Moça da lavanderia. Com medo de mim.

Minhas roupas estavam imundas e fedidas. Já passara a hora de levá-las a lavanderia. O fiz no dia do terremoto e quando fui pegá-las, estava tão embasbacada que não me atentei pra checar se estava tudo lá. Só percebi uma regata e duas calcinhas que não eram minhas e as devolvi. Resultado: uma das únicas coisas que comprei em Bali não estava na pilha. O melhor short de yoga do mundo, de moleton fininho, perfeito pra se mexer pra lá e pra cá com liberdade e segurança de que nada que não deve aparecer apareça.

Saindo da consulta com a homeopata, liguei pra lá e tentei explicar o que tinha acontecido. Mas o inglês macarrônico do outro lado da linha complicou tudo. Passei o telefone pra doutora australiana que mora aqui há anos e fala bahasa (o idioma de Bali). Ela pronuncia algumas muitas vogais e delisga, rindo: “ela disse que não sabe onde sua bermuda está porque está menstruada.” Bali.

Antes de ir pra aula de dança livre, passo na lavanderia pra tentar esclarecer a situação. Nada de inglês. Eu tento explicar com todo o meu corpo. Vou pra lá e pra cá, desenho, canto e danço. Ela acaba entendendo e me diz, calmamente: “I don´t know. Maybe other person”. Bali.

Como assim “other person”? Outra pessoa pegou minha bermuda e você não checou? E agora não está se movimentando loucamente pra corrigir o erro? Eu quero minha bermuda! Abro todas as sacolas plásticas com pilhas de roupa esperando seus respectivos donos nas prateleiras empoeiradas, enquanto fico ainda mais nervosa com a quantidade de material não reciclável que estou inutilizando. E nada da minha bermuda. A moça tem movimentos de tartaruga e finge entender o que estou falando. Mas eu sei que ela me entende tanto o quanto eu entendia os israelenses quando eles falavam sobre sabonetes e eu tinha certeza de que o assunto eram prateleiras. A falta de comunicação entre nós duas vai me enlouquecendo. O sangue vai subindo, eu vou perdendo a cabeça. Meu tom de voz começa a aumentar, minha temperatura e cor a mudar. Não Bali.

Estou fora de mim. E ela começa a reagir a minha agressividade com mais agressividade, me acusando de ter ficado com as duas calcinhas que estavam na minha pilha. Pra quê? Virei monstro. Estou suando de raiva e digo que queria o telefone do chefe dela. Se tiverem que comprar uma bermuda nova pra mim, que comprem. Eu quero minha roupa de volta! Ela arregala os olhos e, com voz trêmula, me pergunta: “big boss?”
O termo me faz rir cinicamente. Olho pra mim mesma, pra minha expressão corporal, pra minha voz e, principalmente, pra minha mente doente. Perdi todo o trabalho feito nos últimos tempos. Estou de volta à civilização ocidental, tão preocupada com a porcaria da minha bermuda que não percebo o mal que estou fazendo àquela mulher. E a mim mesma. Como é fácil voltar ao padrão inicial! Como é fácil perder a clareza. Paro e respiro. Peço pra ela chamar alguém que fale inglês. A idéia de envolver mais gente mete ainda mais medo nela.

O vendedor da loja ao lado chega e ela explica o que aconteceu. Ele também está com medo de mim. Respiro mais e mais vezes e me dirijo a ele.

Você poderia, por favor, dizer a ela que, de maneira nenhuma quero que ela pague pela minha bermuda. Que não preciso falar com o big boss, mas que gostaria que ela checasse com os clientes que passaram aqui ontem e hoje se a roupa está com eles. Se não estiver, daremos um jeito, sem problemas. Está tudo bem, não estou chateada com ela, não quero prejudicá-la.

Sua expressão entrega que ele não entende de onde aquilo está vindo, provavelmente porque ela me ilustrou como uma louca ocidental que está fora de si. Justo. Mas acaba por transmitir a mensagem. E a tensão no corpo dela se transforma em dúvida. Ela olha pra mim como quem diz “ele entendeu o que você falou?” Eu a enxergo, pela primeira vez. E tudo muda. Ela junta as mãos na frente do peito e, também pela primeira vez, me expressa um “I´m sorry.”. Coloco suas mãos unidas entre as minhas e sorrio. “Está tudo bem. I´m sorry too.” Beijo suas palmas e digo novamente “It´s ok. Não estou chateada com você. Peço desculpas por ter sido agressiva. Voltarei na 2ª feira para ver se acharam. Esse é meu celular.” Ela sorri com os olhos, aliviada. Guarda o papel com meu contato e me deseja boa noite em bahasa. Salamat Malan, Carol!

Chego 40 minutos atrasada na aula de dança livre, que nada mais é uma sala a meia luz com música boa tocando e pessoas se movimentando sem regras. Minha adrenalina está a toda. Ainda tenho agressividade no sangue. Danço loucamente. Movimentos fortes, explosivos e enérgicos. Pouco a pouco, a raiva desnecessária (existe alguma raiva necessária?) vai se transformando em fluidez e gargalhadas. Esqueço que existem pessoas ao meu redor e agora pareço ainda mais louca do que na lavanderia. Meu corpo treme da cabeça aos pés, passando por mãos frenéticas, como quem encostou numa panela fervendo e balança os dedos numa tentativa inútil de fazer a queimadura passar. Meu sacudir de dedos, naquele momento, faz o ardor interno diminuir um bocado. Gargalhando, começo a contagiar as pessoas ao meu redor. No fim da música balkan, trinta e poucas pessoas gritam e gargalham em conjunto. Saio de uma hora e meia de dança em êxtase. Durmo como um anjo.

No dia seguinte, acordo com a óbvia clareza de que era só uma peça de roupa. Só isso. Então o celular apita com uma mensagem em bahasa. Só entendo “londry”, deve ser algo sobre a lavanderia. Quando consigo traduzir com o pessoal do hotel, sorrio. A bermuda está lá, me esperando. Estava na corda secando esse tempo todo. Quando chego lá, ela me espera com um sorriso. Nós duas rimos em cumplicidade. Bali, Bali, Bali.

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2 respostas para Moça da lavanderia. Com medo de mim.

  1. Tai disse:

    =) ….o ser ocidental é um ser composto por orientalidade com pitadas de emoções desnecessárias….

  2. Eduardo Kiperman disse:

    Excelente!

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