Varre-varre, pensa-pensa

Todos os dias, por volta das 6 da manhã, alguém bate na minha janela. É hora de acordar. Escovo os dentes, lavo o rosto, visto minha calça laranja dobrável, já imunda de terra, bebo um copo d’água e começo o dia de trabalho. Pego uma vassoura balinesa, mais leve e com menos cerdas do que a brasileira e decido por qual dos dois complexos começo a varrer. A vassoura local não varre, penteia o chão. O balinês não tem pressa de terminar seus serviços. Eu (ainda) tenho. Pelo menos quando se trata desse serviço especificamente. Detesto varrer. Minhas costas doem e minha mente não varre.

Minha mente pensa no arroz do café da manhã, no arroz do almoço e no arroz do jantar. Na saudade da salada no desjejum em Israel e nos legumes que quero comprar para dar continuidade a esse santo costume que contraí nos últimos meses. Costumes. Costumes balineses. Choque cultural. Choque em sair de uma road trip para uma seqüência de dias quase iguais. Dias iguais. Hotel vazio. Quando teremos hóspedes? Ai, quantas formigas nesse chão… Varrê-las ou não? Margret disse pra empurrá-las para a água, mas eu não estou confortável com essa possibilidade. Conforto. Será que vou me acostumar a tanto arroz? Será que o ser humano realmente se acostuma a tudo? Que luz bonita que está batendo na estátua de elefante. Luz difícil de capturar em fotos. A luz é complicada aqui, com tantas nuvens as fotos não saem como eu gostaria. Saudade de casa. Hoje vou colar as fotos de todos na minha parede. Será que a Margret vai aprovar isso? Não me sinto totalmente confortável na presença dela. Eita personalidade forte que ela tem! Desafio tê-la como “chefe”. Desafio ter chefe depois de tanto tempo. Ai, essa luz está realmente linda. Será que depois da Tailândia vou fazer um curso de fotografia na Espanha? Será que quero uma cultura mais ocidentalizada ou preciso me acostumar aos costumes orientais antes de tomar uma decisão? Ou um curso de yoga? Preciso ir a Ubud comprar um tapetinho de yoga. Praticar nesse chão escorregadio atrapalha minha concentração. Como será Ubud? Quero viajar por Bali. Chegar num lugar totalmente novo e vir direto pra uma vila pequena, com difícil acesso está fazendo essa experiência ficar um pouco sofrida. Será que nas cidades encontrarei mais orientais? É tão mais fácil trocar com eles…. entendem o que eu digo.Meu inglês vai piorar por aqui, os únicos adjetivos que a maioria dos locais conhece são good e bad. Mas confundem good com God. Mais pessoas poderiam fazer a mesma confusão. Varre, Carol. Varre.

Penso. Penso. Penso. Penso em tudo, menos em varrer. E, dessa maneira, fica difícil aterrissar em Bali e sentir gratidão por estar aqui. Sem estar presente no momento presente, a conexão com o passado me rege.
E então, com a cabeça no passado, penso mais um pouco: como era fácil trabalhar com foco absoluto em Neot Semadar. Porque lá eu conseguia e aqui não? É como a prática de yoga. Preciso de um professor pra me ensinar, mas a verdadeira prática é a pessoal. Hora da prática pessoal.

Lição da paciência. Varrer, varrer, varrer pensando no meu dia de folga vai de encontro a tudo o que aprendi no kibbutz. Terei dois dias de folga em uma semana. E depois de acabar meu período como voluntária aqui, tenho quase 7 semanas viajando por Bali antes de encontrar meu pais na Tailândia (yey!!!!). Porque já estou com a cabeça lá? Você vai viajar, vai conhecer. Tudo tem seu tempo. Aproveite o ato de varrer. Aproveite o presente. Ele é tudo que você tem.

Quando os dois pavilhões já estavam brilhando de tão limpos, chegou a hora de limpar o jardim. As ervas – daninha estão quase dominando toda a horta. Não preciso nem dizer que o conflito mental continuou. Até que fui presenteada, no fim da tarde, com uma conversa com Ketut, nosso jardineiro responsável, que estava trabalhando debaixo do sol por 9 horas: Estou cansado, mas feliz. A vida é muito boa com a gente. Importante trabalhar feliz. Senão fica velho da cabeça. Obrigada, Ketut!

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3 respostas para Varre-varre, pensa-pensa

  1. Isabel Portugal disse:

    Oi Carol,
    Depois da foto do Ketut não pense em desistir do curso de fotografia… Adorei o que você escreveu e foi muito bom finalizar com a fotografia dele. A primeira do trabalho seguida do rosto realizado…
    Bom gostaria de te dar os parabéns, pois li seus últimos textos e adorei, são fortes e claros, me deixam próxima do que você está vivendo e de uma maneira impressionante a vontade que o leitor tem é de divulgar para todos aqueles que possam de uma maneira ou outra crescer com suas palavras que tem muito a acrescentar!!! Pense em publicar!!

  2. Marina disse:

    Olá! Sou Marina, a prima do Be Landeira. A que está tratando um câncer de mama. Uma vez você escreveu me agradecendo por mostrar como a vida é linda! E ela é! Mas nesse seu texto, você me ensinou muito mais… A vida é muito boa com a gente! Mas paciência é algo que ainda tenho que aprender a ter! Obrigada por me mostrar o caminho! Muitos beijos!

    • denise disse:

      Marina, trocar é realmente maravilhoso né. Eu leio o teu blog, me emociono, você lê o da Carol, se conecta. Muito bom! Não tem distância, não tem tempo, estamos todas juntas!
      beijos e GOOD BLESS YOU.

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