Uí go. Bangkok.

Ela está só com a bunda e pernas pra fora da porta dianteira do taxi rosa choque, numa avenida caótica na qual não conseguimos ler nenhum letreiro e tudo que conseguimos entender é… Tudo que conseguimos entender é nada. Com o rosto a um palmo do motorista ela mostra um cartão com o nome do hotel escrito com letras tailandesas. Se ajeita e sai do taxi. Nada feito. É o terceiro taxista que se recusa a nos levar nessa tarde de calor escaldante em Bangkok.

Meu pai faz sinal pro quarto carro, com cuidado pra não errar o gesto. Conforme os duzentos e sete guias sobre a Tailandia lidos por ele nos últimos dois meses, a mão deve ser inclinada apontando para baixo com todos os dedos estendidos. O carro que para não é cor de rosa, é verde e amarelo. Ainda não entendemos a diferença entre todas as possíveis cores de taxis nessa cidade. Uma das inúmeras incompreensões.

Minha mãe vai falar com o taxista. Eu chego mais perto pra me divertir com o novo sotaque mais do que brasileiro que ela resolveu adquirir desde que eu disse a ela que na Ásia, para ser entendido em inglês, é melhor deixar o vocabulário rebuscado de lado e desaprender um pouco a língua. Por algum motivo louco, ela entendeu que deveria adotar um sotaque brasileiro-carioca.

Uí gôu. Rotéu. Ríere [ela aponta pro cartão]. Riversaide Xátrium Rótéu. Taximíter. Iú nôu uere íti ísi? Oquei. Létis gôu. Gente! Pode vir! Ele diz que sabe onde é.

Entramos gargalhando e sabendo que possivelmente ele não faz a menor idéia de onde seja nosso hotel. Ou, mesmo se souber, vai dar voltas e voltas até chegarmos lá. Mas o calor lá fora está derretendo meu pai e preferimos estar perdidos ou enganados no ar condicionado. Depois de um dia de mercados e estímulos sensorias de todos os tipos – flores, oferendas, comida, frutas, Chinatown e mercado indiano –  queremos mais é colocar os pés pra cima na piscina e esperar a hora da massagem tailandesa.

Ah! O luxo de viajar com papai e mamãe. Não só reservaram massagem para todos, como eu ganhei de brinde um body scrub. Meu sábio pai imaginou que eu estivesse cheia de craca de tanta umidade e poluição – e banhos meia-bomba – em Bali e me deu mais essa mordomia. Caiu-me como uma luva. Eu estava com uma camada de pele morta tão significativa que toda vez que passava os dedos com mais vigor em qualquer parte do corpo saía aquela minhoquinha marrom, sinal que é hora de banho. Mas o que fazer se tomei banho há menos de uma hora? A umidade excessiva está acabando com minha pele. Viva papai, o body scrub e os sabonetes pra pele oleosa que eles trouxeram pra mim!

Descansamos na piscina do Riversaide Xátrium Rótéu e fomos todos de roupão para o spa, a 100 metros do hotel.  Quer dizer, todos não. Eu fui de sarong, me achando absolutamente local. Até cruzar com chiquérrimas mulheres de bolsa Louis Vutton, salto agulha e vestidos possivelmente Marc Jacobs. Local uma ova. Só porque está há 2 meses e pouco em Bali acha que a Ásia é como Ubud? Se enxerga, hipponga! Usa seu roupão que você fica menos destoante.

Chegando no spa, um quarto individual pra mim e eles três num espaço conjunto. Massagem deliciosa, esfoliação na medida pra deixar minha pele suave como a da Xuxa na propaganda do Monange. Mas acho que vocês já tiveram descrições suficientes de terapias alternativas por aqui. Então vou pular essa parte.

Vou direto pra minha chegada no quarto, onde minha irmã me conta como foi a massagem deles. Deliciosa e hilária. Hilária? É, a mamãe não parava de gritar com as cotoveladas e joelhadas da massagista. É uma massagem bem vigorosa, na qual o terapeuta utiliza todo seu corpo para alongar com precisão, potência e persistência suave. Importante: estou aqui falando da Thai Massagem, e não a “special thai massage” que as tailandesas oferecem nas ruas sem lei de Bangkok, onde mulheres exibem seus dotes de pompoarismo em show de ping-pong com a dita-cuja. Não, não fomos nessas casas de show. Nos recusamos. Não só por ser algo degradante ás estrelas da casa, mas porque mulheres descascando bananas com o órgão genital não é coisa agradável de se assistir ao lado de pai e mãe.

Camila me conta que as três terapeutas não conseguiam parar de rir com os sons de dor produzidos pela minha mãe. Geme daqui, grita dali, prende a respiração acolá. A sinfonia era tanta que todos os 5 – massagistas, Camila e papai – acabaram rindo do concerto dela. Aparentemente, ela gostou. Me contou depois que ganhou muitos centímetros após da “tortura”.

Consigo imaginar ela agradecendo a massagista com as mãos unidas na frente do rosto, abaixando o tronco em movimentos pequenos, rápidos e repetitivos enquanto dá passinhos pra trás, misturando todas as culturas asiáticas em uma só saudação. Que confusão ela faz com as tradições desse lado do mundo. Ela ainda está com dificuldade de entender porque os chineses vêm pra Tailândia, o que será que eles querem ver que ainda não viram em seu país? Mãe, pela quinta vez! A Ásia não é toda igual!!! Mas todos têm olhinhos puxados, ela responde. Eu desisto. Ela só pode estar de sacanagem.

Saímos pra jantar e eu peço por favor pra não comermos mais comida asiática. Não agüento mais não conseguir identificar todos os ingredientes dos pratos. Todos topam. Acabamos num japonês. Mas é que comida japonesa não conta. Não é asiática, é quase carioca. E eu não comia um bom sushi há 6 meses. Quanta felicidade! Depois do jantar, mais um mercado de rua. Dessa vez, roupas. Roupas, roupas, roupas! Quanto consumismo. Difícil não sucumbir e ser uma consumidora consciente. Controlo-me muito mais do que há algum tempo.

Na verdade, não é controle. É menos desejo de comprar mesmo. Ponto pra mim! Em meio a Ray Bans piratas, camisetas com silks quase-engraçadinhos, sapatos masculinos interessantes, bolsas, bolsas e mais bolsas e outras bugigangas mil, me encanto com uma barraquinha de roupas pseudo-vintage. Pelo menos uns seis modelos de cair o queixo. Que a dona do stand não nos deixa provar. Mamãe intervém com sua nova língua: Uí trái, ui bái. Uí dontchi trái, ui dontchi bái. A espertinha responde: Sometime you try and no buy. No try. Ok, não vou levar nenhum dos curtinhos então.  Não quero correr o risco de ficar com a bunda de fora. Acho que não seria uma boa idéia. Acaba que eu e Mila levamos o mesmo modelo de US$12 em cores diferentes. Como se já não bastasse estarmos fisicamente tão parecidas, agora vamos nos vestir de gêmeas. O cansaço bate. É hora de voltar pro hotel. A novela do taxi entra em seu 9º capítulo. E minha mãe entra em cena mais uma vez pra fazer a viagem ainda mais divertida.

Uí gôu. Rotéu.

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3 respostas para Uí go. Bangkok.

  1. Rico disse:

    Ri.. Ri muito. Valeu Dona Prima. Teu texto caiu como uma luva numa sexta feira pos semana de trabalho. Imaginar a Denise nessa poliglota cacofonia foi no minimo hilario.
    Bjs dos primos Aussie

  2. Adelia Bergier disse:

    Carol querida, sua mãe esta lembrando alguem…………….divirtam-se…………….beijos…………….Adelia

  3. Celia disse:

    ahahah muito engraçado… a gente fica só imaginando! beijos a tod@s

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