Chega de garupa

Depois de quase dois meses postergando esse dia, hoje eu me sinto dona de mim, por completo. Desde antes de chegar a Bali, essa questão me assolava. Medo de não ser capaz, de fazer papel de boba, de me machucar? Que nada! O medo real era de conseguir. E hoje ele foi embora com o vento poluído que batia no meu rosto, liberado pelo caminhão a minha frente. Desviando dos buracos, procurando o ângulo perfeito pro retrovisor esquerdo, com atenção à mão inglesa e aos veículos loucos me ultrapassando pela direita, hoje eu vim de scooter pro trabalho. De novo: hoje eu vim de scooter pro trabalho.

Pode parecer um drama. Carol, dirigir uma motoca é mais fácil do que andar de bicicleta! Você provavelmente não sabe que só aprendi a pedalar aos 19 anos. Você provavelmente não sabe que só aprendi porque meu ex-namorado insistiu muito. Você provavelmente não sabe que eu me recusei a aprender, por muito tempo, por vergonha. Era mais vergonhoso aprender aos 19 do que não saber em absoluto. Você provavelmente não sabe que passei 5 anos na garupa da moto desse mesmo namorado. Que adorava a sensação de vento na cara, de liberdade.

Liberdade? O vento, quando chegava a mim, tinha o cheiro dele. Começamos a namorar pouco tempo antes deu aprender a pedalar ao lado dele. Era nova e cresci ao lado dele. Foram anos maravilhosos, durante os quais aprendi muito ao lado dele. Ao lado dele. Na garupa da moto dele. Liberdade? Por questões minhas que ainda estou descascando, não me sentia capaz de pilotar minha própria moto.

Hoje, em controle do meu próprio caminho, na minha própria moto, na minha própria velocidade, senti o real cheiro do vento. Percebi a importância de cada um ter seu veículo, mesmo que se encaminhando para o mesmo lugar. É imprescindível receber e dar espaço para que cada um seja livre para descobrir seus próprios atalhos, ou para tomar o caminho mais comprido se assim julgar necessário. É imprescindível que cada um tenha controle da própria vida, sem delegar ao outro a responsabilidade por sua felicidade. Minha felicidade vem de dentro pra fora. E só assim meu parceiro terá em sua companhia uma mulher inteira, segura, completa, pronta para oferecer amor incondicional, sem precisar de auto-afirmação em troca.

Uma homenagem cheia de gratidão aos anos de garupa, que me ensinaram a andar de bicicleta, para que eu, sozinha, aprendesse a dirigir minha própria moto.

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5 respostas para Chega de garupa

  1. Papai disse:

    Sinta-se orgulhosa. Sua mãe comprou um triciclo (no qual ela não anda) aos 53 e é uma carona tremendamente inquieta na moto.
    A seletividade da memória é abençoada, assim você não lembra da tentativa de destruir a scooter aqui na nossa rua (reconheço as limitações e o nervosismo do professor – como é que alguém capaz de dançar, dar cambalhotas, pular num pé só, em vez de frear acelera, cai e se arranha no asfalto). Sabia que longe de influências masculinas malignas (o ex e eu) você ia conseguir, Parabéns pelo reconhecimento de sua independência.
    Beijos

  2. Iaci disse:

    fiquei emocionada! vc é muito linda!

  3. Raquel Torres disse:

    olá,

    encontrei seu blog há alguns dias, buscando na internet informações sobre wwoof, e acabei começando a acompanhá-lo por e-mail.

    vou tirar um tempo para mim a partir do início do ano que vem, também viajando, mas pelo brasil e outros países latinoamericanos, provavelmente apenas com wwoof… não tenho roteiro certo, e não tenho ideia de quanto tempo vai durar isso, rs. enfim, comecei a ler o blog porque achei interessante ler experiências de outras pessoas que estão fazendo coisas parecidas, e hoje me deu vontade de comentar aqui: aprendi a andar de bicicleta também por meio de um companheiro, e ainda mais velha que você, aos 26! haha, isso faz alguns meses e ainda não sou a melhor ciclista do mundo, mas acho que, se tivesse mais segurança, provavelmente faria essa viagem toda de bicicleta. o ventinho na cara realmente é uma delícia🙂

    é isso, desejo que os caminhos ainda lhe ensinem muita coisa. eu continuarei a acompanhar daqui.

    um abraço,

    raquel

  4. Regina disse:

    Muito legal esse texto! É incrível como coisas simples conseguem ser veículos para nossa liberdade! Aprendi a andar de bicicleta aos 16 anos, pois arrumei um trabalho nessa época e resolvi comprar uma. Foi uma experiência maravilhosa, mas eu não sei nadar. Está aí outra coisa que irá me ajudar a ficar um pouco mais independente, sem medo de ver qualquer rio por onde passo. rsrs
    Muito lindo seu relato!
    Um abraço!

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