Lágrimas de Caracol, luz na Cidade Luz

Carregada de mochilão com 30 quilos, mochilinha e bolsona com tapetinho de yoga e casaco de frio anexados. Tudo pendurado nas minhas costas. Despachado o maior volume, subo as escadas rolantes. Na carteira, o dinheiro contado pra taxa de saída de Bali e a multa pelos dois dias que eu excedi minha estadia lá. Pouca grana, pra que eu levaria rúpias pra casa? Alguns poucos dólares, só pra garantir uma chegada confortável em Paris.

Taxa de saída, paga. No balcão de imigração, mostro o passaporte, já com o dinheiro daqueles tais dois dias separados no bolso. “You exceeded your stay”. Sim, eu sei, respondo enquanto dou pra ele o dinheiro. Ele não entende. Dois dias não. Você está aqui ilegalmente há 24 dias.

Ahm?
Como assim?
O que aconteceu?
Não estou entendendo.

Quando peguei o visto social de trabalho na embaixada da Indonésia na Tailândia, entendi que estaria bem até o dia 13 de fevereiro. Aparentemente, mais um dos múltiplos mal entendidos que esse país oferece. Meu visto só era válido até 24 de janeiro.

Já meio desconcertada, sou levada pra sala de imigração, levando mochila, bolsa, tapete de yoga e casaco. O primeiro funcionário me atende. Explico a ele o que aconteceu. Ele me dá a solução: desça e tire dinheiro no caixa eletrônico e pague a multa. Essa não é uma opção. Meu cartão de débito foi roubado e o de crédito não saca. O outro é American Express, bandeira desconhecida em Bali. Dólares?, ele pergunta. Não o suficiente, respondo. I´m sorry. You have to cancel your flight, ir até a embaixada em Jacarta amanhã (outra ilha em Bali) e resolver lá o que fazer. A idéia me chocou.

Antes que eu pudesse perceber, pulavam lágrimas do meu rosto. Daquelas que de tão gordas atingem o interlocutor. Mas… estou fora de casa há quase um ano. É aniversário do meu pai. Preciso ver minha família… não posso cancelar esse vôo. Tem que haver outro jeito!

Ele faz que não com a cabeça. Eu estou tão transtornada que não entendo sua expressão facial. Ele está comovido ou indiferente? Não importa. Minhas lágrimas são sinceras, de Coruja e Caracol, não de Carolcodilo. O segundo funcionário chega e me diz pra eu tentar a companhia aérea, de repente eles podem me ajudar. Desesperada, faço o que ele diz. A próxima hora é um corre corre entre o balcão da companhia, a sala de imigração, mochila, bolsa, tapete de yoga e casaco, inúmeras passagens alvoroçadas pela catraca do pagamento da taxa de saída do país, 45 minutos pro meu vôo, tentativas de tirar dinheiro em todos os caixas eletrônicos de todos os terminais, mochila, bolsa, tapete de yoga e casaco, 30 minutos pro meu vôo,suor, cabelos desgrenhados, conversas com o Primeiro e o Segundo funcionários, mochila, choro de Caracol, bolsa, tapete de yoga e casaco, “mas meu pai…”, 25 minutos, súplicas chorosas com o Segundo, todos no aeroporto me conhecendo e me dando passe livre nos check points, “mas estou há muito tempo fora…”, tentativas de cash-back em estabelecimentos variados, esquecimentos de padrões éticos e morais em tentativas desesperadas, maquiadas e frustradas de subornar o Segundo, lágrimas de Caracol.

Depois que o Primeiro vira as costas pra mim, estou sentada no banco naquele aeroporto pobre e sem ar condicionado. Chorando, devastada. Como assim vou ficar presa aqui? Essa não é uma opção. Junte seus cacos, Carolina. E tome as rédeas da situação.

Bato na porta da sala de imigração. Todos os funcionários públicos e bonachões estão comendo algo muito frito e olham pra mim. Lá vem a chorona de novo. Eu assumo uma atitude não convencional para uma ilha balinesa num país muçulmano. A de Mulher Que Consegue O Que Quer inicia sua cartada final:
– Preciso falar com seu supervisor, estarei esperando nessa sala.
Sento numa poltrona de couro enorme e tiro todo o dinheiro que tenho. É pouco, mas minha postura de poder vai resolver essa situação. 15 minutos pro meu vôo.

O chefão chega e senta. Estendo a mão para ele:
– Carolina, muito prazer. Qual é seu nome?
Ele não sabe como reagir. Mulheres nesse lugar não costumam se colocar assim. Alguns segundos depois, percebendo que não vou desistir, me diz seu nome.
-Chefão, você está a par da minha situação, certo?
-Certo.
-E está a par que nenhum dos seus funcionários me meu uma solução que seja de fato solução, sei que eles não têm culpa, mas eu recebi a informação errada na Tailândia e preciso de uma opção plausível.

Ele manda os seis homens saírem da sala. Quer ficar sozinho comigo. Me faz as mesmas perguntas que estou cansada de responder. Cartão de débito, porque fiquei tanto tempo ilegal em Bali, rúpias, cancelamento do vôo. Eu não arredo o pé. Respondo tudo com calma e segurança. O Segundo entra na sala e começa a falar em bahasa indonésia com o Chefão. Ambos concordam em algum ponto.

10 minutos pro meu vôo.

-Seu cartão de crédito funciona?
-Sim.
-Então você vai até o Duty Free comprar algo no valor da multa e deixa aqui pra gente revender e sanar sua dívida, um relógio.
-Ótima idéia, você quer escolher o relógio comigo?

Ele me acompanha enquanto passa um rádio pra companhia aérea segurar o avião, que a turista bipolar está chegando. Demora 5 minutos escolhendo um relógio. Passo o cartão, embrulha o relógio, carimba o passaporte, corre pro portão de embarque. Mochila, bolsa, tapete de yoga e casaco.

Quando sento, entendo o que aconteceu. Foi um suborno maquiado por eles. O cara ganhou um relógio de presente, eu continuo sendo um fracasso em matérias burocráticas e financeiras, tenho muito o que aprender, estou voltando pra casa em 3 dias, é só dinheiro, estou voltando pra casa em 3 dias, minha vida profissional vai deslanchar, estou voltando pra casa em 3 dias, estou voltando pra casa em 3 dias. O choro agora é de adrenalina passando e felicidade intensa.

As 18 horas nos vôos Bali – Kuala Lumpur – Paris são tranqüilos, permeados por muita mentalização de que a minha situação de passagem de volta pro Rio será resolvida da melhor maneira possível. É que a passagem que tenho comprada é Tel Aviv – Madrid – Rio, mas não faz sentido ir pra Israel se já estou na Europam ainda mais agora que morri numa grana bonita. Há 3 meses tento convencer funcionários da Ibéria de cancelarem a primeira perna por telefone, mas todos dizem que não é possível. Tudo é possível! Vai acontecer, penso e sinto.

Em Paris, o frio é delicioso. Ando de um terminal pro outro pela rua, em busca do balcão de compra da Iberia. Nem boto o casacão, tamanha a felicidade de sentir a pele gelada e de fazer fumaça com a respiração. Cruzo com algumas poucas pessoas no caminho deserto, busco os olhos de todas e esboço um sorriso. Não estou mais em Bali. Aqui as pessoas evitam contatos. Fogem de mim como se eu tivesse tentando estuprá-las.

Já no balcão, explico minha situação – tantas situações em tão pouco tempo! – ela diz que vai tentar me ajudar. Olha pro computador por uns longos 5 minutos fazendo caretas e mais caretas. E eu só mentalizando… Acho que não vai ser possível, ela me diz. Porque não? Uso todo meu poder de criar argumentos lógicos e ela volta pro computador numa nova tentativa, enquanto o homem que está ao meu lado vê meu passaporte e começa a falar comigo em portunhol. Ele é funcionário da mesma companhia aérea e peruano. Abre-se uma janela pra eles perguntarem de onde venho e pra onde vou. Quando a palavra Bali vem a tona, a Segunda funcionária se vira pra mim. Você passou 5 meses em Bali? Eu amo “Comer, Rezar e Amar”. Estou planejando uma viagem pra lá! Você meditou e praticou yoga? Me conta mais! Antes de começar a contar das minhas experiências, a Primeira se coloca. Consegui! Sem taxas! Isso significava que o dinheiro gasto em multas em Bali foi quase todo economizado nesse exato momento.

Lágrimas e palavras de Caracol surgem, cheias de gratidão. Estou muito grata a vocês duas. São as únicas que realmente me ajudaram, não tenho palavras pra agradecer pelo esforço. A Segunda me interrompe: você viajou e compartilhou muita luz. Está voltando pra casa pra espalhar conhecimento, posso ver. Está fazendo sua parte. O que nós fizemos é o mínimo que podemos fazer pra permitir que sua volta seja fluida e você possa continuar multiplicando luz.

Quando percebi que ela captou tudo isso sem mesmo eu começar a contar as peripécias, entendi tudo. Estou andando pelo caminho certo, mesmo que algumas linhas tortas me deixem desconcertada de vez em quando. Mochilão, mochila, bolsa, tapete de yoga e casaco no corpo. É hora de continuar recebendo e multiplicando luz, dessa vez ao desbravar a Cidade Luz.

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8 respostas para Lágrimas de Caracol, luz na Cidade Luz

  1. B”H
    muitas lágrimas daqui do outro lado do rio… count down…!

  2. Annita Zebulun Ades disse:

    Carol,
    Não consegui parar de ler, ainda bem que no final correu tudo bem. Mas no final mesmo!!
    Qeu você termine bem a viagem e venha curtir o aniversário do seu no Bloco Sargento Pimenta, que está “mandando ” muito bem….Veja no facebook.

    Beijos,
    Annita

  3. Lucia Morelenbaum disse:

    Carol, adorei ler o seu ultimo relato dessa viagem tão enriquecedora e bomita. Bem vinda a essa cidades de luzes, cheiros e sons. Bjs. Lucinha
    P.S essa semana estava vendo Dvds antigos e vi um lindo, de quando vcs fizeram ” O cavalinho azul”, no grupo tres com a Prof. Sandra.. Muita emoção.

    • Carolina Bergier disse:

      Lucia! Que delícia que você curte acompanhar a viagem! E que delícia também ver esses DVDs!!!!

  4. Marisol disse:

    Dá-lhe Carol!!! Só faltou você dar o crédito ao nosso querido Brasil por te ensinar a malandragem necessária para contornar situações como essas. Você sabe que tudo tem um “jeito”, está no sangue! Pensa que se você fosse alemã ou japonesa, você estaria em Jacarta tentando resolver a questão na embaixada!

  5. Adelia Bergier disse:

    Estamos te aguardando saudosos!! curta Paris e boa viagem!
    Mariana e Vovo

  6. Boa viagem, Carol!
    Beija o meu Rio de Janeiro, antes que um aventureiro lance mão…🙂

  7. Mia Rodrigues disse:

    Isso pode soar estranho, já que nunca te conheci, mas o seu blog é perfeito.Uma vez renato Russo disse que a musica “o mundo anda tão complicado” é uma realidade que ele gostaria de ter vivido, pois o seu blog é o meu “o mundo anda tão complicado”. Espero que continue compartilhando as coisas aqui!
    Namaste!

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