Elefantes pintores, macacos cantores

Depois do caos sensorial em Bangkok, Chiang Mai foi um alívio para todos. A segunda maior cidade da Tailândia tem 380 mil habitantes, enquanto a capital tem 12 milhões. Na serra, o clima deu uma trégua. As pessoas andam num outro ritmo. Não é tão bucólico quanto os guias do papai descreveram. O que os livros apresentam como charretes são na verdade tuk-tuks, um carro/motoca em que cabem 3 pessoas atrás e o motorista na frente. Mas nós somos 4, como faz? Eu sentada ao lado do motorista, minha perna suando na perna dele, num banco improvisado em cima da bateria.

Quando não estávamos de tuk-tuk, ou tchuk-tchuk, no dialeto da minha mãe, o transporte era com Bunny (Sunny, Johnny ou Ronny pra ela), o taxista que nos levou do aeroporto pro hotel e se transformou em nosso motorista oficial. Sunny Bunny nos levou á “fábrica” de seda tailandesa e algodão, à ”fazenda” de orquídeas e ao “jardim” de borboletas. Foi devidamente comissionado pelos donos desses “estabelecimentos” e nós fomos devidamente turistas neles. Esses passeios não fizeram de Chiang Mai uma experiência memorável. Isso sem mencionar a visita aos elefantes. Quase chorei de tristeza. Quando os filhotes não estão acorrentados em espaços minúsculos, estão sendo montados ou, pior, pintando. Isso mesmo. Elefantes pintores! Fui tão chata e insistente sobre minha recusa em dar dinheiro para pessoas que maltratam animais que nem consideramos entrar no “parque”. Até tentamos ir a uma reserva que trata dos elefantes respeitosa e amorosamente em amplos espaços abertos, mas o parque já estava lotado.

O que marcou mesmo em Chiang Mai foram os templos budistas. O primeiro que fomos, Wat Phra Doi Suthep, fica no alto de uma montanha e, mesmo com turistas brotando do chão, tem uma energia de templo. Chegamos juntos e rapidamente nos separamos.  Cada um foi pra um canto do lindo lugar, que está em atividade, diferentemente dos templos em Bangkok que muitas vezes parecem simplesmente lindíssimas atrações turísticas. Em Bangkok, os templos são imponentes, impressionantes, majestosos  e turísticos.Em Chiang Mai, apesar de muitos turistas, o clima é outro. Então, em um templo vivo, um de nós  se sentiu chamado pelo monge abençoando locais e estrangeiros, outro foi estudar as diferentes posturas das estátuas de Buda. O terceiro deu a volta no quadrado enquanto segurava uma flor de lótus e fazia sua própria reza. (O guia fez falta nesse templo. Tanta informação escondida nos azulejos, espelhos, salas e cerimônias…) Eu fiquei meio perdida com tanta coisa acontecendo. Fui fotografar. Até que vi minha irmã sentadinha em um dos pequenos templos, com um sorriso cheio de paz e uma pulseira feita de barbante na mão esquerda. “Acabei de participar de uma cerimônia”, ela me disse baixinho, visivelmente com o coração cheio de alegria. “O monge me abençoou e me deu essa pulseira para ‘good luck´”.

do´s and don´ts

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Que falta faz um guia

Sento do lado dela, com cuidado para sentar com as pernas cruzadas, não colocando as solas dos pés pra frente pra não apontar para a estátua de Buda, conforme pedem os costumes locais.  Mamãe também aparece e senta do meu lado. “Será que ele vai fazer a cerimônia de novo?”, ela perguntou ansiosa. “Acho que não, né? Ele sabe que sou meio fake e não vai me abençoar”, como quem diz: ele sabe que tenho uma espiritualidade própria, mas que não sou budista. Eu rio e fecho os olhos. Começo uma meditação que é interrompida não sei quanto depois com uma esguichada de água no meu rosto. Abro os olhos. Ela não está mais do meu lado. Uma pena, porque ele está abençoando as pessoas no templo  com água e um canto, em especial uma senhora que parece estar doente. Ele dirige sua voz a ela e a família coloca as mãos em seus ombros. As pessoas do lado encostam na família e vai se formando uma rede de troca de energia. Enviar energia positiva pra ela, receber a bênção do monge. Pelo menos é assim que entendo. Posso estar errada na interpretação, mas foi essa minha intenção ao colocar minha mão no francês do meu lado. Ganho também uma pulseira de barbante, agradeço ao monge, ao francês, a senhora e ao local.

Vida real

A próxima parada é um grupo cantando em uma das esquinas do complexo. Não sei o que cantam, mas sento novamente, dessa vez com as pernas dobradas para o lado. A vibração do mantra é deliciosa. Camila e papai também estão curtindo, mas estão de pé. Olho pro meu pai e me vem uma certeza de que ele é meio budista, mesmo que não saiba. Poucos minutos se passam, mas como a noção de tempo no templo é diferente, minhas pernas estão dormentes. Pode ter sido muito mais tempo do que acho. Ou minhas pernas estão só cansadas e a circulação deficiente, vai saber…

Olhar intenso

Meu pai me chama pra ver um longo painel com a história de vida de Buda, desde que era o príncipe Siddharta até atingir a iluminação. Ele (meu pai, não o Buda), fala sobre o assunto sem muita propriedade, o que não é normal quando se trata da enciclopédia ambulante que é. Mas com um interesse maior do que de costume. O tom de voz muda.  “Pai, você podia estudar mais sobre isso, acho que você ia se identificar com algumas muitas coisas”, penso sem falar. Tenho tomado cuidado pra não “catequizar” a família com minhas idéias sobre espiritualidade. Espiritualidade e não religião, que fique claro.

bate o sino, não tão pequenino

Saímos de lá e meu pai comenta que tinha gostado muito do tom de voz do monge. “Bunny, do you know where we can see monks singing?” Ele responde a uma pergunta que não foi bem essa: “The monks sings everyday in monastery. Morning and night. Sometime they start monk children. Sometime old people monk. Something like that”. Perguntamos de novo e de novo, até ele finalmente entender que queríamos ver “monks singing”. Quem não entendeu dessa vez foi minha mãe, que eu seu inglês carioca-pseudo-asiático está com certas dificuldades em alcançar o que está sendo falado. Oba! Vamos numa floresta de macacos cantores!

Nós 3 olhamos pra ela: “AHM????” Enlouqueceu. Macacos cantores, mãe? É… singing mon.. ihhhhhhhhhhh. Era monks e não monkeys, né? Caímos na gargalhada. Os macacos cantores poderiam ser algo peculiar, mas não ser tão afinados quanto os monges. A cantoria foi linda e finalizada com eu e papai num “Monk Chat”, um papo com um jovem monge. Nos ofereceu informações sobre budismo, política budista, a diferença entre budismo e hinduísmo e sobre a representação da flor de lótus.

Singing monk(eys)s

O Buda, que era alguém como eu e vocês, nos deixou como ensinamento a idéia de que existem 4 estágios de sabedoria humana. Bem debaixo d’água, estão as pessoas tolas, sem interesse. Mais perto da superfície, mas ainda submersas estão as não tão tolas, já com algum interesse. Acima da água, ainda sem florescer, as mais inteligentes e, florescidas, as sábias. “Eu não sei em que estágio estou,” diz o monge. “Não sei se estou debaixo ou já fora d’água. Ainda estou estudando.” Meu pai responde imediatamente: “Eu ainda tenho muito o que estudar”. E ali percebo que ele tem a mesma sensação que eu: o budismo seria uma boa maneira de atingir um tipo de sabedoria que ele ainda não começou a buscar, mas que se buscasse, faria muito sentido pra ele.

Entre elefantes pintores e macacos pintores, um pai budista.

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4 respostas para Elefantes pintores, macacos cantores

  1. Carol….termino de ler com vontade de meditar…adorei!…vou meditar!
    bjs,

  2. Rafael disse:

    Minha vontade de estudar o Zen aumentou consideravelmente depois de ler o seu blog!
    Gostei muito! Parabéns!

  3. Paula disse:

    E eu ia lá para cima para passar para a próxima página e… “Nossa! Alcancei a viagem no seu estado atual!”
    Ahhh… Agora vou ter que esperar o próximo post…😉

  4. Oi Carol! Adoro seu blog…
    Estou planejando uma viagem pra Tailandia, será que vc podia me indicar um Hotel em Chiang Mai e um em Bangkok?
    Super obrigada! Beijocas

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