O caracol e a tartaruga

Com a mente no comando, esqueço que estou aqui (na Terra, em Bali, na vida, nesse ano) para ser feliz. Chego a ficar tão presa às lições que estão sendo apresentadas para mim que me levo a sério demais. Tudo se torna um peso. Não lembro de sorrir.

Atingi um ponto em que varrer e tirar ervas daninhas se transformou numa prova de resistência mental: até onde eu consigo deixar os pensamentos quase obsessivos de lado? Chamo de “quase obsessivos” porque, no fundo, eles não precisam existir. Eu poderia simplesmente varrer. Poderia, se conseguisse.

E, por não conseguir, me martirizo. Obsessiva é, na verdade, a tentativa de não pensar em nada. A mente me domina, ora beliscando pequenas situações e questões, até o beliscão se tornar um (desnecessário) tapa na cara, ora me dizendo que não posso pensar tanto. Penso que não posso pensar.

Com a mente no volante, observar a macro conjuntura se torna missão impossível. No micro-cosmos Jiwa Damai, a macro conjuntura que precisa ser percebida é: porque eu estou aqui? Minto se digo que estou satisfeita. Minto se digo que estou satisfeita com o fato de não estar satisfeita num lugar que é, supostamente, perfeito pra mim. Yoga, meditação, permacultura, orgânicos, natureza, espaço para ser.
Espaço para ser? Com o passar desses meses, fui percebendo melhor meu tamanho, o que me faz expandir e o que me faz retrair. A contração é necessária, mas a retração não. A contração vem de dentro, do silêncio, da necessidade de parar para observar. A retração vem de fora, de algo ou alguém que te diminui, propositalmente ou não.

Aqui, apesar do potencial de expansão, me sinto retraída por algum motivo. O lugar é encantador, que fique muito claro. As pessoas que trabalham aqui, idem. Mas tem alguma coisa que não se encaixa comigo. Talvez seja cultural, talvez venha do fato que o hotel é gerido à moda alemã em meio à tradição balinesa. Ou seja, uma tentativa de organização absoluta numa cultura por natureza desorganizada. Se a tentativa de controle leva a frustração, a tentativa alemã de controlar o balinês pode levar à loucura. E eu aqui não tenho espaço pra ser a pessoa que descobri ser durante os últimos meses. Enclausurada.

Perco muita energia ao estar em meio a esse quebra-cabeça. Entendi que preciso me sentir confortável para me comprometer ao máximo. Confortável com a gestão, com o ambiente, com a relação intrapessoal. E não me encaixo aqui. Fico tensa tentando não deixar rastro algum, arrumando milimetricamente almofadas e cadeiras depois de me levantar, atenta para não falar demais nem de menos com os hóspedes. Atenção, tensão.

O brasileiro é mais expansivo. Folgado, dizem alguns. Pode ser que sim. Pode ser também que minha prioridade seja construir um ambiente caloroso. Limpar a louça pode esperar. Mas alguns lêem isso como não comprometimento.

Entendo, não critico. Diferenças de perspectiva e cultura. Mas tem sido difícil pra mim. E, quando me peguei varrendo e pensando nos meus próximos dias de folga, me lembrei do que escrevi há algumas semanas sobre estar presente no ambiente de trabalho e decidi ir embora daqui mais cedo.

Surpreendentemente, foi uma decisão sofrida. Talvez porque eu tenha me comprometido por mais tempo, talvez por ter me frustrado em meio a tanta expectativa ao redor desse lugar, talvez por me sentir desprotegida e sozinha sem um quarto permanente a partir de agora, talvez por ter que conversar com minha “chefe” sobre isso, talvez por não saber pra onde ir agora, por ainda não ter meu cartão de crédito comigo, por estar sem dinheiro no celular, por querer voltar pra Ubud e me forçar a conhecer outras cidades… posso achar inúmeros “talvez”. Mas no fundo, o fato é que estou numa terra desconhecida, sem ninguém pra pedir socorro. E essa sensação de desproteção me assola.

Os campos de arroz escutaram minha tristeza ontem. Sentada, observando o pôr do sol, em meio a um verde-que-te-quero-ver-te, deixei correr lágrimas sinceras. Sentia-me perdida. E agora? Pra onde vou?
A tartaruga leva a casa dela nas costas durante toda sua (longa) vida. E eu? Onde está minha casa quando estou longe de casa? Está aqui dentro, em algum lugar. Estou procurando minha casa. Estou procurando minha casa enquanto procuro sorrir.

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4 respostas para O caracol e a tartaruga

  1. shakti disse:

    Carolzinha,
    Deu vontade de ir aí te pegar no colo. Sei exatamente como está se sentindo. Isso acontece comigo, com bastante frequência. Não tem remédio. É um desfolhamento. Está relacionado com as expectativas sim. Te deixo Drumond:
    “Cobras cegas são notívagas.
    O orangotango é profundamente solitário.
    Macacos também preferem o isolamento.
    Certas árvores só frutificam de 25 em 25 anos.
    Andorinhas copulam no vôo.
    O mundo não é o que pensamos”
    Um beijo e abraço querido!

  2. Tai disse:

    Sua casa está no amor que você levou de tantas pessoas com você. Chora. Coloca pra fora. E sorria..pq seu sorriso é muito lindo de se ver. Sempre iluminou o horizonte. Olha pro por do sol e pensa: onde vou mostrar o meu sorriso e iluminar agora?

  3. Camila Niskier disse:

    A tartaruga leva com ela a sua casa, mas os caracóis também… Lembranças, experiências, risadas, gargalhadas, abraços, tudo está contigo!
    Estamos todos contigo!
    bjs enooormes
    Mila

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