Meu pé esquerdo

Ontem, logo depois de ter escrito o último post, precisei ir a Ubud, a cidade mais próxima dessa vila remota onde estou trabalhando como voluntária nas últimas duas semanas. Fui, a princípio, pra resolver burocracias sobre correspondência, dinheiro e outras chatices mais. Fedida e grudenta depois de 3 horas debaixo de sol, com roupa de jardinagem, dedos sujos de terra e cabelo desgrenhado. A idéia era ir num pé e voltar no outro. Mas esse outro pé me escondia umas surpresas e não quis voltar tão rápido, resolveu levar o primeiro pé pra tomar um café.

O primeiro pé, as pernas, quadris, barriga, peito, braços, pescoço e cabeça e coração agradecem a esse teimoso segundo pé. Graças a sua vontade, lindos milagres surgiram no caminho. Depois das obrigações cumpridas, passei por um restaurante orgânico e charmosíssimo (lógico, é Ubud…), com pinta de Nova York na Ásia. Merecia uma visita.

Com a cabeça presa no drama “agora que decidi encurtar meu período como voluntária no Jiwa Damai, o que fazer, pra onde ir”, tiro os sapatos antes de entrar no café e os coloco ao lado de sandálias de dedo de todas as cores e formatos. Ao sentar, reconheço um rosto na mesa ao lado. Cabelos longos e loiros, “Daonde eu te conheço? Fizemos aula de yoga juntas?”, pergunto. “Yoga Barn?”, responde. Cinco horas depois, eu e Joyia ainda estamos lá, sentadas como amigas de infância que não se vêem há anos e têm um longo e significativo papo pra colocar em dia.

Cobrimos todos os possíveis assuntos do meu (nosso) interesse, eu começando uma frase e ela terminando. Ela pensando em algo pra dizer e eu adivinhando. Joyia me abriu sua vida com uma fluidez linda de viver. Contou-me sobre sua jornada pela Oceania e Ásia no último ano e em como Ubud fez seu corpo, sua mente, seu espírito e sua visão de mundo desabrochar. Seu “eu” mais interno sabia intuitivamente que essa cidade mudaria sua vida. E assim foi.

Choramos e rimos juntas, trocamos confidências adormecidas há anos, com uma compreensão racionalmente incompreensível. Família, amores, pudores, profissão, dúvidas, encontros, respostas, sexo, yoga, tantra, alimentação, gurus, solidão, lições de vida. Lições de vida. Abordamos a história de uma amiga dela, minha xará, que faria aniversário ontem.

Faria. Karolina era uma advogada infeliz com a profissão e com a vida que levava. Até que, aos 27 anos, descobriu um câncer terminal. Tinha mais um ano e meio pela frente. E deciciu vivê-lo intensamente, sem, contudo, levar em consideração que eram os últimos meses da sua vida. Aprendeu a existir.

Um mês antes de partir, se casou com um professor de yoga que havia conhecido 8 meses antes, já sob tratamento. De vestido de noiva, peruca e sorriso gigante, celebrou sua vida numa festa linda da qual se ausentava a cada hora para receber morfina intravenosa. Casou-se por que era seu sonho. Mesmo sabendo que seu “felizes pra sempre” seria curto. Seu marido casou-se por que era o sonho da mulher que amava. Mesmo sabendo que se tornaria viúvo cedo, muito cedo.

Tive dificuldade em entender porque resolveram se casar. Porque se casamento é pra ser duradouro, porque unir-se dessa maneira? A resposta veio tão rapidamente quanto a pergunta: porque não?

Eu e Joyia ficamos refletindo sobre como pensamos tão adiante que esquecemos de aproveitar o que temos agora. Em como empurramos com a barriga decisões pequenas e grandes por medo das conseqüências, da tristeza e da mudança. Em como temos sorte (se acredito em sorte? Tema pra um outro post…) de poder estar aqui experienciando tudo isso com saúde física, mental e espiritual. Em como transformamos mínimos problemas em dramas shakespearianos e esquecemos-nos de agradecer pela grandeza do que temos.

Estou em Bali, o lugar com o qual sonhei por um ano. Tenho o direito de não estar feliz por insignificantes picuinhas? Sim, tenho. Mas é uma escolha minha. Não estar feliz é uma decisão que fazemos. Não perceber as bênçãos diárias que recebemos é outra escolha.

Karolina percebeu e recebeu o anjo que apareceu em sua vida, que iria ajudá-la a passar pelo processo de dizer adeus (ou até logo). Fez uma linda festa de despedida e de casamento ao mesmo tempo. Com alegria e gratidão por ter recebido um presente em seus últimos meses.

Carolina recebeu uma Jóia de presente no dia do aniversário da Karolina. Carolina e sua nova Jóia homenageiam Karolina, as três sentadas numa mesa de um lindo restaurante na Ásia, vendo as fotos da infância, adolescência e casamento da aniversariante, falando sobre tudo o que ela ensinou. Aos que a conheceram ou não.

A conversa me fez reviver a sensação de gratidão e, imediatamente, as dúvidas a respeito do que fazer em seguida desapareceram. Cadê o remorso por querer voltar pra Ubud e não conhecer novos lugares? Remorso? Que remorso? A resposta estava constantemente dentro do meu coração, mas minha mente colocava barreiras e racionalidades e eu não enxergava o que era claro: seu lugar agora é Ubud.

De uma conversa a duas, partimos pra um papo animado a seis, pra uma carona numa scooter a três, pra uma festa a dezenas em um bar intrincado numa floresta tropical. Pessoas e respostas iluminadas não paravam de chegar. Todos estrangeiros, morando em Ubud por 2 meses, 2 anos, 2 vidas. Todos, de uma maneira ou de outra, no seu próprio caminho espiritual em busca da sua verdade pessoal. Trocando sorrisos, enxergando a si e aos outros. A medida em que eu era tocada através de conversas, palavras, olhares, danças com fogo e sorrisos, as dúvidas sobre onde ficar, quanto pagar, aonde ir, quem conhecer ou o que fazer se dissolviam. A ansiedade foi embora no abençoado momento em que percebi que estou (estamos) – sempre – no lugar certo, na hora certa.

Tenho mais dois dias varrendo e tirando ervas daninhas antes de ir pra uma cidade aonde a magia, os encontros e as respostas vêm num fluxo ininterrupto e sem esforço.

Tudo graças a um pé teimoso.

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5 respostas para Meu pé esquerdo

  1. Ariela Iskin disse:

    Carol, espero que voce tenha a forca e iluminacao que estas encontrando para continuar neste caminho de constante procura e aches o equilibrio que aparece em todos os teus relatos.
    lindo todo o que escreves!

  2. Ricardo Kiperman disse:

    Carol,
    almoçamos nesse maravilhoso restaurante tem tres semanas…lugar de encontros mesmo: tivemos otimos papos com um outro casal enquanto as criancas perambulavam entre mesas e peixinhos.
    Tem um canto pra vc a 3.5hs dai, se você precisar….chata vai ser a burocracia pro visto, mas nada inviável.
    bj dos primos australianos, Rico & Cia

  3. Bianca disse:

    Impossível não lembrar do Inca, das mil histórias que acompanhei. E o maior de todos os aprendizados: entender que precisamos aceitar a morte como parte integrante da vida. O grande limite que nos ensina que a vida deve ser abraçada e muito bem vivida, cercada de amor. Aqui e agora.
    Bêjo!

  4. Paula disse:

    Ufa, bendito pé!

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