Bebês não comem porco

O círculo social de estrangeiros que vivem em Ubud é forte. Pessoas ao redor do mundo vêm se descobrir e se reunir nessa cidade que se tornou referência em estudos “new-age” (por falta de termo que melhor explicite o interesse em meditação, healing, yoga, alimentação saudável e por aí vai, passarei a usar essa terminologia. Apesar de achar que nem todos aqui estão nessa busca específica, e sim na busca de si mesmos, usar um termo já difundido e conhecido por todos facilita o entendimento).

Alguns surfistas aproveitam o mar flat e vêm fazer compras. Os casais, cansados de tantos drinks com os pés na areia, vêm jantar num restaurante romântico depois de uma massagem a quatro mãos. Turistas tradicionais chegam aqui procurando a tradicional arte balinesa e os mercados cheios de bugigangas locais. Todos esses vêm e vão depois de dois, no máximo três dias. Quem não está procurando algo dentro de si não se sente em casa. Ubud, que significa medicina em balinês, é pra quem quer descascar a cebola. Alguns desavisados do poder curativo dessa cidade chegam para compras, restaurantes ou arte e não conseguem sair porque sentem o chamado para descascar-se. Outros vêm pra Bali e nem botam os pés na areia, passando temporadas ou anos aproveitando a energia dessa cidade enquanto descobrem-se. Por isso, a maior parte dos estrangeiros que moram aqui chega sozinho. E assim forma-se uma intensa rede em constante movimento.

Movimento não só resultante da permanente circulação de pessoas, mas da eterna mudança interna que sofrem os que aqui vivem, dois meses ou duas décadas. Contudo, os assuntos giram sempre em torno das mesmas – muitas – coisas, variando em suas perspectivas. E, nessa uma semana de moradora de Ubud, por mais que muito estimulada, me vi cansada de falar sobre os pilares de uma vida saudável, técnicas de meditação, o incrível funcionamento do cérebro humano ou como a postura do pombo libera raiva acumulada nos últimos anos.

Era como se eu precisasse saber que ainda posso falar merda, com o perdão da palavra. E, pra continuar usando os jargões da cidade, numa sincronicidade linda, os artistas da pequena e charmosa galeria de arte da esquina me chamaram pra um bate-papo. Eu estava a caminho da minha aula de ecstatic dance, animada pra dançar livremente e sem regras. Mas a possibilidade de conversar com um dos únicos pintores da cidade que não fazem arte tradicional – e monótona – balinesa me animou. Quando soube que sua parceira de estúdio era uma brasileira, não pensei duas vezes. Minha calça legging estava entre tintas, quadros e bolsas pintadas à mão. Inglês, português, inspirações, criatividade, gargalhadas, um convite para a vernissage de uma exposição do outro lado da cidade. Dá pra esperar eu tomar uma chuveirada? Estou fedida da aula de yoga da manhã. Dá? Simbora!

Lá estou eu, na garupa da scooter de um javanês cujos dread-locks cultivados há 12 anos batem na sua cintura, ou nas minhas coxas, nesse momento. Esperava que o vento da moto levasse o cheiro do cabelo dele pra longe, mas não. Coxas coçando, nariz incomodado. Preciso alugar minha própria scooter. Não dá pra pegar carona com um cara que dirige e fuma ao mesmo tempo.

Cheguei lá enjoada e cansada, apesar do trajeto eterno não ter levado mais de 10 minutos. Na exposição, cerveja, cigarros, drogas e gargalhadas forçadas. Por mais que conversasse com todos os interessantes artistas expondo, eu estava incrivelmente entediada. Conversas vazias, responder sem ouvir a pergunta, perguntar sem ouvir a resposta. Felizmente, todos ficaram com fome e fomos embora rapidamente. Na volta, mais coxas e nariz. Recusei o convite pra jantar e fui saciar minha não muita fome no restaurante de alimentação viva da esquina.

Sentei, quase deitei nas almofadas. Exausta, enjoada, tonta. O que está acontecendo comigo? Porque meu corpo está assim? Porque se sentiu tão violentado? Será que estou virando uma daquelas xiitas insuportáveis que não tolera se relacionar com ninguém fora do também insuportavelmente denominado “círculo de luz”? Porque estou julgando a todos – os que têm como prioridade sua saúde e os que não têm?

De fato, meu corpo repeliu aquela situação. E eu estava tentando repelir a repulsão. Até agora, quando decidi, depois de meditar, simplesmente observar minhas reações.

E, no vai e vem do foco meditativo, entre respirações, câimbras nas pernas, atenção na temperatura do ar que entra, pensei se deveria escrever sobre isso. Até que resolvi não pensar tanto. E percebi que meu medo de explicitar essa situação era, na verdade, medo de ser julgada por vocês. E então resolvi me desnudar. Porque se vocês decidirem me julgar, esse é um direito de vocês. Assim como foi meu direito julgar artistas e yogis. E deu no que deu. Enjôo.

Muitos de vocês não me conhecem e não sabem se eu sento num bar e bebo uma cerveja, se meus amigos fumam, se vou pra noitada dançar até o sol nascer. Sim. Eu faço tudo isso. E no dia seguinte, bebo um suco vivo, pratico minha yoga e faço uma sauninha. No Rio. Em Ubud, por algum motivo, preciso nesse momento de um detox total. Achava que era só uma purificação baseada na alimentação, sono, exercícios e meditação. Aparentemente não. Ainda estou sensível a energias alheias. Ainda estou aprendendo a filtrar o que receber e o que não receber.
Para achar esse caminho do meio, preciso nesse momento ir a um extremo. Pai e mãe, não se preocupem que eu não vou me alimentar de luz solar. Posso passar uma semana à base de sucos e sopas verdes e na semana seguinte, somente alimentos laranjas. Mas um dos meus grandes exercícios aqui é não me deixar levar pela vida absolutamente etérea. E, talvez, por isso, tenha sentido a necessidade de hang out com uma galera que, agora, não é a minha galera. Um novo amigo me contou ontem que depois de dias de meditação intensa, sentiu a súbita necessidade de comer costeletas de porco. Precisava aterrar novamente. E assim o fez.

Acho que se eu comer o famoso porco balinês agora, passo dias tentando digeri-lo. Ainda estou engatinhando. Bebês têm muitas restrições alimentares. Quem sabe quando eu aprender a andar.

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2 respostas para Bebês não comem porco

  1. denise disse:

    minha bebê querida, minha caçulinha,
    incrível ser VOCÊ, (aquela das bochechas que doem quando anda de cavalo)
    a desvendar questões que eu nem imaginava existirem,
    viver diferentes vidas,
    e me fazer experimentar dores de crescimento (envelhecimento NÃO -rsrs).

  2. Paula disse:

    Acho importante não ser uma “xiita”, como você definiu. Manter a mente aberta para as pessoas, ser flexível, mas é importante também conhecer os próprios limites, né? Aí é na base de tentativa e erro. E insistência no que a nossa intuição nos diz ser importante. Saber dosar, dizer o que precisa ser dito com elegância, levar as situações com bom-humor. Acho que é por aí. Acho. Porque também “estou em processo” (na realidade, talvez o “processo” seja constante na nossa vida… já que eu “prefiro ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo).

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