Na mais perfeita desordem

Ontem fui requisitada pra supervisionar a aplicação de espelhos no banheiro do apartamento dele. Todos estariam nos seus respectivos escritórios e eu, a abençoada que trabalho de casa, fui escalada. Peguei o carro com o laptop no banco detrás, feliz que, surpreendentemente, não havia trânsito. A felicidade foi se diluindo á medida em que eu procurava vagas. Roda o quarteirão uma vez. Nada. Duas vezes. Saco essa coisa de ficar salvando os outros. Três vezes. Eles acham o quê? Que eu não tenho mais nada pra fazer? Quatro vezes. Não podem ficar achando que estou sempre disponível, porque não estou! Pego o telefone esbravejando. Olha só, tô há 20 minutos rodando pra achar vaga e não existe a possibilidade de parar aqui! Não é possível! Ué, Carol, porque não me ligou antes? Para na garagem.

Ah, tá.

São 10 horas e o calor já está aquela diliça. Subo o elevador e me vejo no espelho. Devia ter passado maquiagem hoje, já estou um caco. Chegando lá, nem olho na cara dele. Na noite anterior, quando fui requisitada, ou melhor, avisada de que teria de passar o dia nessa missão, já tinha dado pití. Depois da saga pela vaga, ele sabia que meus dentes estavam afiados. Pego o computador e me coloco naquele quarto inabitado. A obra acabou há tempos, mas aquele cômodo ainda está sem vida e aquilo me incomoda. Ele vem me agradecer e se desculpar e eu continuo não olhando pra ele. Não sei se de charme ou de raiva. Ou de um charme raivoso, porque definitivamente não é uma raiva charmosa.

Depois de dez minutos dele tentando se despedir pra ir pro trabalho, eu dou o braço a torcer e levanto o rosto. Ih, você cortou o cabelo. Ficou bom. Agora vai, que tenho muito o que fazer, sabia? Não sou desocupada, muito pelo contrário, tá? Checo e-mail e começo a escrever. Tenho uma matéria sobre déficit de natureza pra entregar em duas semanas e por mais que eu domine e ame o tema, nada flui. Entrevisto uma pessoa por telefone, enquanto me preocupo se os homens do espelho vão chegar enquanto eu estou com ela na linha, mas dão 11 horas e nada deles. Cadê esses homens? Acham o quê? Que eu não tenho nada melhor pra fazer?

Acabo a entrevista e tento escrever de novo. Nada sai. O calor piorou. São meio dia e quartos inabitados não possuem ar-condicionado. Ligo pra ele. E aí? Cadê esses homens? Tão chegando, acabei de ligar pra empresa. Cinco minutos depois, toca o interfone. Pode subir, Seu João! Eles visitam os banheiros pra ver se está tudo em ordem pra aplicação. Ó, moça, vai precisar desligar o registro de água, tá? Ligo pro Seu João. Ih, dona! Vai pra desligar não. Tô sozinho aqui na portaria e tem que avisar essas coisas com antecedência pra falar com os moradores que o prédio vai ficar sem água. Desligo o interfone e ligo pra ele. Por**, você não avisou pro porteiro que ia precisar desligar o registro? Ih, esqueci. Ai, car****.

Depois de muito falar com Seu João, ok, ele desligou a água, “mas só por 20 minutos, hein!”. Os homens disseram que estariam prontos pra aplicar quando eu desse o ok, mas, ok dado,  tinham esquecido de checar se o tamanho do espelho tava correto e… não estava. Param pra cortar o espelho. E eu volto pra tentar escrever. Nada. De repente… barulho de água. Ai, mer**, tá vazando tudo e o banheiro tá alagando. E eu não sei onde fica nada nesse apartamento. Cadê balde? Pano de chão? Rodo? Corro pra lá e pra cá e resolvo o alagamento com uma lixeira sem saco de lixo embaixo do vazamento. Os homens descem, estão prontos pra aplicar o espelho logo agora que o banheiro está um caos. Pu** que pa***! Hoje não é meu dia. Depois de mais interfone, torneira, água, rodo, sobe, desce, descobre que ele tinha fechado o registro errado, o vazamento para, eles entram no banheiro, eu tento escrever, não consegue, tenta aplicar, não consegue. O quê? É, moça. O tamanho do espelho tá errado. Não vai dar pra botar hoje não. Ahm? Depois de 3 horas você me diz que não vai dar pra botar? Acha o quê? Que eu não tenho nada melhor pra fazer? Me segurei pra não xingar.

Foi estressante. Me irritei. Esperneei, suei, suspirei, quase xinguei. Até que não tinha mais nada que eu pudesse fazer. Tomei uma chuveirada gelada e senti o sangue esfriando. Não ia adiantar tentar escrever com a mente fervendo daquele jeito. O transtorno de déficit de natureza ia ter de esperar eu esfriar ainda mais. A ansiedade, depressão, transtorno de déficit de atenção, obesidade e hipertensão conseqüentes da desconexão com a natureza iam ficar pra depois. Ainda molhada, deitei nas almofadas na varanda, suspirei, inspirei, expirei, respirei.  Agora, eu não tinha nada melhor pra fazer além de olhar pra cima, pras nuvens das mais diferentes personalidades que escorregavam em todas direções num céu azul, iluminado. As luzes saíam em feixes suavemente determinados por detrás daqueles suspiros em forma de nuvem. Como uma criança que observa o céu, vi elefantes, barcos, monstros, deuses, Ganesha, Prana. A natureza celeste se comunicava comigo. Sorri. A mente descansou e o coração cresceu. Os pássaros dançavam no silêncio, lentamente, alto o suficiente para só ouvirem o vento. Escolhia um pra acompanhar, até que ele saia do meu campo de visão e eu escolhia outro, e outro e outro. Uma coreografia na mais perfeita desordem. Chorei sorrindo, entendendo e perdoando, tudo está dentro da Ordem Divina. Estou pronta pra escrever sobre o transtorno de déficit de natureza, porque Ela me curou do meu próprio transtorno.

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Buscando equilíbrio ao pedalar

Quinta passada foi dia de marcar como “feitos” dois tópicos da minha coloridíssima planilha intitulada ‘Afazeres da volta’. Coloridíssima por que, frente à variedade de temas a serem resolvidos, indo de consultas médicas a entregas de textos passando por burocracias de banco, senti a necessidade de organizar tudo em cores. Cada cor, um assunto. Quinta foi dia de apagar a cor amarela, relacionada a transportes: ir ao Detran e recauchutar minha bicicleta.

Apesar de ter chegado a três semanas, ainda estou com dificuldade em organizar meu tempo. As horas em Bali passam de outra maneira e eu não tinha tantos afazeres por lá, o que me permitia dar espaço a acasos e me entregar a eles. No Rio, estou tentando tanto me focar nas tarefas a serem cumpridas que as sincronicidades que se apresentam são recebidas com um “Agora não posso prestar atenção em você, estou atrasada”. Coitadinhas, estão se esforçando tanto…

Mas naquele dia eu não ia conseguir fugir delas.

O porteiro aqui do prédio me deu a dica de um mecânico de bicicleta que bate ponto na Lagoa. Lá fui eu, pedalando e cantando e seguindo a canção que dizia ironicamente “vamos buscar equilíbrio ao pedalar”, tentando me entender com a magrela capenga: guidon torto, banco ajustado pra alguém com 20cm a menos do que eu e marchas engasgando. Chegando onde o Severino me indicou, só vi um cara meio estranho, com cara de maluco e roupas sujas. Até tinha uma bicicleta parada ali, mas estava tão cheia de bolsas e tranqueiras que me perguntei se aquele não era o meio de transporte do mendigo, que nesse momento colocava um objeto de pano não identificado no chão de pedras portuguesas. Perguntei pra ele: “É você o da bicicleta?” “Sou sim, peraí um pouco que eu já vou”, ele respondeu enquanto amarrava um fio de náilon naquele troço esquisito. Depois passou o fio por cima de um galho de árvore, formando algo que funcionaria como uma roldana (me desculpem os das ciências exatas, mas pra mim aquilo era uma roldana…). Puxou o fio e começou a subir daquele objeto uma fita métrica com um coração humano feito de pano no topo. Não entendi nada.

Orgulhoso, ele me disse que fazia parte de umas das instalações dele. “Sou artista e ilustrador, além de mecânico, minhas performances são pra alertar sobre os acontecimentos, né? Até que ponto vão esconder tudo isso?”, ele me perguntou numa mistura de indignação e ousadia. Perguntei qual era a representação da instalação e ouvi como resposta: “É um estudo sobre fé e amor.”

Depois dessa, resolvi dar ouvidos ao acaso e embarquei numa conversa inusitada. Eu só perguntava “por quê?” e recebia lindas pérolas como resposta. Rui Guile – “a mistura de Rui com Guilherme, pra ser um nome artístico marcante” – é um ex-cabeludo e barbudo de Belém que trabalha no mesmo ponto da Lagoa desde 2001, ali perto da pista de skate. O cabelo ele raspou recentemente pra uma performance “sobre a morte”. Aproveitou e usou a pseudo-peruca em um auto-retrato. As pessoas ainda se surpreendem quando cruzam por ele de cabeça pelada. Ouvi inúmeros “ih! Tirou o cabelo, Rui?” vindos de ciclistas das mais diferentes classes sociais.

As instalações e performances que essa figura faz são pra chamar atenção da Prefeitura. Rui Guile quer um quiosque “tipo chaveiro” pra consertos de bicicleta ali naquele lugar. “O Estado tem que entender que construir esse quiosque seria um incentivo á saúde e á qualidade de vida, mas o que acontece é que os políticos se focam no interesse próprio, então acham que esse meu pedido é também interesse próprio meu, mas é pra um bem da sociedade.”

Rui Guile tocou em muitos questionamentos  meus, mesmo sem eu induzir a respostas, afinal não disse nada além de “porque”. Tagarela, – daqueles que começa uma frase de um jeito e termina num assunto totalmente diferente no que, no fundo, faz total sentido – questionou porque o poder público no Brasil não tem voz e justificou isso da seguinte maneira: “Coca-cola, Colgate, essas coisas aí do capitalismo, é tudo dogmático. É que nem religião, que a gente acha que precisa. Pra sociedade funcionar, o ser humano tem é que perder o medo da morte.” “Por quê?”

“Isso aqui é tudo ilusão mesmo…”

E foi assim, tirada após tirada, que ele foi me mostrando que, apesar da planilha colorida ser importante nesse momento, eu estava perdendo o colorido da vida. Estava perdendo o olhar de turista que se deixa encantar por momentos como esse, sem horário, sem objetivo, sem pretensão. Estava perdendo a beleza dos momentos.

Com a bicicleta arrumada, fui pedalando pra casa. Não sem antes parar pra admirar esse pôr do sol abençoado da Cidade Maravilhosa refletido na Lagoa. Não sem antes perceber que Rui Guile me deu a possibilidade de dar pedaladas mais certeiras, usando menos força pra me movimentar mais livremente. Centrada, achei equilíbrio ao pedalar.

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Processando…

Achei que voltar seria mais simples. E escrever sobre a volta, mais fluido. A mente ainda está processando muita informação nessa Babilônia Maravilhosa. Fica aqui minha promessa de postar com freqüência, mas nunca escrevi por escrever. sSmpre esperei a inspiração vir. Continuarei com a máxima: a criação aparece quando a mente abre espaço pra ela.

Num espaço cheio, medito pra esvaziar e entender os processos com leveza.

Enquanto isso, fica aqui minha certeza de que tudo está em seu devido e divino lugar, que essa viagem é só o começo. Está tudo na mais perfeita (des)ordem: família, amigos, profissão, coração, corpo, mente, alma, espírito. Amo como nunca.

E, de quebra, um clippingzinho… A revista Bons Fluidos me entrevistou pra uma matéria sobre períodos sabáticos. Ficou bem bacana, a matéria tá aqui. E a Mara Luquet, do Jornal da Globo, pediu pra mandar uma pergunta sobre finanças pra ela. E eu atendi prontamente seu pedido! O link aqui.

 

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A jornada começa agora

Ontem a Sharon me perguntou se eu tinha preparada a resposta pra pergunta que, segundo ela, me cansaria pelos próximos dias: “Como foi sua viagem?” Eu ri e disse que não, que não saberia nem por onde começar. Ela me ajudou com um resumo: “Sai numa jornada em busca de mim mesma e me encontrei. Agora sei o que quero pra mim, pelo menos nessa próxima fase da vida.” Simples assim. Sem nuances, histórias, causos, narrativas. Sem verborragia. Foi isso. Sai numa viagem em busca de mim mesma e me encontrei.

Se você acompanhou esse diário, sabe que foi uma jornada com altos e baixos, mais altos do que baixos, porque felizmente conseguir fazer os baixos se elevarem. Me encontrei. Mas mais do que isso, me sintonizei na minha própria freqüência, atraindo tudo que precisei e vivendo toda a teoria que vinha estudando nos últimos tempos. Minhas palavras manifestadas, meu desejos co-criados. Entendi que com o coração honesto e reverenciado pela mente, minha realidade revela todo meu potencial. Entendi o preenchimento da mente a partir de seu esvaziamento. Entendi a conexão entre o sentir, o intuir, o pensar, o falar, o agir. E só pude ter a compreensão de tudo isso por ter saído de um espaço de medo e entrado no amor incondicional. E aí o mar se abriu.

Esse movimento começou lá atrás, no meio de 2010, quando tudo ao meu redor começou a ruir. Emprego, ideais, namoro, valores, rotinas. Eu poderia ter entrado no limbo. Mas havia me preparado mental e espiritualmente pra ter a certeza irracional que o desfacelamento da minha vida tal como eu a conhecia era um presente naquele momento, uma oportunidade de me desfazer de padrões de comportamento que já não mais me serviam e que eu tinha medo de deixar pra trás. Sabe assim, apego? É…

Mas aí tudo se foi. Ganhei tanto espaço interno que meu coração cresceu e a veio clareza mental de que era hora de me afastar daquele ambiente. Eu iria viajar. À princípio, só pra Bali. Não sabia muito o porquê. Não conhecia ninguém que já tivesse passado uma temporada na parte mais famosa da Indonésia, não sabia nada sobre a ilha, além de que era um paraíso do surf. Mesmo tendo receio de entrar no mar com uma prancha, eu sabia que era pra lá que eu tinha que ir. Mas alguma peça desse quebra cabeça ainda faltava.
Até o réveillon de 2010 pra 2011, quando antes de dormir pedi uma resposta de pra onde e quando ir.

Acordei no primeiro dia do ano com uma imagem mental clara, daqueles sonhos que você sabe que precisam ser lembrados: no meio do deserto, o mar se abria e eu o atravessava sozinha. Imediatamente eu soube. Quando o mar se abriu no Egito, Moisés levou todos a Israel, e foi lá que encontraram a liberdade. Eu faria o mesmo, na mesma época: iria pra Israel logo depois de Pessach, a festividade que comemora a saída do povo judeu do Egito. Eu atravessaria esse mar que o Universo estava abrindo pra mim. Tudo o que eu poderia ter visto como ruína a minha volta, enxerguei como obstáculos saindo do meu caminho, o mar se abrindo, esperando que eu o atravessasse. Ganesha, o deus hindu removedor de obstáculos, me apadrinhou naquela noite. E se mostrou presente dia após dia, numa mistura linda de religiões que me permitiu ir mais fundo na minha espiritualidade.

E foi assim, num sonho, que eu entendi a proposta dessa viagem. Eu viajaria pra dentro, numa busca interna pra me libertar de mim mesma. Estou livre. Tão livre que volto pra casa.
O que mudou? Muita coisa, nem sei dizer. Acho que só vou compreender tudo o que aconteceu quando retomar minha vida no Rio e observar as novas – ou não novas – reações aos velhos estímulos. De mudança tangível e definitiva, meu caminho profissional. Deixei pra trás uma carreira com marketing de moda pra criar algo alinhado com meus valores e paixões. As palavras são minhas amigas. E serão minhas companheiras nessa nova empreitada jornalística, buscado sempre focar na consicência de um novo e urgente posicionamento frente ao Outro, a Si e ao Mundo. Além disso, alguns outros projetos estão sendo desenhados, acho que vocês vão gostar. Se ficou curioso, não se preocupe. Esse texto não é uma despedida. Vou continuar escrevendo, que essa jornada não acabou. Tá só começando.

Espero que esse capítulo que se finaliza hoje tenha te ajudado de alguma maneira: a passar o tempo, a conhecer novas culturas, dar uma risadinha aqui e ali, repensar seus padrões através das minhas cagadas, procurar uma nova maneira de ver sua realidade ou reafirmar a antiga… é tudo válido, desde que seja com o coração.

Se você se sentiu beneficiado por alguma palavra minha, gratidão infinita por ter se permitido se dar o tempo de ler esse diário que me deu tanto prazer. Agora, com as pernas fortes, estou pronta pra de dar passos maiores. De repente você pode me ajudar… conhece alguém que conhece alguém que se interessaria na minha história e nas minhas palavras? Uma editora, uma revista, um jornalista, um produtor, um amigo. Passa o link do blog pra ele, quem sabe?

Chegou a hora de embarcar pro Rio, as lágrimas correm felizes. Bom vôo pra mim e bom início de jornada!

Até daqui a pouco e quem sabe agora a gente se esbarra pelas ruas da Cidade Maravilhosa…
Com muito amor e alegria,

Carolina

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Lágrimas de Caracol, luz na Cidade Luz

Carregada de mochilão com 30 quilos, mochilinha e bolsona com tapetinho de yoga e casaco de frio anexados. Tudo pendurado nas minhas costas. Despachado o maior volume, subo as escadas rolantes. Na carteira, o dinheiro contado pra taxa de saída de Bali e a multa pelos dois dias que eu excedi minha estadia lá. Pouca grana, pra que eu levaria rúpias pra casa? Alguns poucos dólares, só pra garantir uma chegada confortável em Paris.

Taxa de saída, paga. No balcão de imigração, mostro o passaporte, já com o dinheiro daqueles tais dois dias separados no bolso. “You exceeded your stay”. Sim, eu sei, respondo enquanto dou pra ele o dinheiro. Ele não entende. Dois dias não. Você está aqui ilegalmente há 24 dias.

Ahm?
Como assim?
O que aconteceu?
Não estou entendendo.

Quando peguei o visto social de trabalho na embaixada da Indonésia na Tailândia, entendi que estaria bem até o dia 13 de fevereiro. Aparentemente, mais um dos múltiplos mal entendidos que esse país oferece. Meu visto só era válido até 24 de janeiro.

Já meio desconcertada, sou levada pra sala de imigração, levando mochila, bolsa, tapete de yoga e casaco. O primeiro funcionário me atende. Explico a ele o que aconteceu. Ele me dá a solução: desça e tire dinheiro no caixa eletrônico e pague a multa. Essa não é uma opção. Meu cartão de débito foi roubado e o de crédito não saca. O outro é American Express, bandeira desconhecida em Bali. Dólares?, ele pergunta. Não o suficiente, respondo. I´m sorry. You have to cancel your flight, ir até a embaixada em Jacarta amanhã (outra ilha em Bali) e resolver lá o que fazer. A idéia me chocou.

Antes que eu pudesse perceber, pulavam lágrimas do meu rosto. Daquelas que de tão gordas atingem o interlocutor. Mas… estou fora de casa há quase um ano. É aniversário do meu pai. Preciso ver minha família… não posso cancelar esse vôo. Tem que haver outro jeito!

Ele faz que não com a cabeça. Eu estou tão transtornada que não entendo sua expressão facial. Ele está comovido ou indiferente? Não importa. Minhas lágrimas são sinceras, de Coruja e Caracol, não de Carolcodilo. O segundo funcionário chega e me diz pra eu tentar a companhia aérea, de repente eles podem me ajudar. Desesperada, faço o que ele diz. A próxima hora é um corre corre entre o balcão da companhia, a sala de imigração, mochila, bolsa, tapete de yoga e casaco, inúmeras passagens alvoroçadas pela catraca do pagamento da taxa de saída do país, 45 minutos pro meu vôo, tentativas de tirar dinheiro em todos os caixas eletrônicos de todos os terminais, mochila, bolsa, tapete de yoga e casaco, 30 minutos pro meu vôo,suor, cabelos desgrenhados, conversas com o Primeiro e o Segundo funcionários, mochila, choro de Caracol, bolsa, tapete de yoga e casaco, “mas meu pai…”, 25 minutos, súplicas chorosas com o Segundo, todos no aeroporto me conhecendo e me dando passe livre nos check points, “mas estou há muito tempo fora…”, tentativas de cash-back em estabelecimentos variados, esquecimentos de padrões éticos e morais em tentativas desesperadas, maquiadas e frustradas de subornar o Segundo, lágrimas de Caracol.

Depois que o Primeiro vira as costas pra mim, estou sentada no banco naquele aeroporto pobre e sem ar condicionado. Chorando, devastada. Como assim vou ficar presa aqui? Essa não é uma opção. Junte seus cacos, Carolina. E tome as rédeas da situação.

Bato na porta da sala de imigração. Todos os funcionários públicos e bonachões estão comendo algo muito frito e olham pra mim. Lá vem a chorona de novo. Eu assumo uma atitude não convencional para uma ilha balinesa num país muçulmano. A de Mulher Que Consegue O Que Quer inicia sua cartada final:
– Preciso falar com seu supervisor, estarei esperando nessa sala.
Sento numa poltrona de couro enorme e tiro todo o dinheiro que tenho. É pouco, mas minha postura de poder vai resolver essa situação. 15 minutos pro meu vôo.

O chefão chega e senta. Estendo a mão para ele:
– Carolina, muito prazer. Qual é seu nome?
Ele não sabe como reagir. Mulheres nesse lugar não costumam se colocar assim. Alguns segundos depois, percebendo que não vou desistir, me diz seu nome.
-Chefão, você está a par da minha situação, certo?
-Certo.
-E está a par que nenhum dos seus funcionários me meu uma solução que seja de fato solução, sei que eles não têm culpa, mas eu recebi a informação errada na Tailândia e preciso de uma opção plausível.

Ele manda os seis homens saírem da sala. Quer ficar sozinho comigo. Me faz as mesmas perguntas que estou cansada de responder. Cartão de débito, porque fiquei tanto tempo ilegal em Bali, rúpias, cancelamento do vôo. Eu não arredo o pé. Respondo tudo com calma e segurança. O Segundo entra na sala e começa a falar em bahasa indonésia com o Chefão. Ambos concordam em algum ponto.

10 minutos pro meu vôo.

-Seu cartão de crédito funciona?
-Sim.
-Então você vai até o Duty Free comprar algo no valor da multa e deixa aqui pra gente revender e sanar sua dívida, um relógio.
-Ótima idéia, você quer escolher o relógio comigo?

Ele me acompanha enquanto passa um rádio pra companhia aérea segurar o avião, que a turista bipolar está chegando. Demora 5 minutos escolhendo um relógio. Passo o cartão, embrulha o relógio, carimba o passaporte, corre pro portão de embarque. Mochila, bolsa, tapete de yoga e casaco.

Quando sento, entendo o que aconteceu. Foi um suborno maquiado por eles. O cara ganhou um relógio de presente, eu continuo sendo um fracasso em matérias burocráticas e financeiras, tenho muito o que aprender, estou voltando pra casa em 3 dias, é só dinheiro, estou voltando pra casa em 3 dias, minha vida profissional vai deslanchar, estou voltando pra casa em 3 dias, estou voltando pra casa em 3 dias. O choro agora é de adrenalina passando e felicidade intensa.

As 18 horas nos vôos Bali – Kuala Lumpur – Paris são tranqüilos, permeados por muita mentalização de que a minha situação de passagem de volta pro Rio será resolvida da melhor maneira possível. É que a passagem que tenho comprada é Tel Aviv – Madrid – Rio, mas não faz sentido ir pra Israel se já estou na Europam ainda mais agora que morri numa grana bonita. Há 3 meses tento convencer funcionários da Ibéria de cancelarem a primeira perna por telefone, mas todos dizem que não é possível. Tudo é possível! Vai acontecer, penso e sinto.

Em Paris, o frio é delicioso. Ando de um terminal pro outro pela rua, em busca do balcão de compra da Iberia. Nem boto o casacão, tamanha a felicidade de sentir a pele gelada e de fazer fumaça com a respiração. Cruzo com algumas poucas pessoas no caminho deserto, busco os olhos de todas e esboço um sorriso. Não estou mais em Bali. Aqui as pessoas evitam contatos. Fogem de mim como se eu tivesse tentando estuprá-las.

Já no balcão, explico minha situação – tantas situações em tão pouco tempo! – ela diz que vai tentar me ajudar. Olha pro computador por uns longos 5 minutos fazendo caretas e mais caretas. E eu só mentalizando… Acho que não vai ser possível, ela me diz. Porque não? Uso todo meu poder de criar argumentos lógicos e ela volta pro computador numa nova tentativa, enquanto o homem que está ao meu lado vê meu passaporte e começa a falar comigo em portunhol. Ele é funcionário da mesma companhia aérea e peruano. Abre-se uma janela pra eles perguntarem de onde venho e pra onde vou. Quando a palavra Bali vem a tona, a Segunda funcionária se vira pra mim. Você passou 5 meses em Bali? Eu amo “Comer, Rezar e Amar”. Estou planejando uma viagem pra lá! Você meditou e praticou yoga? Me conta mais! Antes de começar a contar das minhas experiências, a Primeira se coloca. Consegui! Sem taxas! Isso significava que o dinheiro gasto em multas em Bali foi quase todo economizado nesse exato momento.

Lágrimas e palavras de Caracol surgem, cheias de gratidão. Estou muito grata a vocês duas. São as únicas que realmente me ajudaram, não tenho palavras pra agradecer pelo esforço. A Segunda me interrompe: você viajou e compartilhou muita luz. Está voltando pra casa pra espalhar conhecimento, posso ver. Está fazendo sua parte. O que nós fizemos é o mínimo que podemos fazer pra permitir que sua volta seja fluida e você possa continuar multiplicando luz.

Quando percebi que ela captou tudo isso sem mesmo eu começar a contar as peripécias, entendi tudo. Estou andando pelo caminho certo, mesmo que algumas linhas tortas me deixem desconcertada de vez em quando. Mochilão, mochila, bolsa, tapete de yoga e casaco no corpo. É hora de continuar recebendo e multiplicando luz, dessa vez ao desbravar a Cidade Luz.

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A surtadinha pré-volta

Esparramada na cama mal arrumada com o computador no colo, no espaço que foi meu quarto pelos últimos meses. Nas paredes, fotos dos meus sobrinhos. Eles provavelmente já estão muito mais compridos do que quando elas foram tiradas. O durex já não segura com tanta firmeza a linda carta que meu cunhado me deu há 10 meses depois de me dizer “abra só quando chegar lá”. No canto do quarto, uma cadeira dá suporte pra mochila semi-pronta, com passaporte, dinheiro e passagens. Um biquíni jogado em cima da mesa espera por um último banho de sol. No chão, o tapete de yoga que será deixado pra próxima moradora, alguns grampos e revistas brasileiras trazidas como encomenda por cada um que me visitou. O mochilão pronto ao lado da porta, abarrotado. Na cabeceira, água, um colírio, kit de costura e aparelho de dentes. O nécessaire espera para ser preenchido amanhã depois do banho.

É, estou chegando. Tenho um pit-stop de 3 dias em Paris. Me pergunto porque fui programar a volta com essa escala. Quero ir pra casa! Os últimos dias foram preenchidos com tédio. Um olhar incessante pro relógio, querendo que chegasse logo a hora de ir pra cama. Ao deitar, rolava por uma, duas, três horas antes de conseguir pegar no sono. Tentei viver o presente. Consegui. Meu presente era nada mais do que uma espera. Um tilintar lento que não me dava a possibilidade de adiantar quase nada. Contatos profissionais ficaram em suspenso. Entro em um longo trânsito aéreo e chego no Rio no meio do carnaval. Não posso correr o risco de não conseguir cumprir prazos. A mala está semi-pronta há 3 dias. Já vi todos os filmes da videoteca coletada pelas dezenas de moradores que vêm e vão. Meditações inquietas, com visualizações de todos os lugares que quero visitar. Aulas de yoga sem profundidade em conseqüência das noites mal dormidas e da dificuldade de foco. Relações virtuais sem mais sentido criando discussões irreais em seu âmago. Vou te tocar em menos de uma semana, porque estamos tendo essa conversa pela tela do computador?

Paro de escrever e vou meditar. Estava entrando na espiral descendente de pensamentos repetitivos. Sentei na piscina, fechei os olhos depois de admirar minhas unhas dos pés recém pintadas de vermelho já na preparação pra volta. Som dos pássaros, dos lagartos, das gotas caindo de uma piscina pra outra (sim, são duas!), as árvores balançando, minha respiração, o metrô de Paris, o carnaval do Rio. Volta pra cá, Carol. Pássaros, lagartos, gotas, patos. Inspira, expira. Entro em estado meditativo, ufa!

Abro os olhos depois de não sei quanto tempo pra imediatamente ver os campos de arroz no quintal de casa. Bali, vou sentir saudades. Percebo que a sensação de limbo dos últimos dias veio acompanhada de um medinho… Depois de tanto tempo de vida na vila de short e camiseta, conhecendo os vizinhos, entendendo o funcionamento da cidade pequena, em meio a natureza, dirigindo minha moto sabendo que se me perder todos estarão dispostos a me ajudar, mesmo sem falar minha língua, cumprimentando todos que cruzam meu caminho, inclusive os que nunca havia visto antes, vou passar uns dias andando de metrô com cachecol no pescoço, numa cidade enorme. E depois, chego em casa. E aí? Sobre o quê vou conversar? Será que vou me encaixar? Será que vou julgar as pessoas? Vou ser julgada? Vou conseguir ser profunda e rasa ao mesmo tempo? Terei espaço pra ser profunda? Estarei chata? Me reacostumarei ao toque? Vou voltar a ser uma pessoa calorosa? Vou conseguir utilizar todos os ensinamentos e vivências com leveza?

Me diz que é normal passar por essas dúvidas todas? Tô precisando de um ombro… Ligo pra minha mãe. Preciso saber que está tudo bem. Ela me traz as palavras que eu precisava ouvir: “Filha, estamos todos tão felizes com sua volta que não importa como você vai voltar. Só queremos você aqui, sem expectativas de ‘ela mudou, agora faz assim ou assado’”. E aí eu entendo. Mesmo que eu troque os pés pelas mãos, eles estarão lá pra me dar seus pés, mãos e ombros.


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Voltando pro Mundo

Abro o Word com o primeiro parágrafo quase pronto no mundo das ideias. Clico em “novo arquivo” meio que correndo pra não perder o fluxo que começa a jorrar na minha cabeça. É possivelmente meu último post aqui em Bali. Ó a responsa! Mas o Word parece não querer que eu escreva as palavras que estão na minha cabeça. Ele abre, por vontade própria, o seguinte arquivo, escrito por mim há alguns meses pra uma atividade do meu grupo de meditação no Rio:

“O véu caiu. Ela está pronta para dançar em meio aos 4 elementos. Água, fogo, terra, ar. Mas tem um 5º elemento oculto nessa dança: éter. Ela reúne, com feminilidade, as leis da natureza e faz delas seus instrumentos para perceber o fechamento de um ciclo. É hora de unir tudo o que foi aprendido nesse caminho e colher os frutos, lindos frutos. É hora de realização, de plenitude, de entendimento do processo. Hora de olhar pra trás e juntar os pontos, entendendo que o acaso não faz parte desse mundo. Hora de entender a verdade absoluta, de compreender o macro-processo.

Tem música nessa dança. Tem vibração. Uma única vibração que dá sentido a tudo. Você vibra em uníssono com o Universo. É onipresente e onipotente. É hora de perceber Deus dentro de você e assumir a divindade em cada uma de suas células, aceitando com amor cada uma delas. Se movendo em Deus, você é tudo o que existe. Seu Deus sabe dançar. Não tenha medo. Os planos pra você nesse momento são grandiosos, entre na dança, escute a música.

Dance livremente em você mesmo. Tenha liberdade de ser quem você é, que agora não existem mais questões internas para serem ocultadas. Não tenha medo de se assumir. Não tenha medo de assumir Deus em você. Sua intuição sabe melhor. Escute-a e corre pro abraço. Agora você tem o potencial de integração de tudo o que foi, é e será. É a hora de finalizar positivamente esse processo.

Arte, música, sucesso, trabalho, energia feminina, fertilidade, fé, realizações. Você está encontrando seu lugar no mundo.

Em todo fim, um recomeço. “

Sem mais.
Com muito mais.

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