Lições valiosas

Depois de comer um cupcake gluten free no café da Soma, eu ainda tinha tempo até o jantar de despedida da Hanna. Fui dar uma volta de scooter no fim de tarde. Dirigindo em direção norte de Ubud, em 5 minutos eu já me afastava da civilização oriental ocidentalizada e entrava no visual campos de arroz, galinhas e senhoras fazendo as necessidades nos riachos que margeiam a estrada. Respirei feliz. Keep calm and ride on.

Até que um por do sol magnânimo atrás de um campo de arroz plano me chamou.

Apoia a câmera numa pedra, coloca o timer, corre e clic! Volta pra ver se a foto ficou boa. Três tentativas depois, escuto: “where do you go?”. É uma mulher balinesa, lá pelos seus quarenta e poucos anos (ou será trinta? o sol castiga quem trabalha na lavoura…) se dirigindo a mim. Minha primeira reação foi “ela está cabreira que entrei na propriedade dela”. Respondi “jalan, jalan”, estou só andando. Nós duas tínhamos acabado de usar 20% de todo nosso vocabulário. Ela em inglês, eu em balinês. Mas achamos que conseguiríamos nos comunicar. Ela falava na sua língua nativa, eu respondia em inglês. Mas eu poderia ter respondido na minha língua nativa também.  Não teria feito a menor diferença. Não nos entendemos. Tudo que pude compreender foi “coco” e “casa”. Ela não estava incomodada com o fato deu ter entrado na sua propriedade ser ter sido convidada. Inclusive, estava me convidando para tomar uma água de coco na casa dela, enquanto apontava pro casebre no outro lado da plantação.

Mesmo achando que ela queria mesmo era dinheiro em troca do coco, valia a experiência. Lá fomos nós, Carolina (ou Calorina, segundo ela) e Made. A casa é muito humilde, com colagens e inglês nas paredes e jornais como persianas. Made fez questão de estender no chão da varanda um pano azul cheio de pêlos caninos pra eu sentar. Mas eu quis ficar do lado dela e sentei no cimento mesmo, deixando o pano pro cachorro se esparramar.

Ibu Wayan, sua mãe, traz o coco pra mim e me dá de presente um sorriso largo, genuíno e desdentado. Suas rugas são profundas na pele firme e escura. Marcas de sol. A família é de uma casta baixa, trabalham no campo. Agradeço a Ibu, bebo um gole do coco e ofereço ás duas, que recusam. Tudo numa língua que desconheço. Olhares, gestos, sorrisos, gargalhadas e posturas são os únicos meios de comunicação nos quais podemos confiar. Sentamos as três em silêncio, fazendo comentários esparsos sobre a tapioca, os pássaros e o sol – pelo menos foi isso que entendi. Mostramos fotos de nossas crianças.

Subitamente, a expressão das duas muda. Iluminam-se, sorriem com todo o corpo. Olho pra trás. A criança delas chegou. Wayan é linda e tímida. Está desconfiada da branquela sentada na sua varanda. Até que a branquela lembra do cupcake sem lactose que comprou pra sua companheira de casa, que é alérgica a leite. A caixa é lindinha. Estendo-a para Wayan, que abre e vê lá dentro um bolinho marrom com a cobertura faltando. É que o topping do cupcake levava leite e não resistiria ao calor. Comi antes de colocá-lo na bolsa. Com cobertura ou sem cobertura, ela se deliciou. “Chocolate”, outra palavra universal. Dar uma máquina fotográfica na mão de uma criança também traz resultados incríveis, emocional e esteticamente falando.

Cupcake vai, fotos vêm, sol se põe, mosquitos chegam. Elas não param de me oferecer comida: durian (uma fruta fedida típica da Ásia) e milho. É tudo que têm e tudo que oferecem. Oferecem tudo que têm. Agradeço. Não sei como consigo entender que o pai ou marido de Made está dentro do quarto. Recém sofreu um infarto e está com um lado do corpo paralisado. “Did he go to the doctor?”, pergunto. Um ponto de interrogação na testa dela, que responde sem nem mesmo entender a pergunta. E eu não entendo a resposta. Pego um papel. Desenho o senhor dentro de um carro e coloco uma seta levando à palavra “klinik”, que é a grafia balinesa para clínica, ou hospital. Nem assim ela entende. Ligo para Hannah, que trabalha numa clínica com gratuidade para locais. Ela passa o telefone pra um médico falar com Made em balinês.

Ela não faz a menor idéia do que está acontecendo. As sobrancelhas estão franzidas quando entrego o celular pra ela, que não sabe o que fazer com aquilo. Coloco o aparelho no ouvido dela, que não consegue entender o que o médico diz. Ligo o viva voz e a situação melhora. Made está com o telefone no ouvido, respondendo a todas as perguntas do médico. Ela poderia estar falando que uma louca apareceu na casa dela e tudo o que ela quer é que a branquela deixe dinheiro logo e caia fora dali. Eu nunca saberia. Ela desliga, sem imaginar que eu gostaria de falar com o médico. Hannah me liga de volta e diz que está tudo bem. Que apesar deles não terem dinheiro para pagar um taxi para ir até o hospital, o médico da aldeia já havia visitado a casa.

Está escurecendo. É hora de ir. Não sei se ela espera algo em troca. E se eu oferecer dinheiro e ela se ofender? E se eu não oferecer e ela ficar com vergonha de pedir? A barreira cultural é alta, muito alta. “Made, do you need anything?”.  Mesmo após 2 horas de tentativas frustradas, ainda acho que ela entende inglês básico. Nada. Papel e caneta. Desenho duas mulheres: Made e Calorina. Made – seta – coco – Calorina. Calorina – seta – interrogação – Made. Fico nessa por mais 10 minutos, tentando entender se ela precisa de alguma ajuda específica. Um carro para levar seu pai (ou marido) ao hospital? Comida? Roupas? Aulas de inglês? Dinheiro?  Por fim, apelo. Pego minha carteira e faço menção de dar dinheiro àquela família tão pobre, mas tão rica. “Tidak, tidak!” Não, não.  Made coconut Calorina. Calorina chocolate Wayan. Estamos quites. Mas ainda assim quero oferecer algo em troca. Lembro das fotos que tirei delas e do mural ao lado da porta.

Calorina bring photo. Tidak sabtu, tidak minggu, next week. “Apabila?” ela pergunta. Quando? Levanto os ombros, com cuidado de não dar datas e horários específicos. Balineses são conhecidos por cumprirem com seus compromissos. Não queria fazer uma promessa e não cumpri-la. A irmã de Made vem com um calendário nas mãoes. Circulo segunda, terça e quarta feira. Ela me diz que está em casa só a tarde e a noite (e eu consegui entender!). Fica combinado. Semana que vem venho entregar a foto.

Despeço-me saudando-as com as palmas unidas em frente ao coração. Beijo as mãos de todas, sabendo que não é um costume local mas querendo que entendam toda minha felicidade e gratidão. Elas sorriem. Vou andando e Made me acompanha.

No caminho até a moto, alguém toca violão. Paramos para escutá-lo. E não é que o músico balinês fala inglês? E, como um passe de mágica, tenho um intérprete. Ele me escuta e traduz: “Ela está muito feliz que os conheceu e que você a convidou para conhecer sua família e sua casa. Gostaria de saber se você precisa de algo antes que ela volte aqui com a  foto. Médico?” Eu precisava checar. Depois da resposta dela, eu escuto a resposta de Made traduzida: “O coco foi um presente. Ela está feliz que você tenha ido á casa dela e conhecido a família toda. Foi um presente porque ela gosta de você”.

Finalmente entendi a mensagem. Você tem muito mais a me oferecer do que eu a você.  Você me oferece a possibilidade de sentir gratidão pura e simples pelas pequenas bênçãos do dia, além de ser PhD em generosidade. Não consigo pensar em lição mais valiosa naquele momento. Dou um abraço nela antes de ir embora, mas ela não sabe muito bem como recebê-lo. Abraços não são costumeiros por essas bandas.

Olho meu celular. Mensagem da Hannah: “You want to be here”. Ela está no trabalho, a clínica sem fins lucrativos Yayasan Bumi Sehat, que desde 2003 proporciona à comunidade local tratamentos gratuitos como acupuntura, yoga para gestantes  e partos humanizados, entre outros. A fundadora da clínica, a americana radicada em Bali Robin Lim, estava voltando dos Estados Unidos naquela noite, após ter sido premiada com o CNN Hero of the Year. Em Ubud não se falava de outra coisa. Uma clínica tão pequena que faz tanto pela comunidade receber um prêmio grandioso como esse não é algo que os balineses estão acostumados a ver. Sim, eu quero estar lá. Corro pra clínica. Estou escrevendo uma matéria sobre partos humanizados e aquele era um fato jornalístico imperdível.

Chegando, dezenas de orgulhosas balinesas estão enfileiradas e uniformizadas em seus sarongs e camisetas amarelas (oferecidas por Bumi Sehat como parte de uma campanha pelo exercício físico. Todas a espera de Ibu (mãe) Robin. Hannah e Juliana (as duas moram comigo e trabalham lá) estão felizes em me ver. Sabem como estou apaixonada pelo tema. Flores, arranjos típicos, expatriados e locais reúnem-se para recebê-la. A clínica ganhou centenas milhares de dólares com o prêmio e vai construir uma nova sede.

Cheguei lá na hora certa. Se tivesse demorado mais cinco minutos, teria perdido a recepção. Ibu Robin chega com seu cabelo amarrado por uma enorme presilha bordada com o logotipo da clínica, num rabo de cavalo que vai até seus quadris. Abraça todos em meio a aplausos. Todas as centenas de pessoas foram cumprimentadas por ela. Eu, que nunca havia tido contato direto com essa mulher de coração enorme, ao receber seu olhar no meu, não consegui segurar as lágrimas. Ibu Robin faz tanto por sua comunidade com tanto amor que todos os poros de seu corpo transbordam esse sentimento.  Ela toca a todos com amor e gratidão genuínos. Impossível não se sentir abençoado em sua presença.

Foi um dia de amor. Puro amor pela simples sensação deliciosa que preenche seu corpo quando você ama. Sem querer nada em retorno. Depois de encontros com Made e Ibu Robin, compreender a expressão “Amar o próximo” não é mais uma questão de entender. E sentir.

Dia de esperança na humanidade. Acreditar que gestos pequenos como convidar um estranho para sua casa podem ser tão grandiosos quanto abrir uma clínica em prol de partos humanizados – ou gentle births – que construam uma humanidade mais humana. Dia de entender que todos temos o poder de mudar a vida dos que nos cercam com uma palavra ou toda uma existência, desde que sejam oferecidas genuinamente e vindas do coração.

Dia para lembrar que, com amor e dedicação, uma só pessoa pode fazer uma enorme diferença no mundo. O que eu estou fazendo? Nas palavras (em tradução livre) de minha amada Julianna, isso é o que estou fazendo:

Percebendo minha verdadeira paixão, um dom só meu. Aprendendo a ouvir meu coração. Seguindo meu coração. Encontrando trabalho que me apaixone e que não pareça “trabalho”. Cuidando bem do meu corpo, mente, espírito. Estando presente mesmo nos desafios. Cuidando dos outros. Vivendo meu sonho. Sonhando alto. Tendo fé que tudo vai dar certo. Lembrando que essa missão não é só minha, é de todos nós. Estamos todos conectados e temos o poder de empoderar e ajudar uns aos outros, construindo assim um mundo melhor.

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5 respostas para Lições valiosas

  1. Papai disse:

    Que dia !!!!!!!!
    E o melhor é que voce está aí para vivê-lo e poder contar para nós.
    Beijos
    Papai

  2. Sofia disse:

    Gratidao Carol, mais um vez GRATIDAO! Que bons momentos para partilhar!

  3. Iaci disse:

    Lindo! Eu e minha mãe choramos! Duas coisas: quero ir lá com vc e quero fazer aula de moto pq tb quero uma rsrsrs to chegando uma semana

  4. Ola Carol,

    Voce nao me conhece mas aqui vou me apresentar: Meu nome e’ Karina, tenho 31 anos e moro Whistler, BC – Canada – e sim! Sou brasileira mas ja estou no Canada a quase 5 anos, moro em uma estacao de esqui e vivo rodeada de montanhas e neve e no verao, rodeada de ursos, lagos maravilhosos, bicicleta, frutas frescas, etc… A vida por aqui e’ uma delicia, segura e tranquila… sou casada, nao tenho filhos, pratico yoga🙂, sou feliz e cuido bem do meu corpo, mente e espirito. Sera que ‘e por isso que eu me identifico muito com vc ?! (rs).
    Conheci seu blog atraves do programa Caminhos Alternativos na CBN e depois disso venho te acompanhando religiosamente😉

    Bom, a intencao da minha mensagem e’ dizer a voce que eu gosto muito do seu blog e de suas emocionantes historias (e claro, vc escreve MUITO bem… wow!).
    Adorei o texto – LICOES VALIOSAS – quanto amor nele foi expressado. Eu sou uma verdadeira fã do AMOR, esse “danado” me conquista diariamente, enche meu coracao de fortes emocoes, me faz rir, chorar, comemorar e me obrigada a querer dividi-lo com meus amigos, familia e com as pessoas em geral.
    E sabe de uma coisa? Eu ainda nao tenho um ingles perfeito, acho mesmo que nunca vou ter, eu falo bem, me viro bem, trabalho falando ingles mas ainda tenho meus obstaculos. A realidade ‘e que eu aprendi aqui (assim como notei no seu texto) que falar a mesma lingua que o outro que esta a sua frente ajuda bem a comunicao entre ambos, mas definitivamente nao ‘e o necessario. Ja a lingua do amor fala muito, muito mais alto e vai mais a fundo, ela nao somente fala como ela toca, ela produz ao que locutor e ao receptor uma sensacao de presenca, de atencao, causando aquele sentimento do querer bem e vai provocando aquela energia gostosa.
    E e’ nessa onda que eu vou levando a minha vida por aqui, tenho meus erros gramaticais quando o assunto e’ o tal do “ingles” (rs) porem esses erros sao rapidamente perdoados e as vezes imperceptível todas as vezes que os meus olhos se cruzam com os olhos daquele que eu abordo, e isso acontece pelo simples fato de eu fazer isso com – e por – amor.
    Aaaah! eu amo o amor🙂

    Muito amor para voce, para a sua amiga Iaci que logo esta chegando, para a sua famila e muito, muito amor para a sua vida e sua alma.

    Que o seu protetor divino esteja sempre contigo.

    Beijos, Karina

    • Carolina Bergier disse:

      Karina! Que delícia saber que vc está me acompanhando! E o melhor, cheia de amor no coração… Vamos espalhar essa mensagem em português, inglês, espanhol, francês, latim, hebraico ou… na melhor de todos esses idiomas: a linguagem do amor. Que um abraço verdadeira pode mudar muita coisa. Um abraço no seu coração e continue por aqui, que ainda terei muita história pra contar!

      Amor pra nós duas e pra nós Todos!

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