A Terra vibrou, eu vibrei

Depois de 3 dias de Green Camp, hoje é dia de trabalhar de casa. Tenho pendências burocráticas, fotos pra editar, yoga pra praticar, textos pra escrever, caixa de e-mails pessoais pra atualizar.
Depois de uma hora e meia de posturas que me alongaram e fizeram escorrer lágrimas que liberaram alguma energia presa, sentei, cheia de paz, no lindo jardim do Yoga Barn pra escrever e ver se as palavras no meu caderno de anotações dariam tanta voz pra minha mente que ela baixaria a guarda e sairia do controle absoluto. Transcrevo aqui exatamente como fluiu:

“A mente é safada. Está tentando me deixar tensa. Preocupada com o rumo que as coisas estão tomando. Eu estava numa vida pacata, num trabalho interno. Estava cansando de só yoga, conversar num café, num outro café, checar e-mails. O Writer´s Festival de Ubud me trouxe idéias e ânimo. Comecei a me mexer com textos e fotos, conheci um talentosíssimo diretor de arte que curtiu meu trabalho e me convidou pra assisti-lo na gravação de um videoclip, com direito a areia negra, cavalo branco, top model de Jakarta e muito conhecimento. Maravilhoso. Até o momento do social num bar/restaurante/lounge em Canggu. Galera da moda. Hipsters em Bali (???). Exaustivo. Mas o dia em si deu vazão a minha veia artística em meio a tanta espiritualidade e me mostrou que é um caminho que eu adoraria seguir. No dia seguinte, Green School. Marketing do Green Camp. Computador, vendas, internet, ir e vir de Ubud, horários, pressão, pressionar. Cadê a arte e a espiritualidade?

Mais fotos assim que o clip for lançado

É minha mente ou minha intuição me dando esse sinal? Se a Green School caiu no meu colo, o universo tem algo pra me mostrar. Mas não quero mais trabalhar com marketing. O que estou fazendo lá? Time will tell.
Minha mente começa a calcular se devo ficar em Ubud ou me mudar pra acomodação de voluntários perto da escola. E faz disso uma grande questão. Nada é definitivo! Mude, fique 2 semanas, vá pra Tailândia e decida depois!

Minha mente calcula se quero mesmo um contrato de 6 meses com a escola. Se quero um compromisso como esse num ano que era pra ser livre. Calma! Só 3 dias de trabalho se passaram! Você tem mais 4 semanas pra sentir e fazer sua proposta pra escola. Quem sabe propõe mais 2 meses depois da Tailândia e depois fica livre?
Relaxe e confie! A Terra é poderosa e traz respostas na hora certa. Acalme sua mente e tudo acontecerá na hora certa. Confie na sabedoria superior.”

Deixo de lado papel e caneta e, faminta, pego o garfo pra começar a comer minha salada de frutas com granola viva. O garfo está na minha mão. A colher fica na mesa, tremendo. Tremendo? Nossa! Que obra agressiva essa aqui atrás! Os vidros tremem. Que estranho. Alguma coisa está errada nas máquinas. Os ombrelones tremem. Eu tremo. Mulheres descem as escadas correndo enquanto a professora pede que fiquem calmas. Terremoto.

Pego minha bolsa, meu caderno e minha caneta, achando que eles poderiam se desintegrar e ando com cautela e segurança para um lugar descoberto onde todos estão aglomerados. Sem medo. Com confiança. Estranha confiança. Alguns têm feições de terror. Outros não fazem idéia do que está acontecendo. Outros transmitem paz.

Eu sinto meu corpo tremer enquanto vejo árvores, flores, grama, pedras, seres humanos e ar vibrarem num ritmo poderoso. Vibração. É tudo o que sinto. Descalça,fecho os olhos pra experimentar a sensação com mais potência. A Terra vibra, a natureza vibra, eu vibro. Nunca presenciei energia tão poderosa vinda da Terra. Quero gritar, quero suspirar, quero gemer, quero cantar, quero extravasar. Estou em êxtase. Mas é um terremoto. Como pode? Não me permito. Calo-me. Choro. Choro muito. De arrebatamento. É lindo.

Explodindo por dentro, escuto um canto. Ele me toma por completo e me faz sentir ainda mais. Abro os olhos e Uma, uma das professoras de yoga mais especiais que já conheci, está se contorcendo entre 30 pessoas, em sua maioria, amedrontadas. Ela canta um mantra em um tom não humano, enquanto seu peito explode em movimentos catárticos. É lindo de ver, é lindo de ouvir. Uma mulher em comunhão com o movimento da Terra.
Fecho os olhos novamente e libero-me um pouco, mas não totalmente. Ela é a professora. Quem sou eu pra me contorcer enquanto um terremoto acontece? Não acho que tenho esse direito. Timidamente, deixo minha garganta fluir e meu corpo receber essa explosão energética em seu estado mais natural. Deixo meus pés receberem a vibração primordial. Meu corpo treme, meu diafragma se contrai, meus olhos choram, minha garganta gargalha. A mente, sem espaço, treme mas não teme. O coração recebe e exala amor e pedidos para que ninguém saia ferido.

O tremor cessa em cerca de 20 segundos que parecem uma eternidade. Eu permaneço de pé, chorando e sentindo a energia remanescente. Uma continua gritando, gargalhando, cantando. Abro os olhos e sento-me à mesa com um grupo de pessoas desconhecidas, todas embasbacadas pela energia do momento. Uma nos dá uma aula:
“Quando você entra em comunhão com a natureza, ela te possui e você a possui mutuamente. Você passa a ser esse terremoto e a utilizar sua energia para transmutar o que quiser. Pode virar Shiva e destruir o que achar que deve em sua própria constituição ou na existência planetária. Pode ser Vishnu e garantir que o que precisa permanecer de pé permaneça e que ninguém se machuque. Se formos todos um só coração e cantarmos numa só voz. Se todos nos liberarmos do medo e sentirmos com a alma o que a Terra precisa, nada de ruim pode acontecer. Nós temos total poder se entrarmos em comunhão uns com os outros e com a Terra. Até que todos nós atinjamos esse estado vibratório, Gaia terá de vibrar por nós.”

Meu corpo ainda treme. Ainda vejo tudo o que me cerca com outros olhos. Tudo emana. Não preciso mais de alimento. Meu prato está na minha frente, intocado. A Terra me alimentou. Estar dentro de uma manifestação natural em seu estado mais cru pode ser assustador. Mas, como tudo na vida, se você confia, não deixa o medo te paralisar e permite que a sabedoria do universo te guie, um terremoto, mesmo que seja um 6.8 na escala Richter, pode ser uma cerimônia.

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4 respostas para A Terra vibrou, eu vibrei

  1. Bianca Arcadier disse:

    mágico!

  2. Paula disse:

    Nossa! Nunca tinha pensado na possibilidade de um terremoto ser uma oportunidade para entrar em comunhão com a natureza. Adorei! (até quis um terremoto… hehehehe)

  3. Regina Maria de Freitas disse:

    Uau! Concordo com a Paula. Nunca vi por essa perspectiva! Incrível!!! :0

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