Limpeza na chuva

Deitada na espreguiçadeira da piscina no inicio da terapia crânio-sacro. Ontem ela sentiu que eu estava pronta. Meu corpo pedia pela sua sabedoria.

Suas mãos estão na minha testa empoeirada e oleosa em movimentos espiralados, tão sutis que parecem imóveis.

Sou uma mulher linda, pele, cabelos, imagem toda branca, enrolada num pano também branco flutuando num fundo perolado reluzente. Sou pura. Sou pura luz.

Vou colocar minhas mãos no seu sacro. Levanto as pernas para ajudá-la. As mãos se tornam mais presentes.
Minha inspiração não é fluida, é toda interrompida por contrações involuntárias. Na expiração, suspiro.
Uma escada preta. Feita de chão de ônibus. A luz vem da janela, um dia nublado. Sem móveis. A escada existe de verdade ou só em pensamento? Chão sujo, empoeirado. Ninguém.

Uma mão no sacro e outra na lombar. Dedos dela, movimentos imperceptíveis. Minhas entranhas se movimentam perceptíveis.

Bananeiras pequenas, vegetação abundante. Lado de fora de uma casa de campo. Gramado, orquídeas, mangueira. Telhas. Teresópolis. Ninguém.

Suspiro.
Raios.

Uma mão permanece no sacro. A outra procura o encaixe no pescoço. Não encontra. Desliza até o trapézio esquerdo. Sutileza.

Pedras enormes. Dia ensolarado sem nuvens. Ruínas. Um vale. Castelo. Ninguém. Revisitando um tempo remoto, um lugar que vivi anteriormente e que está em ruínas agora. Israel? O castelo em que me senti exausta e mal-humorada há alguns meses?

Diafragma se contrai. Ar vem hesitante do estômago até chegar aos lábios. Lágrimas passeiam nas laterais do meu rosto, tão lentamente quando as mãos dela no meu corpo.

Trovões.
Será que a chuva vem?

Um pingo delicado no centro da testa.

As mãos em um lugar que já não sei mais. Queixo? Pescoço? Clavícula? O corpo está em processo de desmaterialização, até que a boca entreaberta recebe uma gota consistente, lembrando a existência da carne.

O corpo externo está molhado e com frio.
A mente é engolida pelo corpo interno.

Desapego da matéria. Imersão total. A chuva se transforma num catalisador. O céu chora, os olhos choram. O céu troveja, o corpo geme.

Acabou a luz?, a mente pensa. O corpo interno sabe melhor. Buraco negro. Antes da criação do Universo. Escuridão total.

O choro se transforma em gargalhada.

A roupa encharcada gruda no corpo externo. Chuva torrencial.

Gargalhadas contraem o corpo. Ela ri comigo.

Limpeza.

Um beijo na testa molhada.

Os olhos abertos cravam a certeza de que a chuva é real.

As pernas levam o corpo gelado á água quente da piscina. O corpo flutua, envolto.

A roupa pinga.

O sorriso e o abraço.

Gargalhando, ela me diz.
Você foi longe. Começou de perto e cavou, cavou,cavou. Infância e existências interiores. Foi até o fundo do poço escuro e voltou pra superfície trazendo um arco íris como cauda do cometa. A chuva é você. A chuva sou eu. Nós somos uma a outra e tudo o que existe. Obrigada por me permitir fazer parte disso. Foi lindo.

É lindo.

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2 respostas para Limpeza na chuva

  1. denise disse:

    lindo mesmo, linda mesma! amei e amo!

  2. Sofia disse:

    Como eu gostava de sentir tudo isso… mergulhar na profundidade do meu ser e trazer luz para minha vida! Gratidao *

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