápis. No meio do quarto, uma cama enorme, com um cobertor amarelo e um docel de madeira, super rebuscado e detalhado. Em cima do cobertor, um bule, duas estátuas cobertas com um pano e algumas oferendas. A energia é poderosa. Exige respeito ao mesmo tempo em que transmite paz. Entendo imediatamente que ali estão as cinzas do tal rei balinês. E percebo que estou prestes a participar não só de uma meditação, mas de uma cerimônia local, com direito a tradutor particular.

O padre pede que eu escreva meu nome num papel. Começa a rezar e tudo que eu entendo no meio de tantas vogais é “Carolina” e “Brasil”. Assim que ele acaba, depois de cerca de cinco minutos, o amigo de Made pega uma pequena cumbuca de porcelana branca, com água e flores dentro. Estou atenta a seus movimentos para poder repeti-los sem gafes. Pegar a flor de dentro d`água com a mão direita e sacudi-la três vezes, de modo que os pingos vão em direção à cama. Fazer o mesmo, também por três vezes, sobre sua cabeça. Beber a água, montando uma conchinha com as mãos, três vezes e passar a água sobre rosto e cabelos por… três vezes. Pegar a flor e colocar atrás da orelha. Quando ele termina, presumo que vá passar a cumbuca adiante, mas o padre faz menção com a cabeça e ele levanta, oferecendo e segurando o recipiente na frente de Made, que só faz o 2º, 3º e 4º passos. É minha vez. Faço tudo certinho, com exceção da conchinha. Coloco uma mão ao lado da outra e ele me corrige, colocando minha mão direita por cima da esquerda. A água é perfumada. Com o cheiro da flor que me embasbacou no jardim Bah´ai de Akko. Fico feliz de ter boa memória olfativa.

A segunda etapa é com uma nova cumbuca, dessa vez com arroz cru. Um pouco sobre a cabeça, grudar um pouco no terceiro olho, mais um pouco sobre a cabeça, comer o que sobrou. Calculo mal a quantidade de arroz que deveria pegar e, felizmente, só preciso colocar na boca dois grãos de arroz cru. Made me explica: “no meio dos olhos, terceiro olho, 6º chakra. Pra você ver o que não pode ver com os outros dois. Na cabeça, 7º chakra, pra você ter boa conversa com Deus.”

O padre me entrega o incenso e uma flor e me mostra o que fazer. Segurá-los e meditar. Fecho os olhos. Foco no corpo, foco no tato, foco na visão. Vejo um boi preto, enorme. Acho que estou me desconcentrando. Porque raios um boi está aparecendo na minha tela mental? Boi preto desse tamanho? Para de viajar! Volta, Carol. Foco do olfato, foco na audição. Escuto claramente: “Agora sim, você chegou. Está abençoada nesse lugar. Seja bem vinda a Bali.”

Permaneço com essa sensação por alguns minutos e abro os olhos no mesmo momento em que eles três também estão “voltando”. Made me conta que conversou com o rei e pediu a ele que protegesse a estadia de sua amiga do Brasil q que lhe desse as boas vindas. Sorrio com cada poro do meu corpo.

Depois de algumas considerações em balinês, agradecemos ao padre e nos dirigimos à praia, imunda, cheia de restos de oferendas. Paro pra pensar se é realmente necessário deixá-las jogadas na areia. Eles preparam uma pra eu apresentar: flores, incenso, coco amarelo com a tampa aberta, um copo com água do mar e flores dentro do copo. Depois que eles montam tudo na minha frente, coloco ali também minhas pedras.

Iniciamos a meditação, cada um de nós sentado a uma distância de um metro e meio do outro. Novamente, de olhos fechados, escaneio meu corpo e meus sentidos. Paladar, tato, olfato, audição e visão. Visão. Uma mulher de branco caminhando para o mar. Não me assunto, mas sinto a presença dela muito claramente. É velha, tem os cabelos longos e brancos e o vento bate deixando seu rosto aparente. Mas ele tem uma luminescência tão grande que não consigo ver suas feições. Lembro do que Celia, minha mestra em tudo que tange energias e meditação, me disse uma vez sobre as praias no Brasil. São um espaço de descarregar energias, espaço em que algumas tradições locais fazem rituais nem sempre positivos e que, a não ser que você esteja muito focado, está suscetível a pegar interferências energéticas. Lembro tambpem que Margret havia me sugerido a ficar atenta e assim o fiz. Agradeci, abri meus olhos e esperei eles terminarem.

O fim da meditação obedece o mesmo padrão do início da cerimônia dentro daquele casebre sagrado. 3 vezes, 3 vezes, 3 vezes, 3 vezes. Com a água do coco, onde o incenso foi apagado e depois com a água do mar com flores. Made me pergunta como havia sido a meditação e eu expliquei pra ele o que acontecera. Quantas vezes tive de explicar para ele entender meu inglês? 3 vezes. Ele ri e me aponta para a parte detrás da praia, ao lado do casebre: “Vê aquilo? Cemitério. Sim, muitas pessoas passando. Mas pessoas boas. Não precisa medo.”
Fico feliz de ter parado a meditação, de ter confiado na minha intuição. Não estou tão firme para não pegar nenhuma interferência. A energia balinesa ainda é um grande e poderoso mistério pra mim.

Na volta, pergunto a Made: “Porque me convidou pra vir com vocês? Estou feliz que tenha o feito, mas também curiosa.” Ele gargalha e responde: “You are bery special, my friend”. O balinês é, de fato, muito amigável e receptivo. Mesmo não entendendo nem 20% do que eu digo…

Hoje, no café da manhã, Denis (outro wwoofer – voluntário – americano), Margret e eu conversamos sobre diferentes culturas e diferentes funerais. Falo sobre o judaísmo e Margret conta sobre o funeral local para pessoas das mais altas castas. Eles constroem uma estátua enorme para carregar as cinzas e são necessários 60 homens para carregá-la, de tão grande. Pergunto que tipo de estátua e ela me responde: um boi preto. Um boi preto! Não preciso de óculos, só preciso confiar mais nos meus olhos, ou melhor, no meu (terceiro) olho.

Em tempo. Hoje recebo o seguinte e-mail:

Dear carolina…
Welcome to Bali….Bali love and light…First of all i’m sorry my english not good …but i don’t believe it…my intuition real dream…your are my best and special friend….you must talk,said,ask and focus what do you want in your heart..good bless you..

Thanks/best regards

I made Swaba

Bali, estou aprendendo a te amar.

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8 respostas para Descobrindo o poder de Bali

  1. issalacroix disse:

    Aho Carol! Gratidão pelas palavras..!

  2. denise disse:

    GOOD bless you, bless our family, our friends, and the whole world.
    GOOD é muito bom, é certamente o que GOD quer para todos!
    (fala com algum diretor de cinema, isso tudo merece um filme!)
    beijos

  3. Ana B. Galeão disse:

    Carola,
    Estou sorrindo depois de te ler.
    beijo

  4. Ana Loureiro disse:

    Carolina,
    Cada vez que recebo seu email, abro-o com uma sede danada para ler seus textos! São lindos, emocionantes, uma viagem! Este, em particular, está um primor!!!! Obrigada pelo presente de hoje!!!bjs

  5. Bel Chvaicer disse:

    Carol, tenho lido seus posts, e fico cada dia mais envolvida com cada um deles!!! Como as suas palavras tem um tom de delicadeza e ao mesmo tempo de força!!!
    Como nunca estive em Israel, passei 4 meses aprendendo muito através do seu olhar… Porém já estive em Bali, e esse é mesmo um lugar que me pareceu meio mágico, diferente, misterioso (pelo menos pra mim, que não medito, não entendo, só sinto)… E o cheiro de Bali? Esse cheiro adocicado eu ainda guardo na lembrança. Obrigada por me fazer sonhar a distancia!!! E como disse a Camila, voe alto que as suas asas são bem grandes… Um beijo bem carinhoso!!!! Bel

  6. gabiheringer disse:

    Posso achar o máximo ter te enviado a pedra estrela as vésperas desse acontecimento? Lindo, lindo, lindo post.
    Mais uma vez te vi, ouvi e senti. Sinergia da boa!
    Saudades Astromeliares!

  7. Ana Paula disse:

    Que lindo assisto o filme comer rezar amar 100pre..quero ir nesse lugar, pode me mandar seu email? obrigada

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