Abre a janela da alma

Passei 5 meses em Bali olhando nos olhos de todos que cruzaram meus caminhos, conhecidos e desconhecidos. Aquilo me encheu com meu próprio espírito. Ao voltar, continuei buscando os olhares alheios, sem sucesso. Percebi que sentiria muita falta dessa conexão instantânea e despretensiosa entre duas almas. O tempo foi passando e meu hábito foi se diluindo, desestimulado pela frustração diária. Os únicos olhos que passaram a penetrar os meus eram os dos que eu conhecia. Um tempo depois, dos que eu conhecia bem. E então dos que eu conhecia muito bem. Para então só trocar olhares comigo mesma no espelho. Ou nem isso.

E observei a inspiração se diluir junto com o hábito. Estava ausente.

Na semana passada decidi fazer uma experiência: eu olharia nos olhos de todos que cruzassem meu caminho. Sai de casa de manhã a caminhar. O primeiro abaixou o olhar, o segundo me encarou, a terceira olhou de volta e sorriu. Decidi. Não só olharia nos olhos, mas sorriria. A cada sorriso, eu ia me enchendo de leveza e felicidade, mesmo não recebendo nada em troca, nenhum olhar. A maioria das pessoas se incomodava com a invasão de privacidade que um olho-no-olho provoca. Eu estava achando engraçado.

Fiquei pensando… porque evitamos tanto esse tipo de troca?

Muitas informações e afazeres, certamente. Mas, principalmente, medo que o outro te leia. Será que alguém que está 100% satisfeito e feliz evita o olhar do outro? Eu não. Se estou absolutamente contente, quero mais é espalhar luz pelo olhar. Caminho olhando pra frente, não pra baixo. Caminho no maior estilo comercial de Pantene com ventilados nos cabelos, pontinha de sorriso estampado no rosto. Mas, se não estou 100%, fico cabisbaixa, pensativa, remoendo questões inutilmente, sem dar valor ao presente. A solução do meu problema pode passar por mim despercebida. Estou muito ocupada me pré-ocupando. Tenho medo que o que me conhece leia nos meus olhos minha infelicidade, mesmo que parcial. Pavor que o que me conhece muito saiba exatamente o que se passa na minha mente através do meu olhar. Fobia de me olhar no espelho e me reconhecer infeliz.

Nesse dia, ao buscar o olhar do outro, percebi que muitos poucos de nós somos 100% felizes. É fácil ler felicidade genuína nas pupilas de qualquer um. Elas exibem o brilho raro de uma orquídea. Mesmo os que olhavam de volta tinham uma certa desconfiança. Os que sorriam ora o faziam por vergonha, escondendo na risada um desconforto. Poucos retribuíram com afeto e alegria. Poucos, mas suficientes para me fazerem lembrar que sim, problemas existem, mas precisamos deixar a luz entrar pela janela da alma e rasgar nosso interior. E aí as soluções aparecem.

No dia seguinte, fui dar uma volta de bicicleta na Lagoa. Havia retomado a percepção do brilho infinito que há nas pedras e árvores que a circundam. Meu olhar estava presente. E as soluções apareceram. Voltei.

Voltar não é fácil. Mas recompensa.

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4 respostas para Abre a janela da alma

  1. Marilia Puga disse:

    Carolina, estava sentindo falta dos seus textos… outro dia lembrei de você e pensei… vou entrar no blog da Carolina… mas os ‘problemas do dia-a-dia ‘ , fizeram com que esquecesse de olhar você.

  2. Carolina,
    Você tem razão…existe uma enorme dificuldade na reciprocidade do olhar.É pena, Mas vamos continuar tentando…..
    Lucia

  3. Carol disse:

    Mto interessante seu blog. To adorando.

  4. Nelson Vitorino disse:

    Fé, ausência de dúvida! Não tinha dúvida que encontraria uma janela da alma caminhante com o que vivo hoje! Parabéns pelo texto!

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