Ela entendeu Bali

Coisa estranha… Sentada no vôo para Bangkok a 4 horas de encontrar meus pais depois de meio ano longe deles. A ficha ainda não caiu. Talvez seja porque, depois de chorar enquanto abraçava minha irmã no aeroporto de Bali, parecia que tínhamos nos visto há uma semana. O blog ajudou, eu não tinha tantas novas histórias pra contar, a não ser: foi nessa lavanderia que eu quase tive um piripaque nervoso, foi aqui que eu tirei aquela foto, essa é a escola onde eu trabalho.

Ela tinha mais coisas para contar do que eu. Atualizou-me das sapequices dos meus sobrinhos, da gravidez da irmã do meio, da nova rotina da mamãe, da felicidade do papai, do verão que começa, dos novos restaurantes na galeria River, das fofocas da cidade maravilhosa.

Talvez eu tenha percebido que não mudou tanta coisa. E aí a saudade diminui um pouco. Saber que vou voltar pra um espaço de conforto emocional em seja lá quantos meses me deixa mais tranqüila. Talvez que tenha aprendido que a ansiedade não é um sentimento positivo. E por isso eu estou feliz, muito feliz, sem perder as estribeiras. Talvez eu tenha sentido a responsabilidade de ser uma boa anfitriã, já que minha irmã estava chegando no “meu” espaço. Talvez eu tenha sentido uma necessidade de aprovação da vida que estou vivendo por parte dela. Encontrando-os na Tailândia, ambiente neutro, essa falsa necessidade não existe. Vou de encontro a eles sem pré-ocupações, sem necessidades, sem peso algum.

Nesses 4 dias de Camila em Bali, passeios pelas calçadas esburacadas de Ubud e compras devidamente pechinchadas. Caminhada pelos campos de arroz e almoços deliciosos. Visita a Green School e lágrimas derramadas quando ela viu a sala sem paredes onde seu menor estudaria. Caminhada na mata, nos embrenhando mais e mais até chegarmos, boquiabertas, num condomínio de luxo, todo feito de bambu pela mesma empresa que construiu a escola. Meditação no dia 11-11-11. Festa na maior construção industrial feita integralmente de bambu com direito a show de marimba, comida, bebida e o melhor chocolate amargo do mundo. Dia de bulês (o gringo de Bali) no hotel/detox spa Five Elements, com direito a almoço vivo, tentativa de comer com hashi para se alimentar mais devagar, jacuzzi em meio a chuva torrencial e massagem “qual é o máximo que você se predispõe a pagar?”. Valeu cada centavo. Degustação de cafés e a recusa a experimentar Kopi Luwak, o café que vem das fezes do gambá. Cheiros, cheiros e mais cheiros. Enauseantes e deliciosos. Visita a Tirtha Empul, o templo das águas e um ritual de purificação.

Ritual de purificação em águas balinesas com minha irmã. Depois de uma hora e meia de estrada esburacada, chegamos ao templo e alugamos dois sarongs, já que os que estavam na mochila não secariam a tempo de entrar na mala pra Tailândia nesse clima “170% de umidade relativa do ar”. Vestidas a quase caráter, estávamos prontas para as 14 duchas que seguiram.

“Como é o ritual?”, ela pergunta a Made, o motorista, para ouvir como resposta um “It comes from your heart”. Eu sorrio, com a certeza de que ela começou a entender Bali. A cada ducha, uma casca da cebola vai sendo desvendada. Ambas estamos concentradas e eu não presto atenção em como está sendo o processo dela. Só sei de mim, pela primeira vez desde que ela chegou. Não estou preocupada com “ela está se divertindo? está confortável? meu banheiro cheira a mofo, será que ela preferia dormir na cama comigo em vez de nesse colchão no chão? mas é que a cama só tem uma parte ortopedicamente aceitável… será que ela está incomodada com o temperamento do chuveiro ora frio, ora quente? e a Green School? supriu as expectativas? estou febril, mas ela só tem quatro dias aqui, esquece a dor de garganta e simbora! quero meditar agora, será que ela quer vir comigo? ela veio comigo, está chovendo em nossas cabeças mas eu quero continuar, será que ela também? ela tinha hora marcada com a massagista, que me avisou por telefone que está atrasada. está sem celular, sozinha na cidade, o que eu faço? espero. ela volta, desistiu de esperar pela massagista e eu tento explicar com humor que é assim que as coisas funcionam em Bali. mas já é tarde demais, ela já está irritada com a massagista e ainda mais comigo, que fiz pouco caso do seu aborrecimento. será que estou agindo da maneira que ela esperava que eu agisse? Todo o trabalho pessoal feito em Israel “meus processos são meus processos, seus processos são seus processos” se diluiu. Eu fiz das questões dela um pouco minhas. Mas tudo bem, faz parte do – sempre ele – processo.

Mas no templo, a certeza de que ela está exatamente onde deveria estar e que seu ritual será exatamente como deveria ser. A cada ducha, eu limpava cada pequeno espaço físico mental ou espiritual, sem precisar pensar no próximo assunto a ser abordado. Eles vinham fluidos, como a água que corria em meu corpo. Depois das 14 duchas, viro e me encontro com ela para mais um abraço longo e choroso. Ela chorando, eu rindo.

“É uma energia forte”, ela diz. “É tangível, impossível não perceber e não sentir-se limpa”. Eu sorrio mais uma vez. Ela entendeu Bali. Entendeu a convergência, viveu a sincronicidade: “Impressionante como sempre que conversamos sobre alguma coisa vem alguém um tempo depois e fala sobre a mesma coisa. Impressionante também como a chuva começa quando temos abrigo e para quando é hora de ir embora, o tempo em Bali realmente trabalha a nosso favor”. Definitivamente, ela entendeu Bali.

Sim, me deparei com alguns vários padrões de comportamento que ainda não havia encarado nesses seis meses. Eles ficam mais evidentes quando estamos em contato com aqueles que conhecemos e amamos desde sempre. Mas percebi muitos outros que mudaram. Em 3 horas e meia, vou encarar mais e mais deles. Assunto para os próximos dias.

Que venham! Vou recebê-los de coração aberto e felicidade.

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4 respostas para Ela entendeu Bali

  1. Adelia Bergier disse:

    QUERIDAS CAROL E CAMI………….COMO ESTÃO PARECIDAS………………..MUITO LINDAS…………..CURTAM MAMÃE E PAPAI………………………..BEIJOS…………ADELIA

  2. Sofia disse:

    Muito obrigada pela partilha Carol!

  3. marilia disse:

    Carol, eu adoro acompanhar você no seu blog. Já partilhei você com inúmeras amigas que também estão acompanhando. Sinto você uma moça tão jovem mas tão madura e espiritualizada, aprendo muito com você. E, escreve muito bem.
    Agradeço muito caminhar aqui de tão longe, moro no Rio em Ipanema, curtindo suas experiências que me deixam babando de prazer. Marilia Puga

  4. Louise Calixto disse:

    sempre me emociono de alguma forma com as palavras da carol!
    camila aproveita aí!
    descobrir é uma das melhores coisas da vida!
    beijos

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