Que rufem os tambores… a vidente vai falar asneira sobre minha vida

Tudo começou com um rufar de tambores. “É pra chamar os espíritos”, ela me diz. Desde que cheguei em Bali, todos comentam dessa senhora semi-obesa, que, lá pelos seus cinqüenta e tantos anos , é supostamente uma poderosa  vidente. Com esse nome, White Star só poderia ter essa profissão. Eu não me interessei  antes por uma sessão com ela (US$35, uma hora) porque todos os relatos, apesar de contatos com muito entusiasmo, me pareciam o mesmo: “Você será uma pessoa de cura, vai encontrar seu grande amor e terá sucesso financeiro, mas tome cuidado com essa pessoa.” Mas, como estou atrás de pautas interessantes, hoje fui até sua casa escutar os tambores e os espíritos.

Eu sou daquelas que acredita em (quase) tudo, desde que minha intuição sinta um cheiro agradável. Medito diariamente (ou tento), pratico yoga, uso um japamala (aquele colar hindu e budista de continhas), leio tarô, converso com minhas pedras, consulto minha bola de cristal (sim, elas existem!!) e tenho facilidade em me conectar com vidas passadas (sim, elas também existem!). Ou seja, eu acredito em bruxas! Então, quando cheguei no consultório da White Star, estava disposta a acreditar em tudo o que ela me dissesse. Até que minha própria intuição me provasse o contrário.

Estou a um mês de voltar pra casa, já com muitas certezas sobre minha vida. Então achei que ter alguém lendo meu futuro não me abalaria, já que minhas meditações têm sido muito claras quanto a que caminho devo seguir. Mas quando me deparei com uma sala cheia de tambores e penas xamânicas, três tipos de tarô, dois pêndulos, incontáveis pedras e uma bola de cristal, esqueci das minhas certezas. “Com tantos apetrechos, ela deve saber mais do que eu sobre minha própria vida.”, pensei.

Tudo começou bem. Com os tambores, a visão de um búfalo e de uma vaca sagrada. “Você terá êxito profissional com essa nova empreitada e muitas coisas boas estão vindo.” Começou bem, dizendo o que eu queria ouvir. Mas nada que eu já não soubesse. Ela tropeçou ao falar sobre sua segunda visão: “Você está numa canoa, entre dois precipícios. Um dos lados representa seu pai. Sinto uma energia pesada, negativa, dominadora. Você precisa se desvencilhar desses precipícios pra chegar ao outro lado, que é lindo, florido, com muita paz”. Ahm? Meu pai? Dominador? Negativo? Energia pesada? Meu pai é a pessoa mais generosa que já conheci.

A partir de então, eu só assimilava o que me parecia verossímil. Sucesso profissional, ok. Criar um creme natural que cura isso ou aquilo e fazer disso um negócio, not ok. Minha volta pra casa será próspera, ok. Você é muito boa com trabalhos manuais, not ok. Você está num processo de acordar seu terceiro olho, ok. Você vai se especializar com medicina ayurvédica, ou possivelmente ser uma professora de yoga. I don´t think so… Intuitivamente, continue fazendo o que está fazendo e confiando no que seu sexto sentido te diz. Ok, White Star, mesmo que isso signifique esquecer de 75% do que você acabou de me dizer?

Em momento nenhum desconfiei do talento daquela mulher, mas é muito perigoso falar sobre o futuro de alguém. Vai que ela interpreta errado ou que há alguma interferência? Ou pior, vai que eu sou uma daquelas pessoas que determinam suas vidas a partir do que videntes dizem? Eu acabaria cortando relações com meu pai e me mudando pra India. Sai de lá me esforçando pra separar o eu-jornalista do eu-eu. Se eu tenho clareza de todas as questões que envolvem minha volta e meu futuro próximo, porque me incomodou tanto ouvir coisas diferentes do que minha intuição dizia? De repente, ela está certa (tirando o absurdo sobre meu pai). Mas pra que eu quero saber o que acontecerá daqui a 2, 3 meses? Em momento nenhum ela me perguntou sobre o que eu gostaria de saber. Imaginou que uma jovem solteira teria como foco sua vida amorosa. Falou-me dos ex, dos atuais, dos futuros, dos filhos. E isso era exatamente o que eu não queria saber. Mesmo sem dar corda, ela voltava pra esse assunto. E eu lembrando da asneira sobre meu pai: “Carol, não confie no que ela fala, ela pode estar equivocada. O amor da sua vida pode não aparecer em abril, você pode não ir pra India em outubro e não ter um casal de filhos com um homem de cabelo encaracolado que possivelmente mora em Bali ou no Brasil cujo nome começa com N.”

Lembre-se que as respostas estão todas dentro de você e que isso não passa de material jornalístico. Ela não pode saber mais sobre sua vida do que você. E, mesmo que ela esteja certa em alguns aspectos, sempre existe o livre arbítrio. Vai que, em abril o tal cara esbarra em mim no meio da rua mas eu estou tão entretida falando no celular sobre meu projeto com um creme ayurvédico que nem olho pros córneos dele e decido ficar solteira pro resto da vida viajando pelo mundo, sem nunca passar pela India?

É como a Alice no País das Maravilhas. Seu “destino” era cair no buraco, mas uma vez lá dentro ela aproveitou do seu livre arbítrio para optar a porta que desejava explorar. A cada escolha que fazemos, outras infinitas se revelam. O exercício é estar em contato com seu coração e sua intuição para saber em qual das portas entrar, sem tentar controlar o que vai acontecer em seguida. E, cá pra nós, saber sobre o próprio futuro é como assistir ao filme “Sexto Sentido” já sabendo do final.

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6 respostas para Que rufem os tambores… a vidente vai falar asneira sobre minha vida

  1. Sofia disse:

    Mais uma vez, mexeu comigo!🙂 Bravo Carolina! Gratidao*

  2. Papai disse:

    Carol, sem objetivo de ser generoso (questionavel, tudo tem uma motivação egoistica, nem que seja a minha filha me achar a pessoa mais generosa do mundo), voce esta escrevendo bem paca. Estou lendo um livro que nós trouxemos da Tailandia, de um médico ingles que se mudou para Bangkok, se casou e teve dois filhos e tenta descrever os absurdos do dia-a-dia da sua nova vida. Voce escreve muito melhor que ele.
    Beijos
    papai

  3. Reginagina disse:

    Olá Carol,
    Concordo em gênero, número e grau com o seu pai. Você escreve muito bem menina! As suas aventuras são muito vivas através das suas palavras. E como o livro “Comer, rezar e amar”, da Elizabet Gilbert, você já leu? Parabéns e keep going!😉

  4. Carol, ca estou eu novamente, eu Karina🙂

    Adorei esse texto, eu tambem nao acredito em cartomantes, nao acho que ninguem e’ capaz de saber sobre o meu futuro. Alias, sinto uma certa pena das pessoas que pesquisam e confiam nas tais das “white star”. Pra que querer saber do que vai rolar no futuro? Nao e mais facil tentar concentrar-se no agora? O agora nem sempre e’ smooth, agora imagina envolver o futuro no historia…. rs. Nao da, muita coisa ao mesmo tempo nao!

    ….desejo uma intuição rica para todos nos. Um grande abraco.

  5. dani disse:

    eu adorei o site so que eu quero saber de minha vida meus deus acontecem terremotos na minha vida….

  6. leticia disse:

    nossa se assustei tenso@

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