Eu capunco, nós capuncamos

Cheguei no hotel em que vou pernoitar esperando o vôo para Bali. Eles pegam o avião hoje. Liguei a televisão imediatamente, depois de muitos meses sem. Porque liguei? Pra suavizar a solidão que bate depois de duas semanas no calor familiar.

Depois da conversa de ontem, tudo se suavizou, ao mesmo tempo em que a despedida se tornou mais difícil. Porque baixei a guarda. Que delícia é se relacionar sem escudos ou armaduras! A vida fica leve e feliz. Sim, tem seu preço. A saudade aumentou em vez de diminuir, porque lembrei como é gostoso estar com eles. Seis meses se passaram, quantos mais tenho pela frente? Não sei. Eram pra ser mais seis, mas será que consigo?

Aprendi muito nesses últimos dias. Aprendi que ainda tenho muito pra aprender. Fácil ser sustentável e espiritual num lugar onde todos acreditam nos mesmos princípios que eu. Ubud é quase uma bolha. Linda, cheia de contentamento e magia. Mas uma bolha. Eu escolho as pessoas com as quais quero me relacionar com base na minha nova visão de mundo. É fácil levar a vida que levo sem confrontação. Não emergem sentimentos não confortáveis entre pessoas que concordam com quase tudo. E, se emergem, são facilmente superados. De novo, o quão difícil pode ser resolver uma situação incômoda com alguém que você conhece há pouco tempo?

O exercício familiar nesse sentido é mais complicado. Como não julgar quando eles pedem sacolas plásticas para carregar as compras de supermercado se, a meu ver, existe espaço sobrando na bolsa? Compaixão, Carol, compaixão. Eles fizeram o melhor que podiam, querem as sacolas só pros alimentos que estavam na geladeira. Mas eles não precisam nem dessas! Será que estou xiita ou só ecologicamente correta? Onde está meu caminho do meio?

Novamente, o Dalai Lama dá o tom (é o clima budista da Tailândia me pegando de jeito…): “A compaixão tem pouco valor se permanece uma idéia; ela deve tornar-se nossa atitude em relação aos outros, refletida em todos os nossos pensamentos e ações.” Praticar a compaixão mesmo quando você discorda das pessoas que você mais ama no mundo. Parece fácil, mas é paradoxalmente difícil, porque você imagina que eles tenham as mesmas verdades que você. Afinal, te criaram. Como podem ter outra visão de mundo? Como podem ter outras prioridades? Compaixão e amor incondicional não necessariamente andam juntos. Deveriam, mas nem sempre dão as mãos.

A diferença entre a família é linda. Meus pais sempre deixaram muito claro que um dos maiores orgulhos deles é ter três filhas tão diferentes entre si. É lindo ver como temos prioridades muito distintas, mas os valores essenciais são os mesmos. E, como estou assumidamente imersa no clima budista, trago um último (prometo) ensinamento do Dalai Lama: “Dê a quem você ama: asas para voar, raízes para voltar e motivos para ficar.”

Minhas asas estão cada vez maiores, minhas raízes cada vez mais profundas e meus motivos pra voltar cada vez mais fortes. Mais seis meses? Tinha certeza que dava. Já não sei mais. É muito bom estar em família. Por mais desconfortável que o conforto possa ser. O exercício é não deixar o desconforto ser confortável, trabalhando na relação familiar. E tem maneira melhor de crescer? Amar sua família incondicionalmente, independente de diferentes visões de mundo, exercitando a compaixão em todos os níveis.

Em tailandês, obrigada é kop-kun-ka. Na língua própria da mamãe é capuncá.

Eu capunco por todos os momentos de gargalhadas, tagarelices, silêncios, confortos e desconfortos. Foram todos lindos e essenciais para nosso crescimento. Que os próximos meses passem rápido, muito rápido!

Hugs are all we need!

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Uma resposta para Eu capunco, nós capuncamos

  1. marilia disse:

    Carol, gosto muito de acompanhar seu blog, é como se tivesse a oportunidade de viajar virtualmente . E, a maneira como você interpreta e conta a vida é muito interessante, admiro sua maturidade e espiritualidade, um olhar profundo e amplo.
    Muitos parabéns para você, que seja muito feliz e encontre o seu caminho em cada passo.
    Existe aqui no Rio, um programa ´No Caminho´, na tv à cabo Net canal 42 em que a moça, acho que Susana viaja pelos países asiáticos, sozinha e ela é muito corajosa, está sempre buscando lugares onde hajam tradições religiosas, culturas tradicionais e místicas. Muito legal !
    SEja muito feliz, Marilia Puga

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