Na mais perfeita desordem

Ontem fui requisitada pra supervisionar a aplicação de espelhos no banheiro do apartamento dele. Todos estariam nos seus respectivos escritórios e eu, a abençoada que trabalho de casa, fui escalada. Peguei o carro com o laptop no banco detrás, feliz que, surpreendentemente, não havia trânsito. A felicidade foi se diluindo á medida em que eu procurava vagas. Roda o quarteirão uma vez. Nada. Duas vezes. Saco essa coisa de ficar salvando os outros. Três vezes. Eles acham o quê? Que eu não tenho mais nada pra fazer? Quatro vezes. Não podem ficar achando que estou sempre disponível, porque não estou! Pego o telefone esbravejando. Olha só, tô há 20 minutos rodando pra achar vaga e não existe a possibilidade de parar aqui! Não é possível! Ué, Carol, porque não me ligou antes? Para na garagem.

Ah, tá.

São 10 horas e o calor já está aquela diliça. Subo o elevador e me vejo no espelho. Devia ter passado maquiagem hoje, já estou um caco. Chegando lá, nem olho na cara dele. Na noite anterior, quando fui requisitada, ou melhor, avisada de que teria de passar o dia nessa missão, já tinha dado pití. Depois da saga pela vaga, ele sabia que meus dentes estavam afiados. Pego o computador e me coloco naquele quarto inabitado. A obra acabou há tempos, mas aquele cômodo ainda está sem vida e aquilo me incomoda. Ele vem me agradecer e se desculpar e eu continuo não olhando pra ele. Não sei se de charme ou de raiva. Ou de um charme raivoso, porque definitivamente não é uma raiva charmosa.

Depois de dez minutos dele tentando se despedir pra ir pro trabalho, eu dou o braço a torcer e levanto o rosto. Ih, você cortou o cabelo. Ficou bom. Agora vai, que tenho muito o que fazer, sabia? Não sou desocupada, muito pelo contrário, tá? Checo e-mail e começo a escrever. Tenho uma matéria sobre déficit de natureza pra entregar em duas semanas e por mais que eu domine e ame o tema, nada flui. Entrevisto uma pessoa por telefone, enquanto me preocupo se os homens do espelho vão chegar enquanto eu estou com ela na linha, mas dão 11 horas e nada deles. Cadê esses homens? Acham o quê? Que eu não tenho nada melhor pra fazer?

Acabo a entrevista e tento escrever de novo. Nada sai. O calor piorou. São meio dia e quartos inabitados não possuem ar-condicionado. Ligo pra ele. E aí? Cadê esses homens? Tão chegando, acabei de ligar pra empresa. Cinco minutos depois, toca o interfone. Pode subir, Seu João! Eles visitam os banheiros pra ver se está tudo em ordem pra aplicação. Ó, moça, vai precisar desligar o registro de água, tá? Ligo pro Seu João. Ih, dona! Vai pra desligar não. Tô sozinho aqui na portaria e tem que avisar essas coisas com antecedência pra falar com os moradores que o prédio vai ficar sem água. Desligo o interfone e ligo pra ele. Por**, você não avisou pro porteiro que ia precisar desligar o registro? Ih, esqueci. Ai, car****.

Depois de muito falar com Seu João, ok, ele desligou a água, “mas só por 20 minutos, hein!”. Os homens disseram que estariam prontos pra aplicar quando eu desse o ok, mas, ok dado,  tinham esquecido de checar se o tamanho do espelho tava correto e… não estava. Param pra cortar o espelho. E eu volto pra tentar escrever. Nada. De repente… barulho de água. Ai, mer**, tá vazando tudo e o banheiro tá alagando. E eu não sei onde fica nada nesse apartamento. Cadê balde? Pano de chão? Rodo? Corro pra lá e pra cá e resolvo o alagamento com uma lixeira sem saco de lixo embaixo do vazamento. Os homens descem, estão prontos pra aplicar o espelho logo agora que o banheiro está um caos. Pu** que pa***! Hoje não é meu dia. Depois de mais interfone, torneira, água, rodo, sobe, desce, descobre que ele tinha fechado o registro errado, o vazamento para, eles entram no banheiro, eu tento escrever, não consegue, tenta aplicar, não consegue. O quê? É, moça. O tamanho do espelho tá errado. Não vai dar pra botar hoje não. Ahm? Depois de 3 horas você me diz que não vai dar pra botar? Acha o quê? Que eu não tenho nada melhor pra fazer? Me segurei pra não xingar.

Foi estressante. Me irritei. Esperneei, suei, suspirei, quase xinguei. Até que não tinha mais nada que eu pudesse fazer. Tomei uma chuveirada gelada e senti o sangue esfriando. Não ia adiantar tentar escrever com a mente fervendo daquele jeito. O transtorno de déficit de natureza ia ter de esperar eu esfriar ainda mais. A ansiedade, depressão, transtorno de déficit de atenção, obesidade e hipertensão conseqüentes da desconexão com a natureza iam ficar pra depois. Ainda molhada, deitei nas almofadas na varanda, suspirei, inspirei, expirei, respirei.  Agora, eu não tinha nada melhor pra fazer além de olhar pra cima, pras nuvens das mais diferentes personalidades que escorregavam em todas direções num céu azul, iluminado. As luzes saíam em feixes suavemente determinados por detrás daqueles suspiros em forma de nuvem. Como uma criança que observa o céu, vi elefantes, barcos, monstros, deuses, Ganesha, Prana. A natureza celeste se comunicava comigo. Sorri. A mente descansou e o coração cresceu. Os pássaros dançavam no silêncio, lentamente, alto o suficiente para só ouvirem o vento. Escolhia um pra acompanhar, até que ele saia do meu campo de visão e eu escolhia outro, e outro e outro. Uma coreografia na mais perfeita desordem. Chorei sorrindo, entendendo e perdoando, tudo está dentro da Ordem Divina. Estou pronta pra escrever sobre o transtorno de déficit de natureza, porque Ela me curou do meu próprio transtorno.

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