Sábado de dondoca. Me senti em Ipanema de novo.

Depois de quase 6 meses sem fazer as unhas, minhas cutículas pediam socorro. E eu as acudi, mas não sem antes assumir, a começar pelo ‘snooze’ do despertador, que esse seria um sábado de dondoca. Foram 40 minutos rolando nos lençóis até decidir levantar ás 9:07. De casa nova no vilarejo vizinho a Ubud, com direito a cozinha, rede e piscina, fui até a geladeira com os dentes ainda não escovados e peguei um Activia comprado no supermercado dos bules (pronuncia-se bulês – vulgo gringos da Indonésia) no dia anterior. Há meses não tenho uma dispensa pra chamar de minha e foi uma delícia pensar no que poderia querer de café da manhã na semana seguinte.

Depois do Activia com granola pra lembrar os tempos de ocidente, uma chuveirada fria pra espantar os 80% de umidade relativa do ar e a escolha da roupa. Oh! Dúvida cruel! O short jeans imundo ou o short caqui com um botão faltando? A regata coral ou a branca? Pego o que menos cheira a mofo e chamo Hanna, a americana que mora comigo. Está pronta pra feira de orgânicos? Ela pega o capacete, a bolsa “i´m not a plastic bag” pra colocar as compras e monta na minha garupa, com a certeza de que sou pilota.

Sorry, Hanna. Mas esse caminho pra sair de casa é muito estreito pra eu carregar alguém pela primeira vez na moto. Ela protesta um pouco, mas vai andando até a rua asfaltada. Depois de um rápido teste pra ver o melhor lugar pra ela segurar: moto, meus ombros ou minha cintura, eu estou confiante e a moto equilibrada. Ubud, aí vamos nós!

Na feira de produtos orgânicos, selecionamos com cuidado o que queremos. De nada adianta comprar com sustentabilidade e em excesso, pra tudo apodrecer. Folhas de mostarda, batata doce, tomate, óleo virgem de coco, cenouras, frutas, molho de gengibre pra salada e um punhado vagens que ganhamos de presente. Depois do queijo, ravióli de abóbora, deixamos a bolsa lotada na geladeira do restaurante pra não carregar mil coisas na scooter. Eu xixi, ela cerveja. Próxima parada: correios, que a Hanna precisa mandar alguma coisa pra casa.

No caminho, ela grita “STOP!”. O freio demora a responder, ainda não me acostumei ao novo peso da motoca com ela na garupa. “Achei meu vestido de noiva! Só falta meu namorado me dar um anel.”, diz ela apontando pra um vestido de crepe com aplicações em renda, todo branco, lindíssimo,pendurado na sacada de uma loja chinfrim. Entramos na sala escura e abafada, com as pedras da calçada quebradas. Lá dentro, entre as roupas que estamos cansadas de ver em toda esquina, um cantinho reluz. Peças vintage vindas de Jakarta, selecionadas com muito bom gosto.

Começou a brincadeira! Hanna é modelo e tudo o que ela experimenta parece ser alta costura. É difícil escolher o que levar. Quase uma hora depois de fuçar todas as araras e ficarmos as duas de calcinha numa loja sem porta, ela se decide. Dois vestidos: o do casamento dela e um pro casamento de uma amiga. Eu opto por uma calça de cintura alta bem fresquinha que combina com tudo, porque a única que tenho aqui é de brim e, nesse calor, começo a suar só de pensar em vesti-la.

Na hora de pagar, eu já estou escolada depois de Israel e Bali. Cochicho: “tudo o que ela pedir, ofereça 40% e pague 60%”. Ela faz que sim com a cabeça, mas a semelhança entre as notas de 10 mil e 100 mil rúpias acaba com nosso plano. A dona da loja pede 700mil rúpias pelos dois vestidos, cerca de 70 dólares.
Ela oferece 200 por um, alegando com sinceridade que não tem mais do que isso na carteira. A moça faz que não com a cabeça e Hanna, num momento de desespero consumista, tira todo o dinheiro que tem pra provar que não tem dinheiro. Mas ela não tem só 200 mil rúpias, tem 2 milhões!

Depois disso, pechinchar passa a ser ofensa. Eu entro no meio de campo com um tom de voz ensaiado previamente em mercados em Jerusalém, transmitindo segurança. “Ok, ela paga 550 mil pelos dois, um desconto de 150 mil. Fechado?” Fechado. “E pela minha calça, quanto?” Ela pede 400 mil. Abro a carteira e dou 200, alegando que moro em Bali e sei que aquela calça não custa isso. Ela quer mais 50. Feito! Ambas saímos da loja felizes e rindo a toa não só pelos hormônios liberados com as compras, mas pelo papel de boba que a gringa na minha garupa acaba de fazer.

Depois dos correios, é hora de resolver minhas cutículas. Vamos ao único salão confiável da cidade, recomendado por todas as mulheres com unhas esmaltadas que não parecem terem sido feitas por suas filhas mais novas. Não temos hora marcada, mas por sorte duas manicures estão livres pra nos atender. Somos recebidas com um chá gelado de canela com gengibre e uma toalha gelada. Eu tinha esquecido como é bom ser paparicada. Passo a toalha por todo o corpo numa tentativa frustrada de diminuir minha temperatura corporal e a “grudência” da minha pele, resultado de suor, umidade, poluição e vento. Escolho a cor do esmalte e sou levada pra uma salinha, onde uma espreguiçadeira me espera. Alicate, lixa, esfoliante, hidratante, massagem, base, esmalte. Minhas unhas curtas e mãos agradecem!

É hora de pegar a sacola com os legumes e frutas na geladeira do restaurante e voltar pra casa. Na semana passada cortei meu cabelo e marquei o “re-corte” pra hoje ás 2 da tarde. A cabeleireira queria ver como meu cabelo assentaria e cortar mais, se assim fosse necessário. E eu disse Amém. Sento na varanda, com um sarong embaixo da cadeira pra eu não precisar varrer aquilo que tenho mais nojo no mundo: cabelo fora da cabeça. Bali style. Corte de cabelo ao som de passarinhos em meio a um jardim tropical. Almoço com as compras do mercado, rede e bate-papo, yoga e bate-papo, banho e bate-papo, filme, sono.

Um sábado de dondoca faz muito bem, obrigada!

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3 respostas para Sábado de dondoca. Me senti em Ipanema de novo.

  1. denise disse:

    você merece!! e adoro saber que ainda aprecia ocidentalidades ipanemenses.
    Quer que eu leve cores novas de esmalte?
    beijos

  2. Lindo o seu blog, estou te acompanhando

  3. gabi disse:

    Motoca,
    compra um vestidinho pro meu casamento? : )

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