Não estarei lá…

Desliguei o Skype agora. Foi mais de uma hora de conversa com a Gabi, minha amiga-irmã. Daquelas que você encontra depois de (mais) velha e sabe que conhece há muito tempo. Gabi vai casar. Com o Leo, de quem sou muito fã. Eu não estou lá participando e dando pitacos sobre a comida, o buquê, o vestido. Não estou lá pra segurar a mão dela se ela tiver um ataque nervoso do tipo “P.Q.P! Eu vou casar!”. Relaxa Leo, que isso não aconteceu nem parece que vai. Escrevo isso só pra dar dramaticidade pro texto. (Relaxa Gabi, que eu não vou contar pro Leo sobre seu e-mail desesperado quando a ficha cair.

Minha irmã está muito grávida. Minha irmã. Muito. Grávida. Do primeiro filho. Filha, Nina. É meNina. E eu não estou lá sentido minha sobrinha mexer assim que o Jornal Nacional acaba. Não estou lá acompanhando o crescimento da barriga, a mudança pro apartamento novo, a reforma do quarto da pequena.

Não estarei com minha família quando minha sobrinha nascer. Não verei o lindo rosto inchado da Fefa quando ela amamentar pela primeira vez ou os olhos aguados do Dani ao ver esse momento sagrado. Nem a cara de bobo do meu pai e o excitamento da minha mãe. Não verei meus sobrinhos dando pulinhos no berçário ao verem sua prima.

Não carregarei Nina no colo em suas primeiras horas de vida, admirando a penugem do seu rosto amassado enquanto meus olhos enchem d água e digo baixinho: “Eu serei sua tia maluca, que vai te levar pras poças de lama, ensinar a fazer bolhinhas com canudo no suco de maracujá com gengibre e mel, que surpreendentemente será seu favorito. Já te amo loucamente. Serei a tia que vai te deixar ficar acordada até tarde vendo filme e comendo pipoca dentro da cabaninha feita de lençóis, enquanto seus pais passam o fim de semana no campo, com a certeza de que a essa hora você já está no décimo sono.”

Não estarei lá.

Não estava lá.

Não estava lá quando a família toda se reuniu pra preparar os brindes pro aniversário dos meninos. Não estava lá quando a Nati começou a namorar, não conheço seu namorado. Não estava lá no casamento da Lulu e do Pedro. Não estava lá quando a Paulete foi visitar a família depois de um ano morando fora. Não estava lá quando a Nini descobriu que estava grávida. Não estava lá quando minha mãe costurou orgulhosa sua primeira boneca de pano, nem quando ela e meu pai saíram pra almoçar numa tarde de terça feira, pela primeira vez em anos. Não vi seus rostos felizes quando voltaram pra casa. Não estava lá quando a família se reuniu na cachoeira, meu pai se enrolou no plástico bolha e se jogou na água, boiando e convidando todos pra fazerem dele uma cama inflável. Não estava lá quando Davi marcou sua altura com caneta na parede no dia em que fez 5 anos.

Não estava lá.

Quase 6 meses se passaram desde que dei um até logo pro meu quarto. Desde que escolhi o que deixaria pra trás e o que carregaria comigo. Às vezes parece que só se passou um mês. Então paro pra pensar nas histórias em Israel e em tudo o que já aconteceu. Lugares, sensações, limpezas, pessoas, desertos, riachos, Jerusalém, silêncios, conversas, choros, gargalhadas, livros, aprendizados, medos encarados, escancarados e escondidos.

Outras vezes sinto que estou fora há anos, tamanha a saudade e experiências acumuladas. E é aí que bate a vontade de voltar logo, junto com o pensamento: “já é suficiente, estou pronta pra encarar minha vida no Brasil.” E fazer o quê quando chegar lá? Ainda não tenho todas as respostas. Tenho algumas, não todas.

A vida começa a ter um formato específico agora que estou trabalhando. A zona de conforto se aproxima. Desacostumei-me ao conforto. Ele se tornou desconfortável. A idéia de assentar me dá coceira. Ao mesmo tempo, a idéia de me mudar de novo e me adaptar a uma nova cultura me dá preguiça. Entre a rotina e a novidade, o desconforto e a preguiça, achar novidade na rotina.

Essa é uma das lições que quero levar pra casa. Fazer da minha rotina uma novidade diária. Difícil então não cair na pegadinha da mente: “Qual será minha nova rotina no Rio? no Rio? O que vai acontecer quando eu voltar pra casa? Casa? O que vou fazer? Como vou ganhar dinheiro? Como vou me comportar? O que vai ter mudado em mim? E neles?” Junto com as perguntas, a ansiedade de obter as respostas. E a vontade de voltar pra casa.

Medito.

Volto pro meu centro.

Percebo a lição apresentada: achar novidade na rotina. E poder levar pra casa mais essa resposta.

Medito.

Volto pro meu centro.

Tenho certeza que vou pra casa quando meu coração disser que é hora. Ele ainda tem muitas surpresas planejadas e sussurra no meu ouvido: “ainda não, estou pesquisando muitas músicas novas pra embalarem sua dança pelo mundo.”

3 Tono – Quando Você Dança

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7 respostas para Não estarei lá…

  1. Luisa Parnes disse:

    Eu não estava lá durantes os preparatórios de uma das minhas melhores amigas. Mas eu estava no casamento. Eu não estava lá quando minha irmã engravidou do primeiro filho, tampouco estava lá quando ele nasceu. Mas, do momento em que cheguei, grudei nele. E hoje em dia temos uma relação tão intensa e amorosa que nem lembrava desse detalhe até ler seu texto. Minha irmã engravidou do segundo filho. Também não estava lá. Não vejo ela crescendo, não vi ela falando a primeira palavra dela. Dói, eu sei que dói. Já faz mais de um ano que abandonei meu lar e não devo voltar tão cedo. Mas existe um motivo pelo qual decidimos sair pelo mundo, sem lenço e sem documento. Foi como me disseram quando descobri que tinha passado no mestrado e, mais uma vez, dava “até logo” ao Rio de Janeiro:

    Troquei minhas raízes por um par de asas.

    E voei.

    Beijos, Carol!

  2. Fefa disse:

    Assim vc acaba comigo… mais lágrimas do que nunca!!!!
    Volta, volta, volta! Mas fica, fica, fica. E continua aproveitando muito!
    Nina já te aplaude!
    Beijo

  3. Tai disse:

    Me emociono com suas experiencias, pensando sempre na sua coragem e em como eu gostaria de tê-la para viver uma vida diferente, mesmo que temporariamente. Mas te digo que o conforto acontece quando deixamos acontecer. Vc viu o meu drama no telecine. Até hoje, não sei bem quem eu sou profissionalmente, pois me deixei acomodar por pequenices como bonus anual, vale supermercado no final do ano. Pequenices. Larguei tudo.. em um ato desesperado por ar e raivoso até o talo. Continuo em busca de respostas pra quem eu sou e qual o meu papel nesse mundo. Acredito que são as mesmas respostas que você espera e vamos ser sinceras? Acho que elas não vêm todas ao mesmo tempo. Deixa sim o coração te dizer a hora de voltar, mas não se force a achar uma resposta que resolverá todos os seus problemas. Ela não existe.
    <3… beijos, lôra.

  4. Ana B. Galeão disse:

    carola, essa sua experiência me faz perceber meu próprio desejo. suas palavras me tiram da caixa e me incomodam. Mas incomodam no sentido bom da coisa, no sentido de me tirar da zona de conforto e falar “anab, tá na hora de mudar. olha a carol aí: ela tomou uma atitude e se torna uma pessoa melhor a cada dia”. mas ainda nao tenho essa coragem que vc tem, mas to em busca dela. obrigada. beijo

  5. Gabi disse:

    MEU DEUS!
    Se ontem já dormi pensando em você, de como me senti ai, ao seu lado, sentada de frente pro mato sob o teto de bambu, agora, simplesmente senti vc apertando a minha mão e dizendo: “Lindona, vai dar judo certo. PORRA! Vc é feita de luz, astromélia!” Já deu, tá dando, vai dar. Minha sapinha do green camp. Love u : )

  6. Priscila disse:

    Carol,sua linda! Que texto maravilhoso… consegui visualizar todos os personagens enquanto o lia e, pra falar a verdade, nem eu tinha percebido quanta coisa mudou nestes ultimos 6 meses.

    O processo que voce esta tendo a sorte de viver é maravilhoso e eu tenho mt orgulho de vc por isso! É incrivel a sua transformação!

    Estou mandando mt luz e amor para você. Tá fazendo falta no grupo.

    Beijos,

    Pri

  7. Eduardo Kiperman disse:

    Show de texto, parabéns.

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