Uma meNina em família

24 de dezembro. 24 de dezembro? Cadê as luzes, o consumo desenfreado, a ansiedade de tomar a decisão “o que fazer na virada?”, a melancolia? Estou numa cidade nova era, numa ilha hindu, num país muçulmano. Que delícia é não participar dessa obrigação de fechamento de ciclo quando estou no meio de uma série deles. Natal? Esses são os motivos natalinos que me cercam:

Na aula de yoga: “O Natal é a festa mais falsa que já se inventou. Tudo é falso: o motivo de ser, Papai Noel, as compras.”

Na feira de alimentos orgânicos: “Meus filhos não têm Natal. Nunca falei nada sobre Papai Noel pra eles. Não quero ser exemplo de mentiroso. Além disso, pra quê criar um trauma quando eles descobrirem que o velhinho não existe?”

Na escola: “Eu não dou presente de Natal pros meus filhos. Não quero incitar o consumismo. E, como eles cresceram com isso, nem ficam chateados quando os amigos ganham toneladas de presentes. Se acostumaram. Se acostumaram também a receber um mega presente da vovó.”

Na varanda de casa (essa fui eu quem falei, assumo): “Concordo com a coisa de não encher sua família com presentes de Natal. Por mais delicioso que possa ser dar e receber, quanto dinheiro, quantos recursos naturais! Porque não aproveitar a noite do dia 24 pra fazer o próprio presente? A família toda junta praticando reciclagem, coisa linda! Até porque, a criança acaba gostando mais do pacote mesmo…”

Nesse espírito não natalino (quase anti-natalino, eu diria), fui ontem, dia 23, a um café trabalhar. Estava precisando de uma injeção de cafeína pra finalizar umas pendências. Conversava com um expatriado que me contava que desde cedo se acostumou a viver de país em país desde cedo. Seus pais têm uma ONG e nunca passaram mais de 2 anos em cada lugar: Malásia, Filipinas, Indonésia, Tóquio. Hoje mora sozinho em Ubud e fala com a família uma vez por mês. No meio desse papo…Triiiiiiimmmm, meu telefone toca. (Esse não é o barulho que ele faz, mas achar uma onomatopéia que vocês pudessem entender que era um celular tocando estava muito difícil.) Era minha mãe. Não nos falávamos há uns 5 dias e já era tempo demais. Eu e ele rimos da ironia da situação enquanto eu matava um pouquinho das saudades que são muitas.

Mais tarde, minha família se reuniu no Rio pra celebrar a vida. E eu estava lá, mesmo que virtualmente. (Deus abençoe o Skype!) Chorando, rindo, me emocionando com tudo o que se passava do outro lado da tela.
E em meio a lágrimas de felicidade – e uma pontinha de tristeza por não estar junto deles – me dei conta. Natal não é sobre consumismo, luzes, presentes, amigo oculto. Esses são temas recorrentes nas rodas de ocidentais que moram em Bali possivelmente porque estamos todos longe do núcleo familiar. A questão “família” é deixada de lado. Eu definitivamente não me encaixo na categoria de viajantes “pra mim é fácil estar longe dos meus pais e irmãos”. Não é nem um pouco fácil. O coração dói. Mas o fato da dor ser tão grande me traz a tranqüilidade de saber da profundidade de minhas raízes. É reconfortante saber que tenho pessoas para as quais eu sempre vou voltar. As pessoas que mais amo nesse pequeno grande mundo.

Natal é a festa de se celebrar a vida em família. Sou judia e, durante o ano, sou abençoada por vários Natais. Família reunida em torno de uma mesa. Falando besteira, comendo demais, contanto novidades e fofocas. Mas sabe? Não importa o que acontece ao redor da mesa. Porque, no centro dela, o enfeite mais lindo do mundo. Os corações todos unidos. Com ou sem atritos, o amor está lá. Incondicionalmente lá. E aqui.

Nesse Natal estou longe de tudo. De luzes, shoppings, reuniões, árvores, velhinhos barbudos. Nada disso me importa. Estou longe da minha família. Longe, muito longe. Mas ontem me senti mais perto do que nunca. Inclusive, em alguns dias que estava fisicamente perto deles me senti mais longe do que ontem. Vê-los reunidos e felizes, celebrando um momento de pura vida e luz me trouxe pura vida e luz. Meditei longamente sem nem perceber o tempo passar. Conectei-me com cada um deles, os muito novos, os novos, os não tão novos e os absolutamente não novos. E ali, reunidos em torno de um só coração, comemoramos juntos a vida.

Nesse Chanutal (Chanuká + Natal), quero mesmo é agradecer pela minha família. Que tenhamos cada vez mais motivos pra celebrar a vida e a luz. Ou melhor, celebremos sem motivo algum.
Feliz Chanutal!

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