Buscando equilíbrio ao pedalar

Quinta passada foi dia de marcar como “feitos” dois tópicos da minha coloridíssima planilha intitulada ‘Afazeres da volta’. Coloridíssima por que, frente à variedade de temas a serem resolvidos, indo de consultas médicas a entregas de textos passando por burocracias de banco, senti a necessidade de organizar tudo em cores. Cada cor, um assunto. Quinta foi dia de apagar a cor amarela, relacionada a transportes: ir ao Detran e recauchutar minha bicicleta.

Apesar de ter chegado a três semanas, ainda estou com dificuldade em organizar meu tempo. As horas em Bali passam de outra maneira e eu não tinha tantos afazeres por lá, o que me permitia dar espaço a acasos e me entregar a eles. No Rio, estou tentando tanto me focar nas tarefas a serem cumpridas que as sincronicidades que se apresentam são recebidas com um “Agora não posso prestar atenção em você, estou atrasada”. Coitadinhas, estão se esforçando tanto…

Mas naquele dia eu não ia conseguir fugir delas.

O porteiro aqui do prédio me deu a dica de um mecânico de bicicleta que bate ponto na Lagoa. Lá fui eu, pedalando e cantando e seguindo a canção que dizia ironicamente “vamos buscar equilíbrio ao pedalar”, tentando me entender com a magrela capenga: guidon torto, banco ajustado pra alguém com 20cm a menos do que eu e marchas engasgando. Chegando onde o Severino me indicou, só vi um cara meio estranho, com cara de maluco e roupas sujas. Até tinha uma bicicleta parada ali, mas estava tão cheia de bolsas e tranqueiras que me perguntei se aquele não era o meio de transporte do mendigo, que nesse momento colocava um objeto de pano não identificado no chão de pedras portuguesas. Perguntei pra ele: “É você o da bicicleta?” “Sou sim, peraí um pouco que eu já vou”, ele respondeu enquanto amarrava um fio de náilon naquele troço esquisito. Depois passou o fio por cima de um galho de árvore, formando algo que funcionaria como uma roldana (me desculpem os das ciências exatas, mas pra mim aquilo era uma roldana…). Puxou o fio e começou a subir daquele objeto uma fita métrica com um coração humano feito de pano no topo. Não entendi nada.

Orgulhoso, ele me disse que fazia parte de umas das instalações dele. “Sou artista e ilustrador, além de mecânico, minhas performances são pra alertar sobre os acontecimentos, né? Até que ponto vão esconder tudo isso?”, ele me perguntou numa mistura de indignação e ousadia. Perguntei qual era a representação da instalação e ouvi como resposta: “É um estudo sobre fé e amor.”

Depois dessa, resolvi dar ouvidos ao acaso e embarquei numa conversa inusitada. Eu só perguntava “por quê?” e recebia lindas pérolas como resposta. Rui Guile – “a mistura de Rui com Guilherme, pra ser um nome artístico marcante” – é um ex-cabeludo e barbudo de Belém que trabalha no mesmo ponto da Lagoa desde 2001, ali perto da pista de skate. O cabelo ele raspou recentemente pra uma performance “sobre a morte”. Aproveitou e usou a pseudo-peruca em um auto-retrato. As pessoas ainda se surpreendem quando cruzam por ele de cabeça pelada. Ouvi inúmeros “ih! Tirou o cabelo, Rui?” vindos de ciclistas das mais diferentes classes sociais.

As instalações e performances que essa figura faz são pra chamar atenção da Prefeitura. Rui Guile quer um quiosque “tipo chaveiro” pra consertos de bicicleta ali naquele lugar. “O Estado tem que entender que construir esse quiosque seria um incentivo á saúde e á qualidade de vida, mas o que acontece é que os políticos se focam no interesse próprio, então acham que esse meu pedido é também interesse próprio meu, mas é pra um bem da sociedade.”

Rui Guile tocou em muitos questionamentos  meus, mesmo sem eu induzir a respostas, afinal não disse nada além de “porque”. Tagarela, – daqueles que começa uma frase de um jeito e termina num assunto totalmente diferente no que, no fundo, faz total sentido – questionou porque o poder público no Brasil não tem voz e justificou isso da seguinte maneira: “Coca-cola, Colgate, essas coisas aí do capitalismo, é tudo dogmático. É que nem religião, que a gente acha que precisa. Pra sociedade funcionar, o ser humano tem é que perder o medo da morte.” “Por quê?”

“Isso aqui é tudo ilusão mesmo…”

E foi assim, tirada após tirada, que ele foi me mostrando que, apesar da planilha colorida ser importante nesse momento, eu estava perdendo o colorido da vida. Estava perdendo o olhar de turista que se deixa encantar por momentos como esse, sem horário, sem objetivo, sem pretensão. Estava perdendo a beleza dos momentos.

Com a bicicleta arrumada, fui pedalando pra casa. Não sem antes parar pra admirar esse pôr do sol abençoado da Cidade Maravilhosa refletido na Lagoa. Não sem antes perceber que Rui Guile me deu a possibilidade de dar pedaladas mais certeiras, usando menos força pra me movimentar mais livremente. Centrada, achei equilíbrio ao pedalar.

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5 respostas para Buscando equilíbrio ao pedalar

  1. Paula disse:

    Maravilhoso!

  2. Sem perder o colorido da vida…. adorei.

  3. Ariela Iskin disse:

    simplesmente lindo!

  4. Jéssica disse:

    A vida, definitavamente, é a arte do encontro!

  5. Pingback: Finding Balance Pedaling – RioChromatic

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