Raízes profundas, frutos deliciosos

Agora bateu. Amanhã de noite eles já não estarão mais por perto. Estarei por mim mesma novamente. Não que eu tenha deixado eles estarem por mim nessas quase 2 semanas. Não deixei. Não por necessidade de provar que posso, que estou numa boa sozinha do outro lado do mundo. Não os deixei estarem por mim porque me forcei nos últimos meses a estar por mim. Acostumei-me a carregar minha mochila pra onde quer que vá, mesmo que eles estejam sentados no banco da praça e eu esteja à procura de um banheiro. Nos primeiros dias em família, os 4 queriam dar pitaco, decidir, falar com o concierge para entender qual era a melhor rota pra chegar em determinado templo. Isso foi se diluindo com o tempo.

Cada um foi estabelecendo seu papel. Mamãe pega os taxis e entende os trajetos, além de divertir a todos com suas trapalhadas. Papai toma conta das burocracias e pratica sua paciência budista entre 3 mulheres e seus humores. Camila traz a voz da razão no meio da confusão toda e eu…. eu tiro fotos. Fico pra trás, sempre. É que a luz batendo na calçada está bonita demais, aquela criança está pedindo pra ser clicada, o emaranhado da fiação traz uma surrealidade que não posso deixar de registrar. Mas tem algo mais aí. Porque fico pra trás, sozinha? Porque carrego minha mochila pra onde quer que vá?

Acho que não posso – ou melhor,- não quero me acostumar ao conforto emocional de estar em família. Imaturamente, recusei-me a me sentir em casa, a ser afagada. Era como se não quisesse lembrar a delícia que é o cafuné do papai, o carinho da mamãe, as conversas sinceras com minha irmã. Afastei-me sutilmente. Porque não queria que o dia de amanhã – a 2ª despedida – fosse mais difícil que a primeira. Na primeira, o novo me esperava, tinham borboletas voando no meu estômago. Dessa vez, já tenho uma vida estabelecida em Bali, não tem tanta novidade no próximo aeroporto. Preciso ter forças pra voltar e ficar fora por mais um tempo. E, assim, criei uma casca. Levantei um escudo, uma fortaleza em volta de mim. E eles a respeitaram. No meu processo de reconstrução, precisei desconstruir. E família é sinônimo de raízes, de fundação. Minhas raízes são muito, muito, muito profundas.

O escudo veio como uma reação a uma falsa necessidade de esquecer antigos padrões de comportamento. Ainda é fácil voltar aos costumes antigos porque tenho muito pouco tempo com essa “nova Carol”. Mas não quero voltar aos velhos padrões. Gosto dos novos, me fazem feliz. Então criei uma armadura, como se eu dissesse “não” pra “antiga Carol”. Como se a família representasse a “antiga Carol”. Tentei esquecer como minha fundação é linda.

Tentei separar raízes de frutos. Os frutos ainda não estavam maduros o suficiente pra perceber essa conduta. Eles, por sua vez, estavam me vendo como um poço de segurança e força. Acharam que minha distância era genuína. E por isso, por mais estranha que eu pudesse parecer, eles acreditaram que fazia parte do meu processo de morar sozinha num país estranho. “A Carol? Está assim porque mudou muito. Agora ela é assim, forte e segura. Bom pra ela, está crescendo”. Mesmo que, no fundo, existisse um desconforto com esse meu suposto crescimento, até nessa questão eles me apoiaram. Minhas raízes são sólidas.

Cresci muito. Mudei, mas não tanto. Não me transformei numa pessoa distante. Pelo contrário, me tornei mais próxima dos outros, a partir da proximidade comigo mesma. Até estar em família… Tão difícil colocar em prática com eles tudo o que aprendi nesses últimos meses… Já disse Sua Santidade, o Dalai Lama: “Você acha que é espiritual? Tente ficar duas semanas com seus pais.” É, eu fiquei. E muitas camadas da cebola apareceram. Muitas camadas de muitas cebolas. Tentei não descascá-las pra não chorar. Até o jantar de hoje, cujo cardápio foi salada de cebola, ensopado de cebola, cebolas ao curry e doce de cebola. Pra beber? Suco de cebola. Fizemos o que não me lembro de termos feito antes.

Conversamos sem barreira alguma, sem medo da reação do outro, como é de praxe entre famílias nas quais o amor fala mais alto que a razão. Na minha, o amor é tanto que muitas vezes deixamos de falar sobre determinados elefantes brancos com medo de machucar o outro. Hoje conseguimos conversar como adultos, com o coração aberto, sem amarras ou mágoas. E ninguém se machucou. Percebemos questões não fáceis de lidar e todos sobreviveram. Não foi simples. Todas as conversar profundas que tive dos últimos tempos se transformaram em papo de botequim. Moleza conversar com o coração absolutamente aberto com quem você conhece há poucos meses. Quantas questões intrincadas podem existir? Vai tentar fazer o mesmo com quem você se relaciona há anos, vidas? Felizmente, as cebolas foram descascadas dessa vez. Muitas cebolas. Fizeram a viagem valer. Com a reatividade deixada de lado, pudemos conversar com honestidade e amor incondicional.

Escutamos, processamos e respondemos. Não é que minha família seja barraqueira ou coloque tudo pra debaixo do tapete, mas numa viagem de dez dias depois de seis meses sem se ver, você quer ter cuidado com o que diz, pra não criar mal estar ou arrependimentos. Conseguimos. Não só entendemos o que aconteceu entre nós nos últimos dias como compreendemos os processos de cada um e estabelecemos uma nova comunicação, mais limpa e sem barreiras.

Eu entendi que mudei mais do que eles. Meu tempo e compreensão de mundo mudaram. Os deles, não necessariamente. É complicado eu querer me relacionar com minha família de acordo com minha nova maneira de me posicionar no mundo porque eles ainda funcionam, como organização familiar, da maneira que funcionavam quando eu saí de casa. E esperam, com toda a propriedade, que eu me relacione com eles daquela maneira. Foi assim por anos, não posso querer que entendam essa nova atitude frente a relações, essa coisa de “meu processo é meu processo, seu processo é seu processo.” Eles esperam que eu pergunte sobre determinado assunto. E eu espero que, se eles quiserem contar, que contem. Porque precisam que eu demonstre interesse a priori se desejam me falar algo?Porque não podem falar por livre e espontânea vontade? Mas também, porque eu não pergunto? Voltamos pra minha questão de estabelecer distância pra não lembrar como é delicioso estar com eles, como somos uma família especial. Quem nasceu primeiro? O fruto ou a semente?

Estou feliz que o diálogo, profundo e descascador, tenha sido levado com tranqüilidade. Foi um exemplo maravilhoso da possibilidade de comunicação limpa que nossa família pode ter. E foi esse meu pedido: que possamos perceber como crescemos como família e indivíduos quando conversamos com clareza e calma. Trouxe a eles o lema da minha saga: Nenhuma situação vem por acaso. Nosso papel é percebê-la e tirar proveito intelectual, emocional e espiritual de tudo que nos acontece. Assim crescemos. Como indivíduos e família. Porque, se todos nós lidarmos com nossas famílias como um micro-cosmos da maneira em que acreditamos que o mundo deva funcionar, grande parte dos problemas mundiais estarão resolvidos. E, mais importante: se conseguirmos fazer isso com sucesso, precisaremos criar novos empregos pra todos os psicanalistas. “Seja a mudança que você quer ver no mundo”, disse também Dalai Lama (será que o budismo está me pegando de jeito?)

Comece por você mesmo e sua família, por mais complexo que possa parecer e efetivamente ser. A dificuldade é proporcional à recompensa individual e coletiva.

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5 respostas para Raízes profundas, frutos deliciosos

  1. Sofia disse:

    Jantei, so, de frente para o computador lendo e segurando lagrimas! Como gostava de te conhecer!!! Sinto tudo… e é tao lindo! Obrigada Carol… num dia nao muito facil, o teu amor e o da tua familia atravessaram o ecra do computador e tocaram meu coraçao! Correm lagrimas… é lindo de mais!

  2. Ana Loureiro disse:

    Carol, como é lindo o seu texto!!!!Emociona, faz pensar profundamente nas nossas relações também. Estou honrada de ter sido sua professora e, quem sabe, poder tê-la ajudadado, por um milésimo que seja, na sua formação acadêmica. bjs

  3. Ana Loureiro disse:

    Carol, como é lindo o seu texto!!!!Emociona, faz pensar profundamente nas nossas relações também. Estou honrada de ter sido sua professora e, quem sabe, poder tê-la ajudadado, por um milésimo que seja, na sua formação acadêmica.

  4. leticia binenbojm disse:

    Legal Carol, muito sensível e bem escrito como sempre!

  5. Iaci disse:

    Amei, e como sempre, derramei milhoes de lagrimas!! lindaaaaaaa❤

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