A surtadinha pré-volta

Esparramada na cama mal arrumada com o computador no colo, no espaço que foi meu quarto pelos últimos meses. Nas paredes, fotos dos meus sobrinhos. Eles provavelmente já estão muito mais compridos do que quando elas foram tiradas. O durex já não segura com tanta firmeza a linda carta que meu cunhado me deu há 10 meses depois de me dizer “abra só quando chegar lá”. No canto do quarto, uma cadeira dá suporte pra mochila semi-pronta, com passaporte, dinheiro e passagens. Um biquíni jogado em cima da mesa espera por um último banho de sol. No chão, o tapete de yoga que será deixado pra próxima moradora, alguns grampos e revistas brasileiras trazidas como encomenda por cada um que me visitou. O mochilão pronto ao lado da porta, abarrotado. Na cabeceira, água, um colírio, kit de costura e aparelho de dentes. O nécessaire espera para ser preenchido amanhã depois do banho.

É, estou chegando. Tenho um pit-stop de 3 dias em Paris. Me pergunto porque fui programar a volta com essa escala. Quero ir pra casa! Os últimos dias foram preenchidos com tédio. Um olhar incessante pro relógio, querendo que chegasse logo a hora de ir pra cama. Ao deitar, rolava por uma, duas, três horas antes de conseguir pegar no sono. Tentei viver o presente. Consegui. Meu presente era nada mais do que uma espera. Um tilintar lento que não me dava a possibilidade de adiantar quase nada. Contatos profissionais ficaram em suspenso. Entro em um longo trânsito aéreo e chego no Rio no meio do carnaval. Não posso correr o risco de não conseguir cumprir prazos. A mala está semi-pronta há 3 dias. Já vi todos os filmes da videoteca coletada pelas dezenas de moradores que vêm e vão. Meditações inquietas, com visualizações de todos os lugares que quero visitar. Aulas de yoga sem profundidade em conseqüência das noites mal dormidas e da dificuldade de foco. Relações virtuais sem mais sentido criando discussões irreais em seu âmago. Vou te tocar em menos de uma semana, porque estamos tendo essa conversa pela tela do computador?

Paro de escrever e vou meditar. Estava entrando na espiral descendente de pensamentos repetitivos. Sentei na piscina, fechei os olhos depois de admirar minhas unhas dos pés recém pintadas de vermelho já na preparação pra volta. Som dos pássaros, dos lagartos, das gotas caindo de uma piscina pra outra (sim, são duas!), as árvores balançando, minha respiração, o metrô de Paris, o carnaval do Rio. Volta pra cá, Carol. Pássaros, lagartos, gotas, patos. Inspira, expira. Entro em estado meditativo, ufa!

Abro os olhos depois de não sei quanto tempo pra imediatamente ver os campos de arroz no quintal de casa. Bali, vou sentir saudades. Percebo que a sensação de limbo dos últimos dias veio acompanhada de um medinho… Depois de tanto tempo de vida na vila de short e camiseta, conhecendo os vizinhos, entendendo o funcionamento da cidade pequena, em meio a natureza, dirigindo minha moto sabendo que se me perder todos estarão dispostos a me ajudar, mesmo sem falar minha língua, cumprimentando todos que cruzam meu caminho, inclusive os que nunca havia visto antes, vou passar uns dias andando de metrô com cachecol no pescoço, numa cidade enorme. E depois, chego em casa. E aí? Sobre o quê vou conversar? Será que vou me encaixar? Será que vou julgar as pessoas? Vou ser julgada? Vou conseguir ser profunda e rasa ao mesmo tempo? Terei espaço pra ser profunda? Estarei chata? Me reacostumarei ao toque? Vou voltar a ser uma pessoa calorosa? Vou conseguir utilizar todos os ensinamentos e vivências com leveza?

Me diz que é normal passar por essas dúvidas todas? Tô precisando de um ombro… Ligo pra minha mãe. Preciso saber que está tudo bem. Ela me traz as palavras que eu precisava ouvir: “Filha, estamos todos tão felizes com sua volta que não importa como você vai voltar. Só queremos você aqui, sem expectativas de ‘ela mudou, agora faz assim ou assado’”. E aí eu entendo. Mesmo que eu troque os pés pelas mãos, eles estarão lá pra me dar seus pés, mãos e ombros.


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5 respostas para A surtadinha pré-volta

  1. NICOLE disse:

    Amigaaaaaaaaaaaaaaa!! Eu também vou estar aqui para o que der e vier!!!!!!!!!!!!!

    ebaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!

    I LOVE YOU!!!

  2. Fefa disse:

    Estou aqui, com pés, mãos, ombros e o coração inteirinho te esperando. Eu e Nina. Chega logo dia 19!!!!
    Te amamos muito!

  3. esqueça todas as perguntas, elas nao precisam de respostas

    um beijo

    ro

  4. Adelia Bergier disse:

    Querida Carol: que bom que o dia 19 ja esta aí, estou te esperando e morrendo de saudades………….te amo…………..beijos…………….Adelia

  5. gabiheringer disse:

    VEMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM LOGOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!

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