Descascando cebolas

Os pilotis são a 10 minutos de Ubud, incrustados numa floresta tropical, com móveis de madeira trabalhados com delicadeza, almofadas espalhadas pelo chão de azulejos foscos, vermelhos e envelhecidos, com balanços pendurados no teto, pendendo de um pé direito de uns 4 metros de altura, uma cozinha aberta para o rio que corre lá embaixo do penhasco. Pessoas sentadas no chão, conversando animadamente sobre um assunto que ainda não sei qual é. É aqui que chego, me coçando das inúmeras picadas de mosquitos no meu bumbum, para uma aula de yoga exclusiva para mulheres.

Das oito pessoas que estão ali, só conheço uma, o dono do restaurante de alimentação viva na esquina da minha casa-quarto, que á propósito fica no centro de Ubud, no único lugar onde tudo o que se escuta é o barulho do riacho e dos grilos lá fora. Sim, tenho um córrego correndo embaixo da minha janela, com algumas sacolas plásticas e lixo espalhados pelas margens, porque a consciência ecológica do balinês é comparável ao atraso do suíço. Mas é um riozinho que canta pra eu dormir num dos únicos quartos de Bali onde a luz natural corre livremente entre a cama, a mesa de trabalho, a penteadeira e o sofá de leitura. Depois de muito bater perna, encontrei um lugar pra chamar de meu no próximo mês.

Mas, voltando aos pilotis nos quais eu só conhecia Johnny, o cara que me apresentou à Tamara, terapeuta do som que, com sua voz de fada, me fez chorar cântaros de libertação ontem numa sessão que até agora está ecoando na minha vibração. Voltando aos pilotis… Entro nesse espaço e sou recebida com uma interrupção das conversas paralelas e sorrisos.

Uma delas se apresenta e, sem muita cerimônia, continua contando sobre uma experiência que teve mais cedo. “Onde eu estava? … Sim, aí ela me disse que venho de uma linhagem que está quase extinta, que sou uma das últimas remanescentes e que vim com a missão de espalhar a mensagem de luz. Falou também sobre minha avó e sobre o problema que ela tinha nos olhos – e olha que eu nem tinha comentado nada! – e ainda me falou coisas sobre a relação entre meus pais que me afetam na minha vida sexual. A mulher acertou tudo! Passei os primeiros quinze minutos da sessão tremendo, em estado de choque com a precisão com a qual ela discorria sobre minha vida, ou melhor… minhas vidas.” Até que, finalmente, ela se vira pra mim e me explica: “Hoje fui numa ‘mulher de visão’ chamada White Star, que mulher incrível… pêndulos, tarô, cristais, penas, tambores, you name it!”.

Joiya chega nesse ínterim, junto com algumas outras pessoas que eu conheci nos últimos dias. Só mulheres. Os homens presentes começam a sair de fininho. Cada uma que chega é recebida com um abraço demorado e amoroso pelas outras e, quando todas estão presentes, somos um grupo de 10 mulheres, entre vinte e poucos e trinta e muitos. Papo sobre videntes vai, papo sobre sincronicidades vem, é hora da aula. Descemos a escada, passando por dois estúdios de música com enormes janelas de vidro de frente pra floresta. A 3ª sala é nossa. Estamos ali para uma aula de yoga que tem como propósito nos conectar com a “sagrada energia feminina que é constringida pela sociedade moderna”.

Na sala, em meio a mats, almofadas e velas, está Caroline (minhas xarás estão me perseguindo…) uma mulher alta, morena, com franjas curtinhas, olhos verdes e sobrancelhas arqueadas. Todas as vezes que a vi pela cidade, fiquei embasbacada com sua beleza não bela, mas que emana algum tipo de sensualidade pura. É a professora de hoje.

Estabeleço meu espaço, sento em almofadas em postura de meditação e, seguindo as instruções dela, observo minhas emoções. São tantas… Julgamento: essas mulheres são todas loucas. Vivem em La-la-land, num mundo da fantasia onde tudo o que importa são as energias. Ansiedade: o que será que vai acontecer nessa aula? O que vai acontecer com meu corpo? Será que estou preparada pra isso? Medo: isso é demais pra mim, não quero entrar nesse mundo furta-cor, eu não pertenço aqui. O que vai acontecer com a antiga Carol depois dessa temporada em Ubud? Meu sistema de crenças já não é mais o mesmo de dois anos atrás, mas depois dessa experiência intensa que está me está sendo apresentada nessa cidade, talvez eu não me reconheça mais. Se deixei pra trás tanta coisa desde que relembrei alguns componentes sobre o funcionamento do Universo, quanto mais vou ter que me desapegar à medida que essas memórias vierem mais e mais a tona? Até onde posso ir? Quero ir embora. Quero que esses meses passem rápido pra eu reencontrar meus pais e a velha Carol.
“Não se relacione com as emoções que vierem, só observe-as e deixe-as ir embora de sua tela mental. Perceba sua respiração, toda emoção que surgir é normal, portanto não a julgue”.

O medo vai embora assim que me deito de barriga pra cima e sou instruída a inspirar com a boca aberta e expirar liberando qualquer som que queira surgir, me relacionando única e exclusivamente com meu corpo. Não com minha mente, não com o som da “irmã ao lado”. “Essa é uma experiência do seu corpo. Aproveite.”

Difícil não prestar atenção na cacofonia que vai tomando conta da sala. Depois de alguns minutos, gritos, gargalhadas, gemidos, berros, sons orgásticos. A partir daí, era eu comigo mesma. Se parasse pra perceber o que estava acontecendo a minha volta, a tríade julgamento-ansiedade-medo abriria a porta com um pontapé.

Depois de uma hora e meia trabalhando com a respiração, focando em pontos diferentes do corpo, em posturas e estímulos distintos, eu estava absolutamente imersa no meu corpo, liberando, através das minhas cordas vocais, emoções escondidas há anos . Um trabalho intenso, que me deixou exausta, apesar de muito pouco demandar do corpo físico.

No círculo que fecha o processo, algumas mulheres dividiram suas experiências. Uma delas falou sobre o medo que tem de voltar pra Londres depois de alguns meses em Ubud. Sobre como está eufórica para retornar e perceber como serão suas reações às situações com as quais ela estava acostumada. Sobre como está com medo de perceber que ela não é mais a mesma. Sobre como saiu de lá menina e está voltando mulher. Sobre os amigos que não mais a reconhecerão, sobre as novas buscas que fará para não perder todo o trabalho feito em Bali.

Chorando ela e eu, percebi que o medo dela é meu medo. Tenho aqui, agora, a oportunidade de viver e aprender tudo o que desejei nos últimos anos. Está aqui, na minha frente, a minha disposição. E eu estou com receios. Receios de deixar pra trás as camadas que determinavam quem eu acreditava que era e chegar mais perto do meu núcleo, minha essência. Sim, o processo pode ser doloroso, mas todo banquete que se preze começa com cebolas descascadas e lágrimas.

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4 respostas para Descascando cebolas

  1. Adelia Bergier disse:

    Querida Carol: Muito lindo, vamos curtir este banquete…………..beijos …………………………………vôvo Adelia

  2. Isabel Portugal disse:

    Carol,
    Eu reconheço as pessoas pela sua profundidade de ser, sua expressão em se comunicar e a “criatividade” de viver os fatos simples mais significativos da vida. Sua subjetividade é encantadora! Eu me identifiquei com prazer, com seu relato. Gostei Muito!!!! ” Só não se esqueça de trancar a porta!!” ( Léa – Mãe de Isabel ) beijos

  3. Pingback: Bebês não comem porco | Quando o mar se abre…

  4. Paula disse:

    Faz parte da zona de conforto mantermos hábitos, bons ou ruins, e sair desta zona de conforto é difícil, mas significa estar mais próxima da essência, do que importa. Eu penso no mesmo: se eu viajar para outro país, com o intuito de me aprimorar, de me conhecer. Se eu alcançar este objetivo, será que quando retornar serei capaz de manter tal evolução numa cidade caótica como São Paulo? O quão profunda uma mudança pode ser? Só há uma maneira de descobrir. E acho que, no seu caso, não adianta muito pensar em algo ainda um pouco distante do seu presente. Tem como saber EXATAMENTE agora? Se tiver, então vale a pena pensar. Do contrário…

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