English? Nô. Tape Recorder? Nô inglis, sóri…

Faz parte do projeto “Começar a preparar a volta” comprar um gravador digital. É que escuto tantas histórias dignas de matérias que não quero voltar pro Brasil e me arrepender de não ter gravado algumas entrevistas quando a Piauí me contratar como colaboradora ou a Editora Abril resolver comprar três artigos meus por mês (co-criação, ativar!). Estou começando a preparar as cartas na manga em bsca de uma chegada fluida e produtiva.

Então hoje foi dia da saga “Em busca de um gravador digital em Bali”. De cara, sabia que não seria fácil. Se eu quisesse uma limpeza do cólon ou uma hipnose com regressão pra vidas passadas, teria que escolher entre cinco opções. Mas pra achar um gravador digital teria que rebolar. Em Ubud sabia que não encontraria. Peguei a motoca e me dirigi pra Gianyar, uma cidade quase vizinha de Ubud que tem um grande mercado, o Hardy´s.

Eu nunca havia ido praquelas bandas e a única referência que eu tinha era virar á direita no único posto de gasolina de Ubud. Deixei pra ir mais pro fim da tarde, o calor tá de matar. Virando a direita no tal posto e dirigindo por uns 5 km, parei numa oficina mecânica pra perguntar se estava no caminho certo. English? Nô. Gianyar? Ele aponta pra frente e dá a entender que devo seguir toda a vida. Assim o faço. Surpreendentemente, placas indicam a direção certa. Acho que foi a primeira vez que vi sinais de trânsito e placas de sinalização em Bali fora de Denpasar, a região mais populosa e “moderna” da ilha.

Uma condecoração rebuscada entre as árvores me tranqüiliza: “Salamat Jalan. Gianyar”. Seja bem vinda. Agora só preciso achar o tal do supermercado. De novo, paro no acostamento. Dessa vez falo com o dono de uma loja de celular. English? Nô. Hardy´s? Ele aponta pra frente e dá a entender que devo seguir toda a vida. Assim o faço. Nem precisava ter perguntado. Cinco minutos depois, bandeiras enormes indicam que cheguei. Paro a motoca no estacionamento errado, é alguma repartição pública ao lado do Hardy´s. Deixo estar. Vai dar muito trabalho mudar de lugar, o calor ainda está brabo, estou preguiçosa e grudenta, apesar de ter tomado banho logo antes de sair de casa e de ter passado a última meia hora no vento da moto. Bali.

Entro  e olho pros lados, meio sufocada pelo teto direito baixo, a iluminação fraca e as araras socadas com calças jeans e regatas listradas de cores fluorescentes. Sapatos, bolsas, roupas, brinquedos, mochilas, material de escola, fliperama, casa de sucos, balineses e eu. Sou a única branca debaixo da luz branca. Percebo que a saga está prestes a ficar mais complicada. English? Nô. Eletronics? Ele aponta pra cima e dá a entender que devo subir toda a vida. Assim o faço.

Antes de subir os três lances de escada, avisto a placa “Eletroniks” no 2º piso. Chapinhas, liquidificadores, lâmpadas, secadores de cabelo, adaptadores e forninhos ocupam as mesmas prateleiras. Nada do gravador. Muito menos digital. Uma atendente se aproxima. English? Nô. Agora ferrou. Tape recorder? Sei pelas sobrancelhas delas que ela não entendeu. Finjo que a estou entrevistando, tentando brincar de mímica. Coloco minha mão esquerda perto da minha boca, depois perto da dela e depois no meu ouvido. Yes! Oba! Ela tem, que bom! Ela vai até a prateleira e volta com um… microfone. Tidak, tidak. Não é isso que quero. Not microfone. Tape Recorder. Journalist! Ela chama outras três pessoas pra tentarem ajudar e todas riem da situação “gringa suada que não fala balinês tenta se comunicar com locais impecáveis que não falam inglês sobre um produto que obviamente não existe ali”. Nô. Sóri. Maybe outside.

Sigo pro corredor de produtos de limpeza. O detergente de casa acabou e a pilha de louça suja está vergonhosa. Mas qual dentre esses setenta e oito produtos com cara de detergente devo levar? Pego um com um copo no rótulo. Uma funcionária passa do meu lado. English? Nô. Soap for dish? Ele aponta pra frente e dá a entender que devo seguir toda a vida em frente até o próximo funcionário. Assim o faço. Yes, can I help you? Yes!!! Is this soap for plates and forks too? Ele olha pro rótulo, pega da minha mão, lê a frente e o verso três vezes e diz “Yes, glass soap.” Porra! Tô aqui suando em bicas e você me dá a informação que consigo ler no rótulo? Glass, fork and plate?, pergunto, enquanto aponto para pratos. Yes! Ele sorri. Finalmente, um a zero eu.

No caixa,pago pelo detergente e vou lá fora ver o que o “Maybe outside” significava. Encontro uma loja de máquinas fotográficas. De novo. . English? Nô. Tape recorder? Depois de chamar duas pessoas pra tentarem se comunicar comigo, ela fala “Maybe Loko Central”. Sete horas de trabalho de parto depois, entendo o que é Loko Central e onde fica. Vou até lá de moto. Um aglomerado de lojas de eletrônicos. Entro em cada uma delas.  Tape recorder? Nem pensar.

Volto pra estrada e, com a poluição na cara, avisto uma lojinha que me parece ter o que procuro: Computer and Laptop. Paro. English? Yes, how may I help you, ele pergunta. Mal acredito! Mesmo sem gravador pra vender, fico feliz. Finalmente, inglês. Pergunto tudo que preciso e mais um tanto. Ele até escreve em balinês o nome da loja onde eu provavelmente vou achar o maldito gravador. E me ensina que loko é loja. Ele fica tão feliz com meus elogios a seu inglês que liga pra um amigo pra confirmar se acharei nessa outra loja em Denpasar. Ok, é oficial. Terei que ir a cidade que mais abomino pra achar o gravador digital. E talvez tenha que me contentar com um analógico.

Saio da loja com uma nova resolução. Se é pra estar na merda, é pra aproveitar o cheiro ruim. E foi assim que minha missão dada e não cumprida se transformou num safari fotográfico em uma estrada poluída, motos e mais motos, personagens interessantes e lojas decadentes no acostamento.

Cheguei em casa cheia de fotos, detergente e ovos pra fazer a mistura de pão de queijo que meus pais trouxeram pra mim. O dia terminou com a mulherada reunida e eu apresentando uma comida típica do país que elas agora têm tanta curiosidade pra conhecer. Agora é hora de fazer a digestão antes de ir dormir, já que é muito difícil adormecer depois de botar 15 pãos de queijo pra dentro. Depois dessa orgia, amanhã começa o detox: 5 dias de verduras, legumes e frutas pra limpar o organismo.

"Cheese bread" - a orgia da noite

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3 respostas para English? Nô. Tape Recorder? Nô inglis, sóri…

  1. denise disse:

    e agora, coragem par air a Denpasar?? Como vc vai arrumar um gravador? Tô que Tô gostando.
    bj!

  2. fernanda disse:

    Eu falo ingês mas também não pderia te ajudar. Afinal, o que é um gravadr digital?

  3. Paula disse:

    Mesmo em Bali há lugares desagradáveis, quem diria…. Eu não diria!
    Espero que a saga em busca de um gravador termine num final feliz!

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