Um Rosh Hashaná com excesso de yin: indecisão, insegurança, verborragia e amor

Enquanto tomo café da manhã na sacada do quarto da Karen, ela arruma a mochila pra day-trip que começará assim que Lara chegar no nosso hotel. O motorista já nos espera lá fora pra nos levar a Lovina, uma praia a duas horas de Ubud, onde um amigo da Lara tem uma fazenda com cavalos.

Na minha mochila, uma muda de roupa, uma calça pra andar a cavalo, biquíni e nécessaire, apesar de ainda não saber se vamos dormir na fazenda ou voltar pra Ubud ainda hoje. Na mochila da Karen… bom, na mochila da Karen, por enquanto, pontos de interrogação. Muitos deles: Dormimos lá ou voltamos ainda hoje? Arrumo minha mala e deixo no seu quarto ou não faço check out hoje pago o quarto de hotel mesmo se não dormirmos aqui? Volto pra Los Angeles nessa semana ou na próxima? Pego meu gato na casa dos meus pais ou deixo ele lá até ter um apartamento só meu? Eu fico tonta. São perguntas que estão no ar há alguns dias e minha vontade é tomar decisões por ela. Mas me seguro.

Ela faz uma mochila e deixa o resto de suas coisas no quarto bagunçado. Enquanto Lara não chega, vamos negociando preço com Agung. Mas é difícil barganhar quando não sabemos o que queremos fazer. Praia? Praia e cachoeira? Praia, cachoeira e fazenda voltando hoje? Praia, cachoeira e fazenda voltando amanhã de manhã? Se eu estou tonta com tanta indecisão, o motorista está vesgo. A situação piora quando Lara chega. Mais uma dando pitaco. A decisão? Podemos decidir mais tarde?

No caminho,entre um pit stop num templo e a praia, três mulheres numa masturbação mental de questões psicológicas. Procuramos onde a problemática de cada uma começa. Analisamos questões familiares. Giramos em torno dos mesmos assuntos tentando chegar a uma conclusão, mas estamos tão cerebrais que só aumentamos os problemas. Eu me calo no banco do carona. Estou exausta de tanto ponderar. Elas continuam, no banco de trás, uma tentativa de terapia em dupla que, a meu ver, mais parece uma tortura, tamanha ansiedade e indecisão envolvidas.

Ao mesmo tempo em que prefiro me calar, quero ser aceita, quero contribuir de alguma maneira com a conversa, quero sentir que meus comentários têm valor. Tem alguma coisa nesse círculo feminino que me faz me sentir na escola de novo, numa época em que eu me sentia o patinho feio rejeitado, quando tudo o que eu queria era ser aceita. Não fui uma criança popular, bonita ou magra. Não fazia parte do grupo desejado, sempre sentei na primeira fileira da sala. Era boa aluna, mas não brilhante. Gostava demais de aprender pra ser aceita. Era daquelas que reclamava quando a turma lá detrás falava muito alto. Contudo, queria conseguir fazer parte daquele grupo.

Hoje, sou consciente o suficiente para não querer ser aceita por bullies. Em Ubud, também quero fazer parte do grupo yoga, dança, comida viva. Mas sou a mais nova e a mais recém-chegada. Não me sinto interessante o bastante, em meio a essas estonteantes mulheres de trinta e poucos anos, aparentemente bem resolvidas. Aparentemente. No carro, na análise incessante durante a ida pra Lovina, percebi que minha maneira de lidar com questões psicológicas é mais saudável. Não remôo verbalmente os assuntos até estar tão intrinsecamente imersa neles que não vejo saída, não faço da minha vida um consultório freudiano. Prefiro presenciá-la e aprender com minhas reações.

Apesar de não ter minha vida definida ou metas absolutamente estabelecidas, estou, em alguns aspectos, mais confortável comigo mesma do que elas. Talvez por ainda estar nos vinte, não tenho tanta ansiedade de ver minha vida encaminhada, aproveito o encaminhamento enquanto defino objetivos. Mas também, por estar nos vinte, sou supostamente mais insegura, sem tanta certeza de quem sou. Ali, no silêncio do banco da frente, percebi que cada qual tem sua questão e sua insegurança, independente de idade. Que somos todos meio malucos e enfrentamos dúvidas de maneiras diferentes.

Quando me coloquei nem abaixo nem acima delas, parei de tentar conquistá-las e me calei, a primeira pergunta sobre minha saga pipocou, depois de quase duas semanas de convivência. Contei da minha profissão e questões no Brasil. Fashion Marketing? Pensando em como aliar o que você ama fazer com o que você acredita? Cool. Israel, kibbutzim. Trabalho voluntário? Em uma “intentional community”? Cool. WWOOF em Bali? Cool. Blog? Cool. Entrevista no rádio? Cool. Nossa Carol, you are going for it. Wish I could be more like you.
Demoli a barreira que eu mesma construí. E, a partir de então, as relações mudaram. Eu parei de tentar e elas se aproximaram. A tortura mental continuou no banco de trás e eu não mais participei.

Chegando na praia, ainda não tínhamos decidido o que fazer no resto do dia e continuamos discutindo nossas possibilidades na frente de Agung, o motorista. Só assim saberíamos quando voltaríamos e pagaríamos. Mas ele cansou da gente e não nos deu a possibilidade de voltar com ele. “Eu deixo vocês aqui, vocês me pagam o quanto quiserem. Não gosto de trabalhar assim, sem alegria.” Eita! Era muita mulher, muito yin pra ele. Muito yin pra qualquer um, eu diria.

Ok, vamos dar um jeito. Um mergulho no mar e almoço vão curar essa indecisão. Doce ilusão.

Enquanto a comida não chegava, uma precisava respirar porque não conseguia definir quando voltaria pra casa. A outra tinha tanta coisa na cabeça que sentia um ataque de ansiedade tomando conta. Tudo isso numa –não tão – linda praia em Bali.

Faço reiki em uma, abraço outra. Não tento acalmá-las com palavras, porque ambas estão com excesso delas. Difícil pra mim, impulsiva que sou, entender tanta indecisão. Achava que eu era ansiosa. Sinto-me um poço de calma e confiança.

Depois da praia, vamos até a fazenda. Ah, a fazenda. Natureza, uma vista incrível, cavalos, balineses, Gadeg. Gadeg é o amigo de Lara. Uma pessoa linda, que nos ofereceu sua casa, seus cavalos, suas frutas, sua atenção, seu amor. E, além de tudo, sua energia masculina, seu yang. Que diferença! Acalmou as três simplesmente com sua presença. Paramos de falar. Apreciamos a vista, os sons, a existência. Calmas novamente, conseguimos tomar a simples decisão de ficar até amanhã.

Então saímos pra jantar e beber. Beber! Álcool! Depois de semanas de comida viva, suco orgânico e yoga, álcool no sangue. Nos fez bem. Relaxamos. Saímos do estado mental. Rimos. Gargalhamos. Falamos besteira. Não nos analisamos. Não nos punimos.

No dia seguinte, mais praia. Dessa vez, paradisíaca. Snorkel, cadeiras confortáveis, sol, mar, areia. Eu voltava a ser eu. Mas alguma coisa ainda faltava. Estava precisando de uma cachoeira há dias. Era para termos ido ontem, mas nos enrolamos. Hoje de manhã, acabamos indo a praia. Eram 4 da tarde e ainda estávamos estiradas na areia. Karen se levanta num pulo e diz: “Vamos embora! Que a Carol precisa de um banho de água doce.”

A cachoeira é à uma hora dali e, quando chegamos, o sol já se pôs. Mas eu estou sedenta por lavar a alma. Sempre fui de água doce e fria, mais do que de mar. No Rio, não consigo ficar mais do que duas semanas sem uma visita a Cachoeira dos Macacos. E estava há meses sem me purificar desse jeito.

Está frio e quase escuro, mas a queda d’água é um convite irrecusável. Não penso meia vez e estou imersa, rodeada por uma natureza que me engole de tão poderosa. Esvazio minha mente e recebo. Esvazio minha mente e um único pensamento que realmente importa me toma, algo que eu havia esquecido completamente: Shaná Tová! Feliz ano novo judaico! Nos últimos minutos do último dia do ano, cá estou eu num ritual que todos os anos cumpro em 31 de dezembro. Um banho de cachoeira pra lavar a alma, deixar tudo o que não mais me serve pra trás e receber o novo ciclo de alma renovada.

De mente vazia e alma limpa, as pessoas que amo vão pipocando fluidamente em minha cabeça. Meu coração abençoa cada uma delas, envio luz e amor pra esse novo período que começa com a chegada da lua e, conseqüentemente, de um novo ano no calendário judaico, que é lunar.

O vapor de cachoeira se mistura com minhas lágrimas. Choro de gratidão por estar nesse exato lugar nesse exato momento. Choro de amor. Choro de renovação. Choro agradecendo todo o processo do ano que passou e agradecendo de antemão tudo o que está por vir. Choro com certeza de que eu estou na direção certa e que tudo o que é certo está em minha direção. A segurança de que o universo conspira para que eu atinja meu máximo potencial lava qualquer resquício de ansiedade ou dúvida. E assim começo o ano de 5772.

Já de volta a Ubud, Lara me abraça agradecendo minha disponibilidade a doar e oferecer carinho. Sento ao lado de Karen no restaurante com wi-fi da esquina e seguro sua mão enquanto ela compra a passagem de volta pra casa, ajudando a ponderar os prós e contras de retornar no dia 7 ou 8. Ela olha nos meus olhos e assume que, pela primeira vez na vida, não está tendo um ataque de ansiedade ao inserir o número do cartão de crédito e tomar a decisão final de quando entrar no avião. Me expressa sua gratidão pela minha presença e ajuda num assunto que a atordoava há semanas. Quando deixei cair a máscara e fui eu mesma, sem tentar conquistar, conquistei. Mas mais do que isso, proporcionei momentos de relaxamento e paz. E isso me trouxe serenidade.

Que possamos todos entrar em contato com a luz divina que habita dentro de nós, semeando amor e atingindo um estado de absoluta paz interna. Que todos os seres que habitam o planeta Terra estejam bem nutridos de alimento para o corpo, mente e espírito. Que todos nós possamos perceber que vivemos em um momento histórico para a humanidade, onde temos a chave para sentir pulsando em nossas veias amor incondicional por todos os seres. Que todos nos permitamos irradiar luz pra si e para os outros. Que a paz interna seja alcançada por cada um de nós, possibilitando assim a paz mundial.

Shaná Tová!

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2 respostas para Um Rosh Hashaná com excesso de yin: indecisão, insegurança, verborragia e amor

  1. Hania Evelin Reznik disse:

    Shana Tova Carol! Que você continue iluminando a todos com tua clareza de pensamentos e sentimentos tão puros. Que 5772 seja um ano de paz para todos e que você possa sentir-se realizada nessa tua procura tão importante.
    Beijos.

  2. denise disse:

    amei Carol,
    SHANÁ TOVÁ, com luz e alegria!
    beijos

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