Ubud, capital Nova Era.

Na quarta, depois do trabalho, fui pra Ubud. Com a desculpa de comprar meu mat (tapetinho de yoga), um celular, pão integral e queijo. Mas, não tão lá no fundo, queira mesmo ter certeza de que meus próximos dois meses e 5 dias (contagem regressiva para abraçar meus pais) seriam em um lugar realmente encantador. Não que Jiwa Damai não seja mágico, mas eu estava com uma sensação de aprisionamento. Precisava checar. A tal da ansiedade, que ás vezes é tanta que se transforma em ansiosidade.

Ubud. Cidade nas montanhas, conhecida por ser a Jerusalém das compras em Bali. Pra mim, passou a ser também a Jerusalém da Nova Era.

Primeira parada: Bali Buddha, um restaurante de comida orgânica com direito a mercado de produtos também orgânicos no andar de baixo. Cheguei faminta. De entrada, não resisti. Pedi… hummus. Nunca achei que diria isso depois da overdose que tive em Israel, mas eu estava sentindo falta dele. E continuei sentindo falta. Aquilo não era hummus. Era pasta de grão de bico. Mas estava gostosa. Depois, de prato principal, tofu, brócolis, broto de feijão e castanhas de caju ao curry. Com arroz, logicamente. Delícia! Desci pro mercado enquanto abria espaço pra sobremesa: “incredibly dense chocolate mud cake”. Chorei de emoção. Depois de quase uma semana a uma dieta baseada em arroz… Pão orgânico de abóbora. Pão orgânico de banana, pão orgânico de cereais, de tudo o que você pode imaginar. Bolos que encheram meu queijo d’água. Legumes mil. Tâmaras. Castanhas. Damascos. Frutas. Frutas secas. Cottage. Quejo feta. Chips. Sabonetes eco-friendly. Insensos. Enchi a mochila, coloquei um bolo de cenoura dentro dela e parti pro próximo pit stop: Wayan, do outro lado da rua.

Quem leu “Comer, Rezar e Amar” (sim, eu li assim que foi lançado e, critiquem-me à vontade, intelectuais de plantão: AMEI) deve estar pensando: Wayan… Ubud… ladrilhos azuis? SIM! Fui até a “curandeira” que ajudou Elizabeth Gilbert a curar um machucado na perna e muitos machucados na alma. Chegando lá, uma garagem mambembe, com um mezanino mais mambembe ainda. Quem me recebe em meio à confusão de vidros com ervas, oferendas, livros, papeis, frutas e plantas é uma senhora balinesa frágil que me aponta Wayan no andar de cima. Quero falar com ela sobre sei-lá-o-quê. E vou até lá com a desculpa que minha menstruação, com tanto jet lag, mudança na alimentação e nos horários, está alguns dias atrasada. Mas na verdade, quero mesmo é falar com ela sobre qualquer coisa. Ou melhor, quero que ela fale comigo. “Can I come up?”, pergunto como quem pergunta a uma entidade. Ela só balança a cabeça.

Subo as escadas lentamente, observando o quadro branco com horários, nomes e nacionalidades à minha direita, sem lógica clara ou cronologia. A minha esquerda, debaixo da escada, uma foto da autora do livro que transformou a vida de Wayan. Quando chego ao último degrau, uma mulher robusta, com longos e lindos cabelos negros presos com hibiscos e pele viçosa trata a pele acnéica de um ocidental, deitado de cueca numa maca. Não me sinto confortável de falar sobre meu período menstrual com um estranho semi-nu (apesar de estar absolutamente à vontade de dividir isso com vocês, que são possivelmente estranhos semi-nus em suas casas) e digo que esperarei no andar debaixo até que ela termine.

Desço e aproveito para observar tudo ao meu redor. Incontáveis vidros espalhados pelas mesas sem critério. Prateleiras com temperos e livros, uma cozinha nos fundos, um cachorro debaixo da mesa. Meus olhos passeiam pelos quatro cantos do lugar caoticamente mais tranqüilo que já estive. Wayan vem descendo com seu paciente. Não fala comigo e vai explicando a ele os próximos procedimentos: Essa folha, chá hoje antes de dormir. Esse óleo passa amanhã nas feridas do rosto. Essa folha mastiga 4 vezes por dias pelos próximos 5 dias. O mais importante é rezar ou meditar antes de dormir. Sem isso, pele boa agora, mas ruim depois.
Enfia tudo numa sacola, coloca um incenso aceso e uma oferenda em cima, reza concentrada, pega a oferenda, joga numa das mesas. Limpa o ferimento do rosto dele com um algodão, que logo em seguida joga no chão. Despede-se.

Vira-se para mim e me pergunta como pode me ajudar. Falo brevemente pra ela e ela me pergunta: Sex with boyfriend? No, Wayan. Ela não arreda o pé: I want pregnancy test from farmacy. Tenho medicina, mas as meninas vêm aqui por que não querem bebê, eu dou medicina e os espíritos ficam bravos comigo. Agora, só com teste de farmácia. Show me your hands.

Ela olha por segundos e começa a descrever meu estado corporal. Funcionamento de intestino, sono, alimentação, costumes. Mas isso eu não vou dividir com vocês. Como uma boa mulher de negócios, ela diz que se eu quiser saber mais, preciso marcar uma consulta. E eu, na lata, marco. Coloco meu nome no tal quadro sem lógica, com data e horário. Conto o resto da história pra vocês na semana que vem…
Falo pra ela do livro, conto que li e chorei muito, pergunto se sua vida melhorou e ela abre um sorriso. Conta sobre como tudo mudou, agora ela está na universidade de healing, enquanto antes não tinha dinheiro nem pra comer. Conversamos um pouco, eu me despeço e ela diz “Thank you for taking care of Wayan.”
Animada para minha consulta na 2a, paro numa livraria. Meu livro atual está acabando e é hora de um novo. Não acho nenhum que me interesse loucamente, mas dou de cara com isso:

É, estou no lugar certo. Entre balineses e ocidentais, entre turistas gastando dinheiro em lojas, outros a procura de uma experiência gastronômica e alguns em busca de um significado pra suas vidas, Udub é encantador. E eu caminho pelas calçadas estreitas, com cuidado para não ser atropelada por uma das inúmeras scooters loucas na mão inglesa.

No bate perna entre livrarias, lojas e mais lojas com roupas incrivelmente lindas e baratas, compro um sling branco de bolinhas pretas para minha sobrinha que está por vir e vou a caminho do Yoga Barn. Antes de chegar lá, paro em algumas (muitas) lojas. É impressionante a quantidade de roupas, acessórios e mobiliário charmoso, único, mágico que essa cidade oferece. Compro meu mat de yoga e um short para praticar, porque o meu já está todo remendado. Minha última parada antes de chegar ao estúdio de yoga é uma loja chamada Namaste. Na entrada, sapatos no chão. Tiro minha sandálias e entro num espaço que me faz chorar mais uma vez. Cristais, pêndulos, pedras, velas, incensos, livros e mais livros. Sobre a mudança energética na evolução da Terra, sobre crianças cristais, sobre yoga, meditação, outras dimensões, healing, a importância de um coração aberto… Escolho o meu: “2012, the year of the Mayan Prophecy”, de Daniel Pinchbeck, um estudo desde as profecias maias, passando pela crise ecológica atual culminando no final de um paradigma de existência e o retorno de outro.

Feliz com minha nova aquisição, vou caminhando debaixo de um sol escaldante até o tal estúdio. Pergunto aqui, confirmo ali e chego ao paraíso. Fontes, grama, limo na medida certa cobrindo o chão de pedras e duas salas para prática de com chão de tábua corrida, todas envidraçadas, com vista para um campo de arroz tão verde que parece que minha visão sofreu uma saturação de cores. Na grade de horários, Hatha Yoga, Vinyasa Flow, múltiplos tipos de dança, expressão corporal e yoga e, por fim, Flying Yoga, baseado na AcroYoga. I´m in heaven. Assisto por alguns minutos a aula em curso. Pessoas de todas as nacionalidades seguem os comandos em inglês. Preciso passar uma semana, no mínimo, aqui. Eu sorrio. Sim. É definitivo. Bali é realmente encantador.

Agora posso voltar tranqüila para o varre-varre, erva-daninha, varre-varre, erva daninha. E aproveitar cada momento com a certeza de que tenho muito a viver nesse lugar mágico.

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5 respostas para Ubud, capital Nova Era.

  1. Priscila disse:

    Carol! Não acredito que você conheceu a Wayan! Que sonho! Quero mt saber cenas dos próximos capítulos! Te desejo toda a sorte do mundo e tô amando as experiências mágicas que você está vivendo. (Ah! By the way, eu também amei o livro).

  2. denise disse:

    Loli,
    esse filmelivroseriadonovelacolunablog está demais. Você é uma danada (daonde veio esta palavra???) ! beijos

  3. Hania Evelin Reznik disse:

    Carol tenho acompanhado com muito interesse a tua jornada e sempre comento com tua avó Adélia, de quem sou amiga, como você consegue nos transportar e nos fazer cúmplices dessa tua jornada. Hoje não resisti e resolvi deixar um comentário ao saber que você está em Ubud pois li o livro da Elizabeth Gilbert e inclusive falei a respeito com tua avó de quanta similitude eu via no que você escreve e no que ela relatou em seu livro Comer,rezar, amar. Vou continuar te acompanhando e deixar me levar nessa tua esplendida travessia do mar se abrindo. Parabéns! Obrigada por compartilhar a riqueza dessa tua experiência de vida!
    Beijos,
    Hania Reznik

    • marilia disse:

      Carol, eu adoro o seu blog, toda semana entro para ´viajar´ com você, e já repassei para vários amigos.
      Só que você escreveu errado a palavra que codifica a energia feminina em chinês… é YIN e a energia masculina é YANG.

      • carolbergier disse:

        Muito obrigada, Marilia!!!! Deve ser um ato falho refletindo a busca pelo equilíbrio: YIN + YANG = YING, certo? rs

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