Jazzeada

Quando minha bolsa foi furtada em Jerusalém, foi-se junto minha coleção de mais de mil músicas. Eram meu conforto emocional. Uma me lembrava o passeio de bike no último reveillon, outra me fazia ir pra ponte Rio-Niterói, e ainda aquela que me levava pra noite em que eu dancei com a Gabi até o sol raiar. Um santo “saudosil”.

Consegui recriar uns 60% da coleção e preenchi os outros 40% com novas músicas fornecidas pelo irmão da Fabi. O Ilan arrasou! Funk, jazz, ska. Muita coisa boa das antigas que eu não conhecia, em sua maioria com melodias imprevisíveis. Mas, sempre que no shuffle, eu pulava as canções desconhecidas. A cada 3 músicas ouvidas, 2 puladas. Por um mês, quase não escutei o que tinha de novidade. Como se meus ouvidos precisassem de um conforto. Pelo menos um dos meus sentidos tinha a necessidade de escutar algo familiar. Com temperos, tonalidades de verde, incensos e aromas adocicados, a pele grudenta com umidade, a audição, ao menos a audição precisava de um descanso emocional.

Meus padrões de comportamento não estão me dando trégua. Estou procurando lidar com eles com leveza e amor, aceitando-os, não me identificando e transmutando-os. Mas ainda assim é exaustivo. Um deles é minha necessidade de, em momentos de desconforto, não querer ficar sozinha, fugindo da minha própria companhia. Então, nas duas últimas semanas, eu estava sempre com alguém. Falando, falando,falando. Em uma língua que não é a minha. Sobre assuntos nem um pouco triviais. No fim do dia, exaustão mental. Quando calada, queria mais é ouvir Marcelo Jeneci, Camelo, Caetano, Devendra, Kings of Convenience. Ou seja, até nos momentos de silêncio meus ouvidos estavam ocupados.

Até que, em dois dias, três padrões foram quebrados.

Tudo começou numa noite na qual meus limites sociais foram testados, me levando a um bar e a um narguilé. Tudo o que eu queria era ir pra casa descansar depois do jantar indiano, mas estavam todos reunidos, com papos deliciosos. Eu não me permiti não querer participar. Não bebi, mas me afundei na fumaça com gosto de uva. Até minha cabeça começar a girar e eu precisar chamar o Raul. Se você não conhece esse amigo, me imagine no banheiro do bar, gritando seu nome como quem grita de dor quando está com apendicite. Visualizou? É… Samosas e saag panir não tem um retrogosto muito bom…

No dia seguinte, ao invés de subir o vulcão Batur, eu fiquei de cama ardendo em febre. Era um wake-up call: fique sozinha! Apesar de com dor no corpo todo e de não ter saído do meu quarto, adorei meu dia em silêncio total, lendo e assistindo filmes.

Acordei bem, depois de 12 horas seguidas de sono. Recuperada, honrei meu latente desejo de permanecer sozinha. E assim desliguei o interruptor da Carol social. A necessidade de me provar amigável e interessante foi embora. E voltei a curtir minha própria companhia. É lindo perceber como temos camadas e camadas dos mesmos padrões. Eu achava que tinha me desapegado desse comportamento em Israel. Lá vem ele me revisitar com uma nova vestimenta. Descasquei mais uma parte da cebola.

Padrão quebrado #1: Necessidade de companhia.

Depois de dois dias na solidão sem solitude, uma amiga me convidou pra uma caminhada entre campos de arroz, no meu lugar favorito em Ubud. Eu não havia praticado yoga e a idéia me pareceu atraente. Com uma condição: posso ficar em silêncio? Não só pode como vou adorar. Tudo o que quero é andar e ouvir música, ela me respondeu. Estávamos as duas cansadas de tanto falar.

Mas eu estava exausta não só de falar, mas de falar em inglês, de ter que ter uma opinião, de tentar conquistar, de me fazer ser compreendida, de buscar ter sempre razão, de ter algo interessante pra falar, de acrescentar, de pensar. Estava exausta de tanto pensar. Necessidade de falar. Outro padrão com camadas sendo descascadas.

Padrão quebrado #2: Necessidade de falar quando acompanhada e/ou desconfortável.

Sob o som de grilos, a caminhada é lindíssima. Campos de arroz, construções típicas, trabalhadores, cachorros latindo tanto que não mais escuto os grilos. Não tenho outra opção se não colocar eu também meus fones. Mas não sei o que quero ouvir. Meu grande amigo shuffle hoje está de ótimo humor. Ou sou eu que estou naturalmente feliz e disposta a receber o que ele tem a me oferecer?

A primeira música que ele me apresenta é uma daquelas que há um mês eu venho evitando. Deixo estar. E, quando me dou conta, a imprevisibilidade do som está me fazendo caminhar de uma maneira diferente. Meus quadris se movem exageradamente ao som do baixo, meus dedos da mão direita fazem círculos no ar acompanhando o sax, o ombro esquerdo sobe e desce junto com a bateria. Em meio aos campos de arroz, ignorando os olhares dos balineses ao meu redor, eu estou dançando e andando. Andando e dançando. Andando, dançando e celebrando a imprevisibilidade. E, apesar de nunca ter ouvido essa música antes, meu corpo sabe exatamente quando é a virada da música. Eu, natureza, chão de terra, jazz e suave sorriso nos meus lábios somos lindos, fluidos e um só.

Quando o shuffle me testa com uma música conhecida… next! Não quero nada que soe familiar e calculável. Não quero que meus movimentos sejam premeditados. A onda é me deixar levar pela própria onda. E ver aonde meu corpo quer ir. Deixo de lado o controle e a idéia de que minhas memórias me definem. Meu passado não mais me condena ou conforta. Meus ouvidos estão livres para o novo e inesperado. Meu próprio corpo, totalmente no presente, é meu único conforto.

Padrão quebrado #3: Familiaridade auditiva traz identificação e segurança

O por do sol chega e ainda estamos a uns 5 quilômetros da cidade. Que seja! Aproveito cada mínima mudança da luz, acompanhando sombras se desfazendo e a escuridão tomando conta do espaço. A dança se torna ainda mais interessante quando não vejo nada a meu redor. Quando não sei exatamente onde meus pés estão pisando. Minha mente aproveita que absolutamente ninguém me enxerga e permite meu corpo meditar em movimentos livres. Salto, pulo, mexo e remexo cada músculo, osso e cartilagem. O suor entra em contato com o ar frio da noite. A lua abençoa minha permissão interna. Ar, suor e lágrimas se encontram para permitirem-se abençoar a lua e a certeza de que ainda vou revisitar cada um desses padrões.

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Uma resposta para Jazzeada

  1. Paula disse:

    Você traduziu algumas ansiedades minhas. Obrigada!😉

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